Ao longo de todo o mês de novembro, um conjunto de organizações da sociedade civil; os governos de diversas capitais brasileiras e os movimentos populares locais realizam diversas atividades, cujo ponto alto é o 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra. Escrevo, sempre que possível, aqui mesmo no SM, algum texto alusivo a esta data. Mesmo lembrando que qualquer época do ano é uma época válida e importante para falarmos sobre representatividade e diversidade nas mídias, ainda assim, é igualmente importante que exista uma data específica para celebrarmos as conquistas já alcançadas por essa parcela significativa do povo brasileiro, mas também é fundamental enumerar as lacunas que ainda não foram preenchidas nesse período que abarca desde a grande diáspora até o aqui e agora. Esse ano, resolvi abrir as celebrações desta data saindo um pouco do nosso quintal (pretendo escrever posteriormente sobre a representatividade nas mídias no Brasil) e, por isso, decidi, a priori, homenagear e exaltar o legado de um extraordinário ator estadunidense, morto precocemente, em setembro deste ano, aos 54 anos e que não só representou em cena com maestria o seu povo ancestral como mostrou o seu melhor em tudo o que se propôs a fazer: Michael K. Williams.

“Um homem precisa de um código.”

Nos primórdios da minha vida no mundo das séries tive o imenso prazer de ter contato com The Wire, considerado por muitos como um dos maiores programas de televisão de todos os tempos e que mais tarde mudaria a forma de a indústria conceber séries de dramas policiais. A série foi criada e escrita por David Simon, um ex-repórter policial. The Wire estreou na HBO em junho de 2002 e finalizou as suas atividades em março de 2008. No entanto, o legado dela se perpetuou e ressoa até os dias atuais. Muito dessa repercussão é atribuída ao visceral trabalho do ator Michael K. Williams e a sua representação de Omar Little, um personagem que, além de apresentar um retrato fiel de muitos jovens negros em situação de vulnerabilidade e crime, vivia por uma série de códigos e morais, como por exemplo, roubar apenas de traficantes, nunca de inocentes. Esse personagem se tornou tão importante dentro daquela produção que se transformou em sinônimo da própria série. Omar Little era implacável, transgressor, violento, destemido, não tinha receio algum de expressar a sua sexualidade e dialogava diretamente com um público que geralmente não era representado de forma tão orgânica nos programas televisivos da época.

“Tudo no jogo, tudo no jogo.”

Para além da personificação de um criminoso de Baltimore ou da representação pouco positiva de um homem negro em cena – algo muito recorrente à época em que The Wire foi concebida -, saudemos o legado de um ator que na vida real tinha uma enorme cicatriz em seu rosto, marca da violência urbana em que ele estava imerso durante boa parte da sua vida, mas que não permitiu jamais que esse aspecto o definisse ou o transformasse em uma pessoa amarga e sem esperança. Michael K. Williams compreendia as regras desse grande jogo chamado vida, por isso, todos os dias ele travava uma luta incansável contra o vício, contra as memórias dos abusos sofridos durante a sua infância e contra os fantasmas do passado. Isto, de certa forma, poderia tê-lo quebrado, mas, pelo contrário, o ajudou a forjar um espírito combativo, resiliente e capaz de se reinventar sempre. Ou seja, apesar das demais cicatrizes que carregava pelo corpo, todas elas invisíveis aos nossos olhos, por serem frutos dos traumas psicológicos, ele era capaz de ver beleza em cada novo papel que interpretava, por isso, sempre nos entregava belas performances em cena.

“Estamos construindo algo, aqui, detetive, estamos construindo do princípio. Todas as peças importam.”

Com essa citação em The Wire, no início da primeira temporada, Lester Freeman (Clarke Peters) faz uma síntese daquela que se tornaria, segundo a crítica especializada, uma das maiores séries de todos os tempos, mas também mostrou muito claramente com qual régua Michael K. Williams media o seu trabalho e pautava as suas construções de personagens. Ele sempre estava construindo algo a partir do zero. Apesar de usar as suas vivências pretéritas como mote e pano de fundo para fazer surgir a gênese e o subtexto de cada personagem, não raramente, ele tinha que construir do principio e, para isso, todas as peças importavam.

Foi assim quando ele se desafiou e se lançou na comédia Community para dar vida a Kane, um Professor de Biologia. O próprio Williams disse em 2011, em uma entrevista ao The Hollywood Reporter que o seu personagem passou uma grande parte de sua vida na prisão, e foi na prisão que ele decidiu começar uma nova vida. E ele se educou, se formou, saiu, continuou sua educação e se tornou um Professor de Biologia. O seu personagem falava sobre privilégio, pertencimento e amadurecimento. Tudo se tratava de todas as dificuldades que aquele professor teve que enfrentar para conseguir o seu lugar ao sol, enquanto aqueles estudantes que, aparentemente, tinham todas as facilidades não valorizavam esse local privilegiado que eles ocupavam. Ainda nessa mesma entrevista ele afirmou que essa série não era só a comédia pela comédia: Com o passar do tempo, vemos que, embora ele [o Professor] possa ser muito inteligente no que diz respeito aos livros, há muito o que lidar com a sociedade, a forma como a sociedade mudou, com as quais ele não está acostumado. E então, começamos a ver essas crianças realmente ensinando-lhe. Então, é na verdade uma troca de conhecimentos e experiências que começamos a ver entre os alunos e esse Professor.

O que ajudou Williams a tomar a decisão de interpretar o Professor Kane, em uma série de comédia, distante da sua zona de conforto, foi o fato de que todas as peças importam quando se está construindo algo novo que vai impactar positivamente nas futuras gerações, principalmente se essa geração for composta por homens negros egressos do sistema prisional tal qual o seu personagem.

⁠” Histórias são como pessoas. Nós até podemos amá-las, mas não podemos alegar que são perfeitas. Sempre tentamos enaltecer suas virtudes e relevar seus defeitos, mas isso não faz os defeitos desaparecerem.”

Ao começar um novo trabalho, a principal coisa que Williams fazia era deixar a bagagem experiencial em casa. Ele ia para o set de filmagem como um vaso aberto, como uma esponja, e absorvia a energia da sala o mais rápido que podia. Ele pegava o ritmo. Ele percebia temperamentos e personalidades. E seguia o fluxo pedindo para os demais atores ajudarem-no e guiá-lo como se fosse um carro em uma nova estrada. Ele usou essa estratégia para dar vida ao incrível Albert ‘Chalky’ White em Boardwalk Empire e para dar voz ao interessante Smokey Greenwood em F is for Family. Trabalhos distintos, mas que exigiram dele uma grande versatilidade. Williams se utilizou dessa mesma expertise em The Night Of para criar Freddy Knight, um preso que sabia usar a sua influência para sobreviver em Rikers Island.

Quando fiz a catártica cobertura de Lovecraft Country para o Seriemaníacos eu me extasiei com tudo que essa minissérie me oferecia, desde a sua abordagem afrofuturista até a concepção dos seus personagens tão moralmente ambíguos. Contudo, uma das performances que mais me chamaram a atenção foi a de Michael K. Williams. Inicialmente tive muita raiva do personagem dele e abominei a sua negligência parental, mas logo depois passei a compreender as suas motivações. Claro que nada disso serviu de justificativa para sua postura em relação ao seu filho, mas ajudou a mostrar de qual material aquele homem foi forjado. Montrose, nesse caso, era quase como uma personificação de uma parte importante do próprio ator que lhe dava vida. Como todos nós, ele não era perfeito e, por mais que exaltemos as suas virtudes, não há como negar as suas imperfeições e os seus conflitos existenciais. No entanto, eram essas imperfeições e esses conflitos que o tornavam tão palpável, visceral e humano.

Rewind 1921, foi um poderoso episódio de Lovecraft Country, sobre um dos piores massacres de ódio racial estadunidense, que simplesmente foi apagado da história. Nesse episódio, a audiência teve a chance de ver algo que eu já havia enxergado em Williams desde The Wire: a excelência dramática do seu trabalho. Ele não só nos brindou com toda a sua boa atuação, como foi suficientemente generoso para dar espaço para que os demais atores em cena também tivessem a oportunidade de brilhar. Ali, claramente, ele estava em seu elemento, o drama e, por isso, nos deu uma aula completa de como extrair em frente a uma câmera o melhor que o seu ofício pode oferecer.

O talento de Williams e o seu ofício sempre foram indissociáveis, em um nível que dificilmente conseguiríamos descrever ou reduzir em palavras que simplesmente não fariam justiça a grandiosidade do seu legado. Por falar em legado, Williams precisa ser lembrado eternamente pelo conjunto da sua obra e por levar a representatividade dentro da indústria no seu melhor desempenho. Lembremos dele pela sua personificação de Albert “Chalky” White em Boardwalk Empire ou pela sua entrega ao dar vida ao sofrido Bobby McCray em Olhos que Condenam; recordemos dele pelo seu estupendo trabalho apresentando em Lovecraft Country um confuso, reprimido e explosivo Montrose Freeman, que mais tarde nos inspirou compaixão e empatia diante dos seus traumas passados. Rememoremos o incompreendido Omar Little em The Wire e tantos outros personagens vivenciados por um ator que entendia a essência completa do seu ofício, nos ofertando um presente precioso cada vez que encenava um novo papel. Se em algum momento tivemos os olhos marejados diante da perda física desta potência em constante evolução, agora precisamos sempre sorrir ao relembrarmos a trajetória de Williams, porque tivemos a chance de vivermos na mesma época que um incontestável e extraordinário homem nos entregou um epítome do que é ser um Ator.

Senhoras e Senhores, para finalizar esse texto, falta-me apenas dizer: Rest in Power, Michael K. Williams. A sua passagem brilhante pela terra não será esquecida jamais.

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