No qual descobrimos que a fritação de massa cinzenta veio pra ficar.
É consenso geral que o piloto de Legion extrapolou todos os limites do convencionalismo em séries de super-heróis estabelecidos até hoje. A sensação de acompanhar um seriado como esse se compara minimamente àquela que eu tive assistindo Jessica Jones: uma imersão tão profunda em um cenário realista que nos momentos em que entrávamos na parte esotérica, vilanesca e mais compatível com o gênero de super-heróis da narrativa, algo parecia deslocado. Nos esquecíamos do selo Marvel na abertura do episódio.
Obviamente a parte do “realismo” não se aplica a Legion. Muito pelo contrário. É a própria desconstrução e tortura da realidade que torna a série tão incomum. Num descuido podemos nos esquecer do contexto, e apreciar apenas uma obra instigante e audaciosa sobre os problemas mentais de David Haller. Com a importante exceção de duas cenas: a saída do interrogador da sala onde David está detido, revelando uma operação governamental de calibre pesado, e a última sequência do episódio, quando somos torpedeados por efeitos especiais de qualidade duvidosa, conhecemos a personagem de Jean Smart e temos um déjà vu pesado com o personagem de Charles Xavier convocando um novo mutante a se juntar ao seu time.
O piloto da série foi espetacular, mas essas duas cenas me deixaram encucado durante toda a semana. Seria Noah Hawley capaz de unir com naturalidade suas viagens no ácido ao procedural básico de qualquer série mutante? Vocês conseguem imaginar uma narrativa simples com um vilão maquiavélico inserido nesse ambiente tão incomum de Legion? Uma história de origem? Sequências de treinamento? Enfim, qualquer coisa mais “normal” que você espera de algo no universo X-Men?
Várias respostas ainda estão um pouco distantes, mas uma delas veio para me alegrar nesse episódio: a loucura vai continuar. Chapter 2 pula loucamente de uma situação para a outra, se recusando a situar o espectador em qualquer realidade tangível e convencional. Sempre que pensamos que a poeira assentou e a narrativa entrou nos trilhos da linearidade, Hawley sacode a carroceria mais uma vez. Isso tudo enquanto somos teoricamente introduzidos a um daqueles elementos convencionais de qualquer trama mutante: o treinamento dos poderes do personagem em Summerland (*), nossa nova Mansão X.
(*) Creio que aqui a série se separa definitivamente do universo cinematográfico da FOX. Em Legion os mutantes vivem escondidos na floresta e perseguidos por uma sombria organização governamental. Pensando logicamente, o instituto de Xavier não tem espaço para existir dada a inerente clandestinidade dos mutantes, e talvez nem o personagem de Stewart/McAvoy em si. Hawley pode muito bem mudar a paternidade de Haller.
Essa parte do roteiro poderia ser o ponto em que Legion baixaria um pouco a bola, entrando numa etapa mais sóbria de sua narrativa. O que o showrunner teria a dizer sobre isso?
– NOPE!!!
Através do ainda obscuro poder de Ptonomy, as sessões de treinamento de David são tão ou até mais confusas que seus delírios no piloto. Isso poderia se tornar rapidamente algo cansativo para a série, mas Hawley não desperdiça nenhum momento. Podemos não entender onde David está, o que é sonho, o que é realidade e qual é a linha do tempo dos acontecimentos, mas a cada pulo da narrativa vamos conhecendo mais o personagem. Um vínculo com grande potencial é construído entre ele e sua irmã Amy. Vemos um pouco do seu misterioso pai, que pode ser ou não Xavier mas com certeza é a chave para algum mistério da série. Conhecemos seu antigo psicólogo.
Pontuando todos esses momentos, em alguns calmos interlúdios espalhados pelo episódio, o terno relacionamento entre Syd e David se desenvolve. A similaridade dessa situação com a subplot de Vampira e Bobby Drake na franquia X-Men é cristalina, mas Hawley toma uma direção diferente. O foco aqui não é na revolta de uma personagem com o seu próprio poder, que a impede de experimentar as coisas normais da vida, mas sim em algo mais singelo: construir uma conexão autêntica entre dois personagens que não podem expressar seu afeto fisicamente. Para isso, entretanto, precisamos que Syd tenha tridimensionalidade. Outro desafio para Hawley: como desenvolver a personagem de Rachel Keller em uma série tão dependente do ponto de vista enlouquecido de seu protagonista? O perigo de que ela se transforme em um acessório de David pelo resto da temporada existe.
Esse é um problema que parece não existir para Lenny. Apesar de também ser apresentada exclusivamente do ponto de vista de David, a personagem é tão deliciosamente fanfarrona que sua personalidade emana sem problemas. Nesse episódio ela invade novamente o cérebro do protagonista… ou será que não? Ptonomy e Melanie estão presentes em uma cena analisando uma das memórias de David, na qual ele compartilha de algumas substâncias ilícitas com Lenny. Será que os dois já se conheciam antes de entrarem em Clockworks e a bizarra negociação do fogão laranja realmente aconteceu?
Em uma entrevista para o Uproxx, Noah Hawley prometeu várias respostas aos mistérios da série ainda nessa temporada. É fácil comparar a multiplicação de pontos de interrogação que ocorre aqui com séries como Westworld e Lost, mas há algo de diferente. Legion caminha no finíssimo limite entre o completo mistério e o autoexplicativo. Assistir a série é desorientador, mas sempre há um fio narrativo sólido por trás dos acontecimentos que não deixa a trama escapar para uma diarréia visual despropositada. Ao mesmo tempo em que entendemos o necessário, somos torpedeados com a mente desorientadora de David.
Outro elemento, verdadeiramente libertador, também distingue Legion de séries no estilo mistery box. A deliciosa cena musical no piloto sintetiza bem essa característica: nem tudo aqui é dotado de algum significado secreto, esperando para ser desvendado por um fã nas profundezas do Reddit. Hawley mostrou isso com clareza na segunda temporada de Fargo, onde uma narrativa extraterrestre veio e foi sem qualquer explicação concreta para sua existência. O showrunner gosta de brincar, experimentar, construir experiências visuais. Talvez aquele quadro de um homem gordo com os olhos esbugalhados na cena entre Lenny e David não signifique nada em particular. O anacronismo do vestuário dos personagens certamente não merece esse tipo de análise: sim, temos armamento avançado e roupas dos anos 60-70 convivendo no mesmo episódio. Legion não parece pertencer a uma época exata, e isso é uma escolha estilística que talvez reflita o caos mental de David. Mais do que isso? Acho difícil. Depois de uma temporada inteira de Westworld fritando a cabeça com teorias baseadas nas mais ínfimas peças de informação, que tal fritarmos-na com Legion de uma forma diferente? Mais relaxada, apesar de não menos confusa.
Notas
- Seguirei com vocês cobrindo Legion pelo restante da temporada. Vocês talvez lembrem de mim da defunta coluna Oscar Maníacos e dos flashbacks de The Wire. Espero que gostem!
- O personagem de Ptonomy me interessou logo de cara. Sua pequena cena com David após a primeira sessão de treinamento foi instigante. Hawley tem liberdade criativa para criar novos mutantes com os poderes que ele quiser, e o conceito de Ptonomy é interessantíssimo (além de ser um recurso absurdamente útil para entender as neuroses de David).
- Linguagem visual é uma maravilha não? Na cena final do episódio, o personagem The Eye entra na sala onde Amy está trancafiada, deposita um aquário cheio de sanguessugas em uma cadeira próxima, se aproxima da personagem e fala: “Shall we begin?”. Não precisamos de mais nenhuma informação para entender o resto.
- Adicionem telepatia e viagem astral à lista de poderes de David.















