2014 foi um ano importante para a comunidade LGBT dentro da televisão aberta brasileira. Foi nesse ano que Walcyr Carrasco conseguiu levar ao ar, no último capítulo de sua novela Amor à Vida, um beijo gay feito às claras e sob uma imensa expectativa do público. O salto foi histórico sob diversos aspectos, mas foi por um mais que todos: o público conservador da Rede Globo foi seduzido por uma história de amor que – pela primeira vez – fugia do modelo heteronormativo convencional.

Já no ano seguinte, as portas voltaram a se fechar. O relacionamento entre as personagens de Fernanda Montenegro e Nathália Timberg na novela Babilônia, incomodou parte da audiência e os cortes voltaram a acontecer. Esses mesmos cortes que já tinham afetado Torre de Babel, América, Avenida Brasil e tantas outras novelas que tentaram abordar a homoafetividade de uma forma que se ausentava da fácil permissão concedida pelos alívios cômicos. Ou os autores acabavam seguindo o riso ou simplesmente abriam mão da luta.

Essa semana, a novela das 23 horas, Liberdade Liberdade, voltou a movimentar as redes sociais acerca do tema, quando divulgou que os personagens de Ricardo Pereira e Caio Blat na trama, teriam uma cena de sexo. Foi uma notícia que fez seu papel nas mídias: metade dos veículos especulava sobre as manifestações de repúdio e a outra metade especulava sobre se a cena ia mesmo acontecer ou não (uma vez que cortes de última hora não são incomuns nas diretrizes da empresa).

Eis que já sabemos que a cena realmente aconteceu e foi corajosa, dadas as devidas proporções. André e Tolentino, os dois personagens, estão desde os primeiros capítulos da novela construindo um complicado envolvimento que acabou culminando na cena. Por tratar-se de uma história de época, houve um monte de preocupações sobre como conseguir criar uma relação de desejo e afeto que fosse uma representação do que possivelmente aconteceria naqueles tempos. Avaliar isso, contudo, também depende de como a novela se sai como um todo.

Liberdade Liberdade não é uma novela ótima. Assim como costuma acontecer com produções de época, apenas o fato de recontar a realidade fora do nosso tempo, com muitos recursos de produção, já a envolvem de uma frágil aura de qualidade. Além de deslizar em fatos históricos apenas para perseguir a idéia de heroísmo, a novela tem uma produção textual pouco apurada, soa didática e burocrática na maioria do tempo, fazendo com seus discursos políticos e sociais pareçam sempre artificiais. Porém, ela ainda se esforça para manter o horário das 23 tomado de abordagens mais ousadas.

Da negra que foi criada como branca, passando pela prostituta que se recusa a prática do aborto que as sinhás tornaram corriqueira, chegando até dilacerações e mutilações a olhos vistos, tudo em Liberdade Liberdade é passível de uma crítica ao desenvolvimento e no caso da relação entre André e Tolentino não é diferente. Porém, quando colocamos em perspectiva o impacto que isso pode trazer na discussão acerca da naturalidade do afeto entre homens, essa necessidade de rigidez com a forma, perde seu lugar.

André e Tolentino foram criados em cima de estereótipos que devem ter sido imediatamente questionados pelos reprodutores de discursos “pseudo-sabidos”. O estereótipo não é uma mentira, é um uso pejorativo da verdade. A novela acerta ao dar a André uma feminilidade que não pode ser atribuída a nada que não seja expressão inevitável da essência. Ele teve pai presente, viveu cercado de ensinamentos masculinos brutais, cresceu visitando prostíbulos, mas sua natureza delicada se impõe a despeito de tudo isso. O mesmo raciocínio pode ser usado para julgar Tolentino, que mesmo sendo mais heteronormativo, também não passa de um homem que reverbera inevitabilidades. A diferença é que com ele, é a agressividade que sufoca anseios.

Inserir personagens gays em dramaturgias não-contemporâneas é muito válido sempre, porque ilustra a idéia de que homoafetividade sempre esteve em pauta na existência humana, mas era vivida ou reprimida por diferentes razões. Não importa o tempo, o meio, o convívio, a trajetória… A homossexualidade é um traço inerente, natural e que existe pela melhor razão de todas: nenhuma. Apenas é, como ser heterossexual, é. Esse acaba sendo o reflexo mais importante dessa história.

A cena também tomou as decisões certas e usou a mesma desonestidade romântica das sequências entre casais heteros. Ninguém transa em câmera lenta, com lençóis por cima, apenas respirando alto, sem nem ser ofegante. Na vida real a gente joga os cobertores no chão, geme, grita, fala uns palavrões e converte anseio em velocidade. Mas, nas novelas não. Tudo é coreografado para ser plástico e romântico. Assim, ao tomar a decisão de usar a mesma velha métrica na cena entre os dois personagens, a direção acertou. Aquele é muito mais um momento de posicionamento narrativo, de honestidade artística, do que uma desculpa para ver atores sem roupa.

Contudo, a exemplo do que aconteceu com Babilônia ao vir depois de Amor à Vida, não necessariamente estamos sobre as asas da liberdade. Apesar da civilização moderna estar absolutamente soterrada de filmes, séries, novelas, livros e músicas que prestigiem em quase 100% a modalidade heterossexual de envolvimento romântico, ainda há quem pense que “tem gay demais aparecendo na TV”. E há quem trabalhe para evitar que no meio de tantos privilégios artísticos, a comunidade LGBT tenha sua porcentagem mínima de referência.

Por isso tudo, logo depois de ver a cena, tirei uma selfie com o meu namorado e postei no instagram com a legenda: #LiberdadeLiberdade. Essa liberdade…Tão insistentemente utópica, que um dia possa celebrar amor e desejo (desejo sim) em qualquer vestimenta artística que lhe caiba. Essa, tão necessária para a sobrevivência de quem tem num beijo ao ar livre, num caminhar de mãos dadas, numa simples declaração pública e até numa selfie do instagram, a emoção de “ser igual”. Quando uma novela faz algo como o que fez essa semana, ela ilustra a apelo de uma representação que os heterossexuais têm todos os dias, em todos os horários da programação, para todas as faixas etárias… Porque sim,  no final das contas, a liberdade LGBT ainda é mais “segura” quando você olha pros lados, espera um intervalo entre postes ou espreme depois das 23 horas.

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