Se há um livro que você deseja ler, mas ainda não foi escrito, você deve escrevê-lo. – Toni Morrison.

O dinâmico oitavo episódio de Lovecraft Country nos entregou bem mais do que esperávamos, ao interligar os fatos através de reviravoltas inesperadas, a série conseguiu explicar alguns dos curiosos acontecimentos que nos intrigaram durante boa parte da temporada. Tivemos a marca de Jordan Peele em um episódio que nos nocauteou com o seu rico desfile de informações, de suspense, de horror e de revelações importantes. Tivemos também três estreias de peso nessa etapa final de Lovecraft: Misha Green na direção do seu primeiro episódio para a TV; Ihuoma Ofordire com seu brilhante primeiro roteiro para a TV; e a talentosa Jada Harris (Dee) com a sua primeira personagem central em um episódio de um programa para TV.

I can’t breathe, é a expressão que melhor define esse capítulo de Lovecraft, que utilizou a perda e a dor, o horror e o ódio racial, a desesperança e a reconciliação para pavimentar os caminhos para construir uma narrativa tão sufocante quanto o calor nauseante das ruas de Chicago sob o cheiro pútrido dos despojos do jovem Emmett Till. A cerimônia fúnebre de Emmett é o ponto de início desse episódio, à direção optou sabiamente em nos poupar da imagem impactante do corpo decomposto do garoto. Era de se esperar que em meio ao luto e a dor os adultos decidissem que ocultar a verdade seria a melhor solução para proteger Dee. Essa decisão só reforça a minha tese de que todos os personagens de Lovecraft não sabem agir como uma unidade e, por isso, eles mentem e ocultam os fatos sob o pretexto de proteger uns aos outros. Porém, essa rede de mentiras nunca protege ninguém, vide o caso de Hippolyta que se lançou em uma aventura insólita em busca de respostas exatamente porque esconderam dela a real situação que ocasionou a morte do seu marido. Por causa de toda essa situação, Dee se viu nas mãos do temível Capitão Lancaster, que a pressionou, a agrediu e a assustou de uma forma que nenhuma criança deveria experimentar. Se não bastassem as agressões, Lancaster ainda lançou uma maldição contra a menina que a impedia de contar aos demais sobre a ameaça sofrida. Um pouco mais tarde, o embate de Dee com Montrose foi desgastante demais, além da agonia causada pela maldição, o pai de Atticus manteve a mentira sobre o sumiço de Hippolyta; cansada de tanta mentira, a menina encontrou na fuga sorrateira a melhor forma de se defender e de encontrar as suas próprias respostas. As vezes Montrose passa dos limites por não ter empatia pelos outros, vimos isso no final do episódio quando ele deixa Dee vulnerável ao ataque das entidades.

Enquanto procurava por Diana, Leti foi surpreendida pela presença de Ji-Ah em sua casa, a moça estava à procura de Atticus. Enquanto isso, o jovem veterano, em um encontro clandestino com Christina, troca a chave do Planetário por uma runa de proteção para ativar um feitiço. O interessante dessa situação é que finalmente Atticus acordou para o fato de que a magia pode ser um bom negócio para ele também. Um pouco mais adiante, Ruby retorna para a casa de Christina, talvez por encontrar junto da herdeira Braithwhite a segurança e o conforto emocional que ela tanto necessita. A morte de Emmett cobrou um preço alto do aspecto emocional de Ruby, ele sentiu uma dor inexplicável e isso a colocou em uma posição delicada. Como Christina disse mais tarde, há um lento renascimento brotando dentro de Ruby e lá no fundo ela sabe muito bem o que quer e sabe quais são os meios necessários para realizar os seus sonhos. A sua bizarra conjunção carnal em meio a uma metamorfose só reforça a ideia de que Ruby nesse momento prefere cuidar dos seus próprios negócios ao invés de se preocupar com a coletividade, ela está cansada de se sentir impotente, o que por si só já é muito triste.

Ao retornar para a casa e encontrar Ji-Ah, Atticus foi extremamente rude e frio com a moça, levando em consideração o tipo de conhecimento sobre magia que ele adquiriu depois que voltou da guerra,  já não faz mais sentido ele guardar tanto ressentimento ou receio sobre o fenômeno que atingiu a sua antiga namorada. Espero que Ji-Ah retorne no próximo episódio, achei a sua participação muito rápida e se era apenas para dar um alerta para Atticus, ela poderia ter feito isso até através de uma ligação telefônica. Ao constatar que Ji-Ah ama Atticus, Leti se enfureceu e o colocou para fora de casa, deixando claro que as implicações da sua morte, seguida de ressurreição, ainda repercutem profundamente nela. Toda essa confusão a fez ir até a igreja em busca de conforto, mas atendendo ao seu chamado, Christina vem em busca de um acordo, que resulta em Leti recebendo uma marca de Caim como símbolo de proteção. Creio que já está na hora de Leti se colocar na frente dos demais, principalmente de Atticus, agora que ela carrega uma criança em seu ventre não cabe mais essa exposição ao perigo.

Dee começou a ser assombrada pela dupla de entidades conjuradas por Lancaster e esse é o tipo de cena que realmente me assusta, não por conta do sobrenatural em si, mas por causa da solidão da situação, afinal, somente Dee consegue visualizar a assombração, mas  que tipo de poder ela tem para lidar com algo que ela não entende? Me senti muito satisfeita ao ver Dee sendo combativa em relação a Lancaster, aquela cusparada foi uma resposta à altura para as ameaças sofridas, no entanto, a sua atitude impulsiva levou o capitão diretamente para a casa de Leti mais tarde.

Tinha falado na review anterior sobre a difícil relação entre Montrose e Atticus e, curiosamente, de todas a coisas impensadas, é no vínculo entre um pai e um futuro pai que ambos encontraram o caminho para um possível entendimento. Ponto para direção da série que encontrou um caminho do meio para essa dupla, mas sinto que o fato de Montrose sempre usar de meias verdades para lidar com o filho ainda vai ser o estopim de algo muito ruim entre eles mais adiante.  Atticus fez importantes revelações para seu pai ao lhe contar sobre a gravidez de Leti e sobre a sua viagem para o futuro. O rapaz confirmou que realmente esteve no futuro ao atravessar o portal, lá uma mão robótica lhe entregou um exemplar de Lovecraft Country escrito pelo seu filho, George Freeman. Achei brilhante a metalinguagem proposta pela narrativa ao nos mostrar didaticamente que estamos lidando com várias linhas temporais: a do livro original de Matt Ruff; a do roteiro de Misha Green; e a da obra original de H. P. Lovecraft. Com isso, o futuro de todos os personagens é bastante incerto, já que tanto Atticus quanto Hippolyta tiveram acesso a outras linhas temporais e outras realidades, daí já não sei até que ponto a visão de Ji-Ah sobre a morte de Atticus no futuro ainda procede e faz sentido. Em seguida, em um momento de interação mais harmônica entre pai e filho, Montrose se dispõe a ajudar Tic a fazer o feitiço, que aparentemente não funcionou como esperavam, já que nada aconteceu de imediato.

Christina revivendo a morte de Emmett foi uma das cenas mais confusas e problemáticas do episódio. Compreendo que as palavras de Ruby foram fortes e profundas, mas será que chegaram a mexer com a cabeça da moça a ponto de ela se dar conta da sua indiferença em relação a morte brutal do garoto? Tenho minhas dúvidas. Christina não se importa verdadeiramente com o mundo ao seu redor, ela, na verdade, está mais interessada em equacionar as suas demandas pessoais e as suas ambições. Ao reencenar a morte de Emmett, eu só posso supor que Christina pretendia ou criar uma experiência de empatia ou canalizar magicamente a energia do luto e da dor para validar o seu feitiço. Achei a cena meio problemática porque ao invés de homenagear respeitosamente o garoto morto como vinha sendo feito até então, o episódio meio que relativizou o fato ao transformá-lo em um ato performático meramente mágico e com a certeza da ressurreição de Christina no final através da marca de Caim, o que não foi o caso do próprio Emmett. A cena foi bem desnecessária, no meu ponto de vista. Seguindo essa linha de raciocínio, e caso a série não produza uma outra explicação para essa violência gratuita, percebo que a ação dela foi meio que invalidada, por ser meramente superficial e exploratória, tal qual turista rico visitando favela para experienciar a vida na periferia, mas com a certeza de que a sua mansão na zona nobre o aguarda.

Finalmente Ruby e Leti abriram o jogo e colocaram toda a história sobre magia em pratos limpos. Isso era algo que eu já esperava desde o sexto episódio, pois considero que já é hora de todos os principais personagens saberem que a magia existe. Claro que a conversa foi interrompida abruptamente pela chegada de Lancaster e dos seus homens, que de forma injusta começaram e disparar as suas armas aleatoriamente. Nessa hora a minha preocupação estava exatamente com os moradores da casa, afinal, bala perdida sempre tem um endereço. Para a nossa surpresa, Leti se tornou invulnerável e as balas não puderam atingi-la, mas foi meio desesperador ver Tic parado na rua com os braços levantados e muitas armas apontadas para ele. Já sabemos como essas histórias terminam, correto? Not today Satan! Dessa vez a história nos surpreendeu ao fazer brotar da terra um shoggoth de estimação, pronto para defender o herdeiro do sangue Braithwhite. Nossa, foi um deleite visual observar o monstro matando ferozmente os policiais racistas. Creio que esse shoggoth foi conjurado através do feitiço de proteção.

De alguma forma, através de Dee e de Emmett, o episódio mostrou como a infância das crianças pretas é interrompida sob o falso pretexto de que são crianças fortes, maduras, que sabem se cuidar sozinhas ou que não precisam fazer parte da infância comum, reservada apenas para crianças privilegiadas. Emmett foi covardemente morto, tendo a sua vida abreviada por algozes que sequer pararam para refletir que estavam massacrando uma criança que acabara de atravessar a linha tênue que o conduziria para a adolescência plena, ele ainda tinha muita vida pela frente.  Dee, por outro lado, foi deixada a própria sorte no momento mais terrível de sua vida, já que seu pai está morto e a sua mãe desaparecida. A menina foi negligenciada por todos os adultos que deveriam cuidar dela, deixando-a entregue a sua própria sorte para lidar com policiais racistas e abusivos, com a perda de seu amigo e com os horrores do sobrenatural. Observo que são pessoas boas que estão no entorno da menina, no entanto, mesmo essas boas pessoas não conseguem enxergar a extensão do malefício cometido quando crianças são forçadas a queimarem as etapas do crescimento. Dee viu o carro da sua mãe sendo escondido, ela percebeu que todos os adultos estavam mentindo para ela, logo, não havia razão para acreditar neles, por isso, ela decidiu fazer as coisas do seu jeito, mas e os adultos? Porque desistiram dela tão rápido? O episódio foi sútil, alternado entre o ponto de vista de Dee e o peso do luto imposto pela morte prematura e violenta de Emmett, a trama deixou claro que para algumas crianças a infância termina muito cedo, já que elas precisam enfrentar em tenra idade as dificuldades impostas pela vida, enquanto que para outras crianças a infância se prolonga até quase a vida adulta, sem nunca se darem conta de como as coisas funcionam na vida real.

Com Jig-A-Bobo, Lovecraft Country colocou todos os seus principais elementos definidores na ordem do dia. O episódio nos entregou algumas cenas de suspense dignas do filme Us, de Jordan Peele, também nos fez sentir a vibe daquele pavor bem retrô ao estilo Jason Voorhees e Freddy Krueger, sem perder o foco na sua narrativa sobre o ódio racial e o mundo mágico e sobrenatural. Tenho que confessar que tudo que envolve a força policial de Lovecraft as vezes me assusta bem mais que os monstros, esses policiais possuem muito poder e fazem o que fazem só porque eles podem e também porque sabem que ninguém irá pará-los. Constatar que além de usarem o poder da corporação eles ainda recorrem aos poderes mágicos é assustador demais. E agora com a morte de Lancaster, todos terão que ter muito cuidado.

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Por Dentro do Território

Picaninny – É o nome dado às duas criaturas que seguem e aterrorizam Dee após o Capitão Lancaster lançar a maldição. o pickaninny foi usado para zombar das crianças negras como indisciplinadas, selvagens e desleixadas. Os picaninnies tinham olhos esbugalhados, cabelo despenteado, lábios vermelhos e bocas largas nas quais enfiavam enormes fatias de melancia. Eles eram rotineiramente mostrados em cartões postais, pôsteres e outras coisas efêmeras tipo comidas. Picaninnies eram retratados como bufões naturais sem nome e sem movimentos coordenados. Claro que, ao usar essas duas criaturas como elemento de terror, temos nesse episódio não só uma alusão às gêmeas do filme O iluminado como também da personagem Topsy, do livro A Cabana d Pai Tomás.

Jig-A-Bobo – O título do episódio é uma espécie de trocadilho com o apelido de Emmett Till e com a ofensa racial jigabobo.

Uncle Tom’s Cabin – Romance antiescravidão de Harriet Beecher Stowe, publicado em 1852, o livro “ajudou a estabelecer as bases para Guerra Civil”, segundo Will Kaufman, no entanto, mais tarde, após várias adaptações, esse mesmo romance serviu como ferramenta depreciativa das pessoas negras. O nome “Tio Tom”, por exemplo, foi usado como pejorativo para os homens negros que são subservientes à autoridade branca. No livro, o Tio Tom é espancado até a morte por seu mestre Simon Legree, após se recusar a revelar para onde seus companheiros escravos escaparam.

Naomi Wadler – O discurso que ouvimos de fundo na cena em que Dee sai da alcova de Lancaster e é perseguida pelas entidades Topsy e Bopsy é o proferido por Noami Wadler, na ‘March For Our Lives’ (Marcha pelas Nossas Vida). A menina de apenas 11 anos discursou para uma multidão em Washington, DC, em março de 2018, falando que uma criança negra tem 10 vezes mais probabilidade de ser vítima de violência armada do que uma criança branca e, por isso, aquele país precisa rever a sua política armamentista.

Cruel Summer – A música Cruel Summer, do Bananarama foi o tema das cenas de abertura do episódio. A música faz referência a um verão cruel e escaldante, o que se assemelha ao clima quente apresentado no episódio.

Entidades – Topsy foi interpretada pela atriz Kaelynn Gobert-Harris e Bopsy pela Bianca Brewton, ambas fazem referência à menina escrava da obra A Cabana do Pai Tomás.

Funeral – Na vida real, Mamie Till tomou a decisão de dar a Till um funeral de caixão aberto, para que o mundo inteiro pudesse ver o que tinha sido feito com seu filho. o corpo de Emmett passou dias no rio Tallahatchie, por isso Dee comentou sobre o cheiro horrível que ela sentia durante a cerimônia fúnebre.

Creme de Trigo – O homem na frente da caixa do creme de trigo era um chef profissional de Barbados chamado Frank White. A B&G Foods removeu a imagem de White da embalagem em 2020, em meio a preocupações de que isso reforçava estereótipos negativos sobre os negros como empregados domésticos

REVISÃO GERAL
Nota:
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lovecraft-country-1x08-jig-a-boboLovecraft Country colocou todos os seus principais elementos definidores na ordem do dia. O episódio nos entregou algumas cenas de suspense dignas do filme Us, de Jordan Peele, também nos fez sentir a vibe daquele pavor bem retrô ao estilo Jason Voorhees e Freddy Krueger.