Começando a fazer perguntas difíceis.

Diplomacia é muito mais arte que ciência: todo sinal importa, todo protocolo é relevante. Bons diplomatas sabem que qualquer adjetivo ou advérbio importa. Por isso mesmo retratar a diplomacia numa obra artística que tem que entreter é tarefa dura. No seu terceiro episódio, Madam Secretary cresceu bastante ao colocar esse aspecto do trabalho de um diplomata sob o holofote, e, com um roteiro mais bem amarrado e uma montagem mais esperta do que nas duas duas primeiras horas, fez seu melhor episódio até aqui.

A trama sobre o vazamento de comunicações diplomáticas confidenciais, lembrou eventos recentes – nem tanto Edward Snowden, que foi citado, mas o caso Chelsea Manning-Wikileaks. Como a jornalista responsável por divulgar os documentos, Marin Ireland, que fez uma terrorista na primeira temporada de Homeland, protagonizou uma sequência bem tensa logo no começo do episódio. E sua personagem bradando confiança foi bastante bem sucedida.

O simples fato de a série ter sugerido, pela primeira vez, dilemas morais realistas fez The Operative se sobressair. O dilema entre transparência e a capacidade de operar no mundo da diplomacia é bastante real, e não tem solução simples. A prisão do espião americano no Paquistão cuja identidade foi tornada pública tem os pés incomodamente firmes no lado de cá da tela: não há nenhum caso confirmado (a CIA mantém a informação, que ironia, em sigilo), mas há rumores de que contatos da agência e do Departamento de Estado teriam sido mortos pelo Talibã na região próxima à fronteira entre Paquistão e Afeganistão depois de os vazamentos do Wikileaks indicarem sua identidade como colaboradores do governo americano.

Na cena entre Elizabeth e o embaixador paquistanês (Bernard White), quando ele diz com uma nota de ironia que os EUA têm a “prerrogativa de superpotência” de violar a soberania alheia, mas têm que pagar quando são pegos fazendo isso (um raciocínio incômodo porque bastante preciso), eu por um momento achei que a série ia deixar o espião preso ser executado. É claro que não foi isso que aconteceu; uma série de TV aberta não pode se dar ao luxo de tamanha ousadia tão cedo. Mas foi uma sequência de eventos muito mais tensa do que as tentativas anteriores de causar apreensão, e em parte isso se deve à direção muito superior desse episódio, que evitou as tangentes por assuntos menos importantes no meio da ação principal – a trama do fim do namoro da filha que os pais acompanharam espiando as mensagens dela não chegou a interromper de fato o ritmo da trama central.

Vale adicionar que o episódio começou a agregar substância à equipe do Departamento de Estado, com Jay (Sebastian Arcelus, o namorado da Zoe em House of Cards) ganhando atenção especial. A figura do assessor político em um gabinete técnico é muito real, e é interessante que a série tenha escolhido esse personagem pra ganhar atenção primeiro, já que a lealdade ou não dele pode ser relevante no futuro próximo. Como eu disse ao escrever sobre o piloto, sem um time de coadjuvantes que segure a barra fica difícil de a série conseguir crescer; aos poucos Madam Secretary parece estar tentando construir esse time. Isto dito, Erich Bergen precisa diminuir o tom do secretário-fiel-escudeiro Blake pra ontem.

A trama familiar tomou um caminho bem menos frustrante essa semana. O marido de Bess continua não me convencendo, e Tim Daly é um ator do qual eu nunca gostei particularmente, mas ele teve uma boa cena com o embaixador russo, e a trama sobre ele comprometer o próprio trabalho em favor do da mulher foi bem feita, embora a ideia seja absurda – haja proteção pro resto do mundo no dia em que a Rússia começar a vender armas por aí como barganha pelas notas dos filhos de diplomatas.

(Aqui vale talvez um aparte: para brasileiros a discussão sobre a nota da filha do russo pode parecer meio bizantina; mas na série o cara é professor de Georgetown, uma universidade classe A nos EUA, e não é exagero dizer que ele perderia o emprego se fosse pego aumentando notas de uma aluna).

Gosto especialmente da cena entre Elizabeth e Henry na cozinha, que foi muito, muito boa. Uma das discussões mais interessantes que Madam Secretary pode oferecer é justamente essa quebra de padrão de gênero no casamento deles, com a mulher sendo mais importante do que o marido. Não há muitas séries protagonizadas por mulheres casadas por aí, e não consegui pensar em nenhum caso que tenha essa divisão em que a mulher detém o trabalho mais relevante e influente. Talvez haja aí algo de inteligente a se dizer em episódios futuros.

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