
De um lado, Guilherme Inojosa. Do outro, Hélio Flores. E pulando do lustre em uma desnecessária e espalhafatosa entrada teatral, eu, Mateus Borges. Quem sairá vivo da mesa redonda mais brutal da história?
Spoilers Abaixo:
Nesta Mesa Redonda, discutimos aspectos tanto do finale quanto do resto da temporada. E para relembrar tudo que rolou antes de “The Phantom”, nós do Série Maníacos decidimos fazer um vídeo com os seus melhores e mais importantes momentos. Espero que vocês gostem:
Mateus Borges: Para mim, Mad Men em 2012 foi sobre o lado sombrio das mudanças. Ou melhor: até onde você iria para não se afogar nelas? Mais do que nos outros anos, a quinta temporada ofereceu fáceis tentações para os personagens, algumas éticas e financeiras, outras bem mais pessoais, morais, permanentes. E em qualquer um desses lados, a série sai do seu caminho e dos seus planos para mostrar a fundo causas e consequências, motivos vazios e mentiras contadas para que os personagens pudessem viver com si mesmos após tais decisões.
O interessante foi ver como cada um reagia quando uma dessas saídas era oferecida. Peggy pegou a primeira chance que teve e foi direto para fora da SCDP. Pete teve a chance de tomar o lugar de Don na empresa, e aproveitou para ter o que sempre quis. Pete teve a chance de trair Trudy, e cedeu aos seus instintos só para descobrir o quanto eles eram vazios. Megan teve a chance de fazer o que ama, de abandonar a publicidade. Para Joan, o exemplo mais óbvio desse mundo. O exemplo mais perfeito e nojento. E a única saída oferecida a Lane foi uma que renegava tudo que ele sacrificou. Tudo que ele havia sido ensinado a ser.
“The Phantom” circula desses pontos todos de volta para Don Draper e a sua saída. Saída que ele tomou com Betty e que deu no que deu. Saída que leva aos seus infinitos recomeços. O que vocês acham que ele vai responder?
Guilherme Inojosa: Antes de dar uma resposta, acho pertinente falar um pouco sobre o arco inteiro de Don durante a temporada. Ele estava apaixonado, tudo era perfeito, uma felicidade a muito não tida na sua vida e fez ele tentar de todas as formas se tornar uma pessoa melhor para que o casamento com Megan desse certo. Mas com o tempo, a projeção que sua psiquê gerou da pessoa que correspondesse tudo o que ele enxergava em uma mulher ideal foi se deteriorando, retratado na ótima sequência que vai de “Far Away Places” a “Lady Lazarus”.
Chegando a hora de enfrentar a realidade, se viu na mesma encruzilhada que no seu passado, entre incentivar a carreira profissional de sua esposa ou fazê-la se tornar uma típica dona de casa. Entretanto, por mais que analisar tudo de uma forma determinista pareça fácil, a história não pode se repetir pelo simples fato que Don aprendeu com os seus erros. Uma falha na carreira pode ser o suficiente para tornar Megan uma pessoa vazia e destruir o relacionamento no longo prazo, precisando de um simples prêmio de consolação para massagear seu ego.
Fazendo eu voltar para a encruzilhada, que resposta exatamente Draper dará? Por um lado, a sua atitude mostra uma vontade de não andar em círculos, depositando no âmago alguma esperança do relacionamento, caso contrário poderia simplesmente seguir os conselhos de Marie e tomar uma atitude nociva a longo prazo. Por outro, a expressão facial de Jon Hamm demonstra cansaço perante o desgaste recente. Qual resposta ele dará? Não faço a mínima ideia, na realidade o que mais me intrigo, no lugar de qual será a atitude tomada, são os efeitos que ambas as ações causarão no personagem na próxima temporada.
Hélio Flores: Dei muito pouca importância a esta cena final, pelo simples motivo de não gostar ou entender ela. Não me parece estimulante como mistério (é o máximo que uma série como Mad Men pode chegar de um “cliffhanger” e ainda assim acho desnecessário) e nem parece ter muito sentido dentro do arco do personagem: passamos a primeira metade da temporada vendo como Don Draper estava apaixonado e no momento em que Megan deixa a agência, o relacionamento de ambos já não é tão bem explorado, ela deixa de ser interessante e não há muita coisa que aconteça pra que percebamos um desgaste na relação. Até porque a segunda metade da temporada envolve tantos outros acontecimentos mais marcantes e que se referem aos demais personagens que no fim das contas pouco me importa qual será a resposta de Don à pergunta que encerra “The Phantom” (e que obviamente não saberemos quando a 6ª temporada tiver início). O final é ambíguo, mas sinceramente não vejo do porquê existir a possibilidade dele abandonar a esposa: houve pouco ou nada de desenvolvimento neste sentido, de “Mystery Date” até aqui, além de Megan querer seguir uma carreira de atriz ou do dente podre e do fantasma de Adam neste season finale, que fariam o protagonista refletir sobre sua vida de um modo geral. Soa muito pouco pra que tenha força dramática a suposta decisão de Don. O que, de qualquer forma, não tira a beleza dos momentos finais envolvendo o personagem, assistindo aos filmes com Megan e dando as costas ao cenário em que ela atuará (ele envolto em sombras, ela sob a luz).
MB: Meio que discordo com o Hélio nesse ponto sobre o casamento dos Draper, pois sinto que toda a segunda parte da temporada, pós-Far Away Places, é sobre Megan e Don se encontrando presos em uma espécie de rotina que ambos não conseguem sustentar. Umas três vezes ele volta para casa, ela esperando com o jantar e a mesa todos prontos. E em cada uma das vezes ele tem um motivo diferente para estar atrasado.
O meu problema com a quinta temporada é como às vezes ela soa meio… Aberta. Fechada de ponta a ponta, talvez o ano mais bem planejado da série. Mas um pouco crua em como aborda as coisas no seu centro. Mais do que não, ela tornou o 2+2 entre os personagens algo mais óbvio do que geralmente fazia, levando a audiência a interpretações bem similares e, com isso, a uma perda de toda uma aura enigmática que me fascinava.
Achei o dente podre de Don, por exemplo, um símbolo constrangedor. Que coisa óbvia, que jeito não-Mad Men de ser. Adam também não ajudou, por mais interessante que Weiner (retornando para dirigir o season finale como sempre faz) tenha tentado filmar as suas aparições. O que é um problema apenas em metade das vezes: só para provar o quanto ela ainda é genial e uma das melhores coisas na TV, o melhor episódio da temporada (“The Other Woman”) talvez seja o mais escancarado da série. Vá entender…

GI: Neste ponto eu concordo com o Mateus, a quinta temporada tendeu a ser bem mais expositiva do que as outras e destoa do quanto Mad Men representava para a linguagem televisiva ao jamais expor demais em seus diálogos, algo que gostamos ou não é marca registrada da tevê. Ela teve essa fraqueza, mas que mesmo assim não conseguiu ser um empecilho para a imensa qualidade que a série apresentou, com uma sequência de episódios muito boa e cada uma das tramas minimamente orquestradas. Eu sou um pouco volátil para dar esses palpites, mas tendo a achar este ano, apesar de tudo, o segundo melhor da série, mesmo que ela já esteja sentindo um pouco, em uma bela metalinguagem, o sinal do tempo.
Meu problema maior com a temporada foi sua instabilidade, com os momentos bons sendo tão bem conduzidos que nos faz esquecer das falhas e alguns momentos ruins constrangedores. Tramas, mais sintomaticamente a de Lane, que ocuparam muito tempo desnecessário até chegarem a algum lugar. É como se pudesse ter sido feita uma lipoaspiração de alguns episódios para tornar a temporada bem mais eficiente. Mas são defeitos que eu acho pequenas se comparadas com um todo tão conciso.
HF: Eu também concordo com a falta de sutileza em vários momentos da temporada e é engraçado que, pelo que Mateus disse, é justamente sutileza que haveria na deterioração do relacionamento de Don e Megan – algo que, repito, não vejo, e se a intenção era mostrar isso (culminando na ambiguidade da cena final), a mim soa bastante frágil.
Mas voltando às fraquezas da temporada, acho que “The Phantom” é um bom resumo delas, empurrando goela abaixo o tal fantasma e seu significado para os personagens: Don vê um, a mãe de Megan explicita qual seria o da filha, Pete verbaliza, Roger também retoma o seu. É tudo muito na cara e isso talvez não fosse um problema se a própria série já não nos tivesse mostrado antes como é possível tratar dessas coisas de outras formas. E como final de temporada, fica isso que o Mateus diz de não querer deixar pontas soltas (o episódio parece apressado, especialmente a trama de Pete, com tudo tendo que se resolver logo). Não é algo ruim, apenas não é memorável.
Mas também estou propenso a relevar, porque como o Guilherme diz, os melhores momentos da temporada nos fazem esquecer os piores. Quando Mad Men tem um grande episódio, (quase) tudo na TV parece bem inferior.
GI: Um exemplo disto pode ser tirado até mesmo em “The Phantom”, como a transformação que o episódio sofre a partir da conversa entre Peggy e Don que enfatiza os arcos de ambos durante a temporada e, ao mesmo tempo, sendo a primeira vez que ambos podem se falar de igual para igual, sem o estigma de pupilo e mestre mais. Com um roteiro inteligente ao não tentar bater na tecla de que Don só foi perceber o valor de Peggy ao perdê-la, deixando isto a cargo do espectador.
O mesmo podemos dizer da montagem final, mostrando onde cada personagem está e comparando com o ponto onde o próprio Draper está na vida atualmente(sendo, inclusive, um dos motivos que senti a falta do núcleo dos Francis nesse episódio), ao mesmo tempo mostrando que todos ali estão longe de conseguirem atingir a felicidade, porque nada na vida será sempre igual ao que sonhamos
Outras observações:
GI: O grande momento da direção de Weiner do episódio foi, sem dúvida, aquele enquadramento bem simples envolvendo os cinco membros da SCDP, centralizando Joan para sair destoante das vestes escuras dos seus parceiros e remetendo à personagem ser praticamente o coração da companhia.
Falando em figurino, Janie Bryant tem uma ideia elegante ao utilizar uma veste azul clara em Trudy Campbell na cena final do casal, numa alusão aos olhos chamativos de Alexis Bledel e, não por acaso, o momento de maior união do casal.
MB: Bem, chegamos ao fim dessa cobertura. Foi um prazer compartilhar essa temporada de Mad Men com todos vocês, e agradeço pra caramba por todos os comentários. Valeu Hélio, valeu Guilherme, valeu Cesar Filho e Di Wey pelas fantásticas ilustrações e vídeo. Até ano que vem, pessoal!
GI: Com a temporada de Mad Men acabando, será triste esperar até o próximo ano para novas aventuras dos executivos, mas, como uma forma de sanar dois problemas de uma vez, e honrar duas personagens que adoram usar vermelho, aqui vai a sugestão de spinoff crossover para os executivos da AMC e HBO, chama-se: “Joan e Melissandre, as sacerdotistas de Madison Avenue”, onde terá um pouco de filosofia, história, ferro e fogo.















