Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar.
Chico Buarque
Para quem e por quem é feita a justiça no Brasil? O terceiro capítulo da minissérie de Manuela Dias entra no universo do racismo, das disparidades entre classes sociais e da violência contra a mulher, apresentando, a meu ver, até agora, os melhores diálogos ao nos mostrar a história de Rose (Jéssica Ellen). Mulher, negra, pobre, filha de empregada doméstica: Rose é mais uma Silva Santos que teve os seus direitos de voz usurpados por um sistema seletivo dessa tão questionada “justiça”.
Para as pessoas que já tiveram a alegria de uma aprovação no vestibular, a sensação de ver o seu nome na lista pode ser um dos momentos mais marcantes de uma vida, principalmente, quando se trata de uma pessoa pobre. Gostei muito da cena em que a mãe de Rose (não encontrei o nome da atriz na lista de personagens da minissérie…) diz que não estudou, mas entende o valor que se atribui à educação. Ela está no meio de uma história de sofrimento e ascensão social: sua avó foi escrava e agora vê a sua filha a caminho de ser jornalista. Dá para imaginar a emoção dessa pessoa em poder olhar para o passado e ver a sua identidade representada, no presente, pela filha em uma posição (supostamente) diferente?

No convívio com a família de Débora (Luisa Arraes), Jéssica e sua mãe viviam “como se fossem da família”. Voltamos, novamente, para esse discurso, muito bem abordado em Que horas ela volta?, de Ana Muylaert. Se atribuímos mais valor aos laços formados do que o sangue que corre em nosso corpo, por que ainda permanecemos no “como se fosse”? Por conta disso, por serem tratados como praticamente membros de uma família de classe média e branca, Rose, como ela mesmo afirma, não se via como negra e pobre.
A cena do restaurante foi um dos primeiros momentos que o racismo foi abordado de forma direta: a funcionária (loira) recusa receber Rose no restaurante, alegando que todas as mesas (todas!) estavam reservadas. O vestuário da moça também foi julgado pela recepcionista, pois o restaurante era chique e Rose estava com pouca roupa. Aqui, vejo uma crítica que percebo quase que diariamente: vivemos num país tropical, porém, o uso de pouca roupa parece só ser legitimado no Carnaval e em praias. Aparentemente, a pompa de vestir um terno ou vestido longo nunca pode substituída por um short ou uma “brusinha”. As garotas conseguem entrar no restaurante porque Débora confronta a recepcionista. Mas, e se Débora também fosse negra, será que elas teriam sido ouvidas?
Quando nos encaminhamos para o momento da festa, entramos em outro terreno emblemático: o uso de drogas. Débora e Rose, aparentemente, estavam fumando maconha bem conscientes do que estavam fazendo. Entretanto, até aquela noite, ambas era menores de idade e estavam adquirindo os produtos de um adulto. Rose, ao começar a usar a droga, esqueceu de repassar o que tinha comprado para o seu amigo. Em seguida, vemos a truculência da polícia, que chega atirando em um luau. A partir desse momento, ao dividir os participantes da festa, o olhar do branco, preconceituoso e opressor, fica bastante evidenciado: os jovens brancos são mandados embora e os jovens negros ficam. Rose é revistada por Douglas (Enrique Dias), homem, e violento, que deixa claro a todo momento, através de suas atitudes, que está em busca de “bode expiatório”. Aliás, o objetivo daquela batida policial era levar alguém preso, pois geralmente isso certifica para a sociedade que a polícia está trabalhando, tanto é que somente Rose foi presa.
Como uma espécie de armadilha do destino, a futura jornalista acabara de completar 18 anos, fato que a faz ser encaminhada para delegacia por porte de drogas e tráfico. Rose realmente estava portanto drogas, porém, as circunstâncias que levaram essa descoberta não condizem com um comportamento de cumprimento de lei e igualdade. O roteiro da série lança para o telespectador uma pergunta bem difícil: o que você faria no lugar de Débora? Será que voltar e argumentar com aqueles policiais teria feito alguma diferença? É preciso lembrar que Débora estava sob efeitos de drogas e também assustada com tudo aquilo que tinha acontecido. Em estado “normal”, às vezes, tomamos decisões controversas. Quando estamos sujeitos a certas interferências, o nosso poder de decisão nem sempre se mantém intacto. Para a mãe de Rose, os passos de Débora significaram abandono, significaram que a única pessoa que poderia lutar por ela não lutou.
Tal qual Fátima, Rose retorna para uma vida completamente diferente: Luísa está casada com Marcelo (Igor Angelkorte) e a sua mãe morreu. Marcelo não aceita bem a volta de Rose, vendo-a como uma ameaça. Ele aparenta ter um estilo bem diferente ao estilo de vida que as meninas levavam antes da prisão de Rose: bem certinho, profissional da área de informática. Marcelo, provavelmente, cumprirá a função daquele que irá tentar impedir a retomada da amizade de sua esposa com a antiga amiga. Todavia, o flashback o redimiu: Luísa o conheceu sorridente, em um trabalho voluntário, fato que mostra que o rapaz, possivelmente, tem um lado bom, pelo menos naquela época. Foi bem triste ver que Débora, ao conversar com Rose, percebeu que elas já não possuem muitas lembranças para compartilhar, e que a cronologia do “antes” e do “durante” a prisão é algo que ainda irá afetá-las bastante.
Por fim, o gancho o final do episódio foi excelente e deu uma reviravolta na trama: agora a busca por justiça foi revertida para Débora. A cena do estupro foi crua, bem dirigida e de embrulhar o estômago. Interessante que o momento escolhido para esse acontecimento foi justamente a festa de Carnaval, período em que muitos criminosos se aproveitam do clima festivo para fazer esse tipo de ato. O dano psicológico, nesse caso, a impossibilidade de ter filhos após o estupro, já mostrou o quanto essa ferida sangra na alma, nos olhos e no corpo de uma mulher.

Infelizmente, a meu ver, a minissérie decaiu no capítulo 4 com a história de Maurício. Não senti todo aquele vulcão de emoções como nas histórias anteriores. O desenvolvimento da trama foi bem monótono. Porém, penso que isso se deve à ausência de subtramas. Nas três primeiras histórias, o protagonista estava envolto a personagens coadjuvantes que me conquistaram. Isso faltou na continuidade da narrativa, já que o quarto capítulo, praticamente, gira em torno somente de Maurício e Beatriz. As personagens de Drica Moraes (Vânia Ferraz) e Antonio Calloni (Antenor Ferraz) ainda não mostram muito do que são capazes. Quer dizer, recusa de assistência e lavagem de dinheiro já sabemos que é uma área em que Antenor é bem competente.
Confesso que não senti química entre Marjorie Estiano (brilhando, como sempre) e Cauã Reymond. As cenas do casal pareciam não haver uma correspondência sincera de olhares. Eu, pelo menos, não vi. Para mim, a melhor cena desse capítulo é a primeira, quando a decisão da morte é tomada por Beatriz e ela diz que está morta e que o acidente foi ela não ter morrido de uma vez. É claro que, para uma bailarina, perder os movimentos do corpo é algo muito estarrecedor, porém, parece que ali, naquela cama, ela carregava uma aproximação com a morte que advinha de algo antes do atropelamento.
Bem, o que me intrigou muito nesse episódio foi a sequência temporal dos fatos. Sinceramente, soa muito inverossímil tudo aquilo ter acontecido com o casal em apenas uma noite: o atropelamento, o diagnóstico de tetraplegia, a decisão de desejar morrer e a aquisição dos medicamentos letais. Mesmo se pensarmos que, no plano dos 4 acontecimentos, o acidente com Beatriz for o primeiro, falta uma clareza. Supomos que o atropelamento tenha ocorrido às 21h da noite. No máximo, Maurício estava na cadeia às 5h da manhã. Então, pensemos nesse intervalo de oito horas. Será que um diagnóstico de tetraplegia (na minha visão de leigo, deve ser algo um tanto complexo) sai assim tão rápido? Como é que Beatriz decidiu morrer assim, em questão de horas? E Celso (Vladimir Brichta), como é que ele tinha esses medicamentos? Vamos esperar o andamento da história de Maurício e ver se o roteiro nos dá mais explicações que esclareçam melhor essa sequência dos fatos.
Como um dos leitores comentou na review anterior, a narrativa de Manuela Dias nos coloca diante da Teoria do Caos, principalmente no momento do atropelamento de Beatriz, que é visto por Elisa, Waldir, Rosi, Débora e Maurício. É como se a alteração daquele instante na vida de duas pessoas revelasse a existência de uma ordem oculta que atraísse caminhos distintos. E o “pedaço de mim”, a ausência, a saudade, de cada uma dessas personagens, por um segundo, parecem se tocarem…
Take 1: A fotografia do capítulo 3 foi sensacional. Essa parceria Walter Carvalho e José Luis Villamarim dá cada vez mais certo.
Take 2: Jéssica Ellen e Luisa Arraes estavam excelentes. As duas tiveram uma química muito boa.
Take 3: Fátima e Rose ficaram presas na Penitenciária Madre Antônia Oliveira. Já Vicente e Maurício estavam na Penitenciária Duque de Castro. Podemos esperar por flashbacks dessa época de reclusão? Seria meu sonho?
Take 4: A manchete do jornal do dia seguinte a sua prisão dizia: “traficante tinha passado no vestibular”. Isso é algo bem sintomático no meio jornalístico. Se você é universitário e comete um crime, você será designado como “universitário” e não como uma pessoa, como se o fato de possuir mais instrução de educação formal nos eximisse de cometer erros, que esse título nos investisse de uma armadura, como se o fato de um estudante ser preso fosse algo que beirasse o extraordinário.
Take 5: Os créditos de abertura, bem como um amigo me mostrou, sempre dão destaque às personagens que estão no centro da trama naquele episódio, numa forma já de indiciar, como se fosse um inquérito, quem está sendo acusado dessa vez.
Take 6: Cauã Reymond ainda não me convenceu como Maurício.
Take 7: As personagens masculinas foram recebidas por alguém quando saíram da prisão, já as personagens femininas saíram sozinhas. Será que isso quer nos dizer algo?
Take 8: O tema da eutanásia é um dos temas mais complexos e delicados abordados até então, principalmente aqui, no Brasil, pois é uma questão que envolve o direito que cada um tem sobre o seu corpo, também esbarrando em religiosidades. Estou curioso para ver o encaminhamento dessa discussão. Há muitos dizeres sobre “como viver”. Qual a razão da resistência aos dizeres do “como morrer”?















