“Três vidas destruídas apenas porque uma mulher chamada Eva nasceu menino”

Preciso começar esta review ressaltando um ponto que já falei muitas vezes anteriormente, que é a capacidade de SVU em trazer assuntos extremamente relevantes para a mesa de debates. Ao cintar a história de Eva, uma mulher transexual atacada em um banheiro público, o roteiro busca nos mostrar inúmeros “pontos de vista” (se é que podemos chama-los desta forma) através dos diferentes personagens envolvidos na trama. Este é mais um daqueles assuntos em que quase todos já possuem uma opinião formada, portanto, SVU vem com a tarefa de mostrar os diferentes caminhos para que o espectador ao menos tente compreender o lado do outro. A história de Eva foi uma grande história de trabalhar a empatia por outro ser humano.

Broken Rhymes buscou trazer um grande número de diferentes opiniões sobre um mesmo assunto, discutindo, por exemplo, sobre o gênero do pronome que deve ser utilizado ao se referir à Eva: enquanto muitos insistiam em chamá-la pelo pronome masculino, os detetives estavam sempre ressaltando tal equívoco, pois Eva é uma mulher. Outro ponto interessante foi o fato de ouvirmos dos detetives do esquadrão suas opiniões, Tutuola explica rapidamente como ainda não consegue compreender totalmente os transexuais. No entanto, o detetive fala sobre o assunto, não com olhos de preconceito, mas deixando claro que é um algo que ainda deve ser muito explorado para que as pessoas o compreendam com maior facilidade e naturalidade.

Assistimos os rappers homens e “machões” terem problemas com a sexualidade de Eva, chamando-a pejorativamente de “cara” ao longo de todo o episódio. No entanto, esse preconceito não veio somente do lado dos homens ditos machistas, veio também no discurso da mulher que encontrou a vítima desacordada no banheiro. Com o rosto demonstrando repulsa pela jovem, a personagem tenta até mesmo impedir que sua filha se envolva na investigação. Pausa neste momento para o melhor diálogo do episódio, com Benson sendo maravilhosa, mais uma vez, ao dizer para ela que a prenderia se ela continuasse tentando impedir a filha de auxiliar no caso.

Chegamos aqui em outro momento importante, que foi a maneira como roteiro pensou a personagem de dez anos, já que é comum ouvirmos muitas pessoas falando sobre o impacto que os assuntos LGBT’s poderiam gerar em crianças. Porém, o que vimos aqui foi justamente o contrário. A capacidade de empatia da menina de dez anos é anos luz à frente da de sua mãe. A menina chama Eva de “ela” e não “ele” e, desde o início, dá indícios que gostaria de ajudar na investigação, o que considerei um grande acerto do roteiro. Foi uma tentativa de mostrar que muitas vezes as crianças não veem o lugar do preconceito como um adulto de opiniões já formadas e são muito mais capazes de compreender o outro através da empatia do que imaginamos.

Foi ótimo assistir também como era a relação de Eva com seus pais, que a aceitaram como ela era, a apoiando e estando do seu lado. Acredito que este foi outro grande acerto do roteiro, saindo do lugar comum em que os pais, principalmente o pai, muitas vezes não conseguem lidar com esse tipo de situação, se voltando contra os próprios filhos.

Por último, mas definitivamente não menos importante, foram as reações dos namorados de Eva, tanto Hype quanto Logan. Logan apareceu bem menos do que Hype ao longo do episódio, mas seu diálogo com Rollins e Benson foi pontual, falando sobre a possibilidade de Eva fazer uma operação para se tornar anatomicamente mulher e falando sobre como até mesmo homens com a mente mais aberta ainda tem dificuldade de lidar com uma namorada trans. O que ouvimos da boca de Logan pudemos assistir nas atitudes de Hype, que obviamente era apaixonado por Eva, mas, ao mesmo tempo, começou a questionar sua sexualidade, não sabendo como lidar com a situação e envergonhado de ser taxado de homossexual. E foi exatamente o preconceito que matou Eva e fez com que Hype fosse condenado à prisão no final deste ótimo episódio. O que é evidenciado na frase de Benson que usei como título desta review: “Três vidas destruídas apenas porque uma mulher chamada Eva nasceu menino.”

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