Certas discussões machucam de forma irreversível e o maior inimigo do ser humano é sua própria força: suas emoções. No Chapter 32, dois fatos com capacidade de mudar toda a história aconteceram: o despertar de Claire para a insatisfação quanto ao rumo de sua vida e a briga entre o casal Underwood. Nesta muitas coisas foram esbravejadas, no entanto nada superou os ataques finais: “Eu nunca deveria ter feito você embaixadora” e “Eu nunca deveria ter feito você presidente”. Para um casal que sempre encontrou solução para suas crises de forma plácida, a briga no avião foi assustadora e demonstrou o quão animalesco Frank pode ser com sua esposa, assim como esta conhece intensamente seu marido e sabe atacar em seus pontos mais fracos. Diante disso, Chapter 33 tinha duas opções: apresentar o desdobramento internacional da declaração da primeira-dama ou expor a relação dos protagonistas. Surpreendentemente, a escolha feita foi pela segunda opção e o resultado foi emocionalmente recompensador.
Tudo nesse sétimo episódio foi emocional. Até mesmo quando não estava focalizando em Frank e Claire, o roteiro e a direção traziam um olhar sentimental sobre as relações e as circunstâncias dos personagens. Quando o olhar recaia nos protagonistas, a direção e a fotografia ressaltavam o distanciamento entre os dois além de imergi-los em imagens escurecidas e sem vida, transformando o pós-discussão em um verdadeiro luto. Mas, talvez, mais até que Kevin Spacey e Robin Wright (que brilharam intensamente em um episódio cujo aspecto político ficou em segundo plano e o bastidor sentimental foi colocado à frente do palco), a trilha sonora tenha sido o grande destaque do capítulo. Embalando os momentos mais tristes e os mais otimistas de forma discreta, mas sensível e terna, ela conseguiu tornar a história de cura do casal em algo mais envolvente, principalmente durante e após a renovação dos votos de casamento, quando os acordes, unidos à fotografia e o figurino calorosos e plácidos, davam um tom singelo ao esforço dos Underwood. Diante disso, é necessário elogiar e aplaudir as qualidades técnicas e artísticas de Chapter 33, uma vez que, devido à temática política, House of Cards não tem grandes brechas para destacar o aspecto visual.
Quanto a Francis e Claire, o caminho percorrido foi doloroso. Diante da insistência da primeira-dama em não se desculpar por sua ação (e não deveria), Frank busca se distanciar ao máximo da esposa e deixar claro que suas ações não o agradaram, chegando ao auge no momento em que ele a humilha durante a reunião na Casa Branca. Ademais, o retrato oficial presidencial afastou as lembranças de quaisquer sincronias entre eles. No entanto, a arte dos monges tibetanos e o memorial emergiram para expor para cada um a dimensão do que estava ocorrendo e que era necessário mudar antes que a destruição fosse completa. Particularmente, a metáfora da arte tibetana foi bem usada pelo roteiro. Um relacionamento é algo meticuloso e que necessita de cuidado e atenção a detalhes, não é construído de forma instantânea, o trabalho é árduo, mas há um belo resultado a ser encontrado. Da mesma forma, os monges passaram semanas, calma e cuidadosamente formando a figura, que saiu de algo simples para uma beleza complexa e completa. Mesmo assim, o trabalho árduo foi facilmente desfeito e levado pela água. Dentro da lógica de Chapter 33, a metáfora foi confortante e fomentou otimismo em relação ao futuro do casal, no entanto House of Cards é pessimista e, na prática, o desmanchar da arte foi um prenúncio de que, apesar do “Nada é para sempre, exceto nós”, turbulências podem vir e virão.
De forma contida, foram abordados três plots da temporada: Stamper, America Works e Thomas Yates. Doug recebeu uma humanização por parte do roteiro, com sua aproximação com a fisioterapeuta. O problema é que a força do personagem na temporada advém de seu uso no cenário político e, como isso foi deixado de lado, seus minutos em tela se tornaram maçantes. America Works continua controverso perante o congresso, no entanto o fato de que vinte e cinco mil pessoas conseguiram empregos por causa do desvio legal de verba de Frank começou a surtir efeitos favoráveis, com dois congressistas afirmando que, apesar de não terem apoiado o presidente inicialmente, o resultado positivo era considerável. Thomas Yates continuou sua participação inexata na temporada. House of Cards não adiciona novos personagens levianamente, então permanece a crença de que ele será importante em algum momento. Enquanto isso não acontece, sua interação com Francis foi fundamental para permitir que víssemos o presidente admitir que o casamento não era mais o mesmo e sendo honesto quanto a seus sentimentos de não merecimento da esposa.
House of Cards deu uma pausa sentimental após a exaltação de Chapter 32 e o resultado foi: vimos o desmoronamento e a tentativa de reconstrução de um casamento. Os próximos episódios é que mostrarão se esse esforço foi em vão.
P.S.: Claire pisando na embaixadora israelense e defendendo o marido foi incrível. Grande momento de Robin Wright.













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