
“Unhappy people do reckless things“. Ou, passando para o bom português, “essa série ainda consegue fazer drama como ninguém”.
Spoilers Abaixo:
É lógico que a tradução literal da frase não é esta, mas o principal significado da frase acima transcrita, de fato, nos leva a concluir que House ainda consegue nos emocionar como poucas outras séries ainda conseguem. A screen colada acima pode te trazer a emoção que for (agonia, medo, perplexidade…), mas desafio alguém a ficar completamente indiferente frente à situação desenvolvida na fatídica cena da banheira.
Sim, a mesma banheira que um ano atrás via a destruição emocional de House, e a mesma que um ano antes também servira de cenário para as alucinações derradeiras do personagem. “Isso é uma tremenda repetição”, alguns dizem. Prefiro chamar de artifício. É bom lembrarmos que um cenário não precisa ser monstruoso, nem complexo ou mesmo muito denso para ser efetivo. Basta que seja um local onde o bom artista possa realizar o seu melhor trabalho. E assim como foi em um banheiro que Hugh Laurie gravou seu vídeo-teste para se candidatar ao papel de Gregory House, é em um banheiro que este se consagra (novamente) como um ator estupendo e cheio de recursos. Falar sobre o trabalho dele chega a ser cansativo, mas omitir que Laurie carrega qualquer cena nas costas seria um insulto maior ainda. Particularmente não sei o que o último episódio da temporada nos reserva, mas arrisco dizer que irá ser muito difícil termos uma cena tão dramática quanto esta que tivemos logo no início do episódio.
Interessante notar que este drama da auto-cirurgia não tenha ocorrido no final do episódio. Afinal de contas, o “lugar comum” das séries pregaria que a cena mais tensa fosse deixada para os últimos instantes do capítulo, assim mantendo toda a audiência roendo as unhas para o derradeiro encerramento da história. Mas House mais uma vez inova quando deixa claro que sua intenção não é chocar. Sua intenção é fazer pensar.

“Pessoas infelizes fazem coisas irresponsáveis.” É bem verdade, Cuddy. Pessoas infelizes de fato tendem a seguir por certos caminhos sinuosos, pois, afinal, muitas vezes não encontram nos mais fáceis a cura para a sua infelicidade. Estamos em uma jornada de 7 anos onde já vimos o personagem fugir desta busca por muito tempo, mas eventualmente até ele percebeu que seu caminho será trilhado em direção à esta felicidade. Como alcançá-la, ou de fato o que se almeja que esta seja, estas são questões ainda maiores.
É por esta complexidade do que seria a tal ‘felicidade’ que a série mantém-se (criativamente) rodando em círculos por várias temporadas. Afinal de contas, não é de hoje que este dilema cerca o doutor, e é bem verdade que certas vezes esta história cansa e se desgasta. Mas, diga-se, é inegável que quando se trata de felicidade o buraco é mais embaixo, e como estamos tratando de um personagem complexo e destruído como é House, o material a se trabalhar ainda é bastante vasto.
A cena final onde Wilson é sua derradeira muleta (vejam só o simbolismo) novamente coloca um House reconhecendo seus problemas, e que precisa de um direcionamento. Já que já vimos isso antes em algumas ocasiões, e considerando que ainda temos um último episódio antes de encerrarmos este ano, espero nada menos que uma bomba dramática nesse season finale para que House, enfim, passe desse desejo de mudança para a efetiva transformação.
*Sobre uma notícia que saiu dois dias atrás sobre renovação de elenco, que talvez seja spoiler para algumas pessoas, coloco em branco para evitar quaisquer incômodos (quem não quiser ler é só continuar depois da foto). Foi confirmado que Lisa Edelstein de fato não continuará em House. As negociações já estavam arrastadas, e em entrevista recente ela se disse ‘desapontada’ em deixar a série neste momento. Levando para termos práticos de história, e tendo visto o que vimos neste episódio, acho que uma hipótese que encaixaria muito bem nos planos da temporada e também da personagem seria alguma tragédia (ocasionada por House, talvez) envolvendo sua filha Rachel. Se eu sou sádico ou não, e se isso é viável ou não, saberemos semana que vem. Mas pessoalmente acharia interessante uma trama desse tipo.

Impossível não comentarmos a relação entre House e Rachel neste episódio. A conexão entre os dois parece ser uma coisa (das poucas) realmente decente que House tenha feito ultimamente, mesmo considerando boa parte desta temporada. Parece ser através da menina que House poderá (ou não) novamente se aproximar de Cuddy, ainda que tudo indique que a médica permanece irredutível em sua decisão. Ainda que a singela carta redigida por Rachel tenha 98% de interferência de sua mãe (óbvio), Cuddy permanece receosa em aceitar House, simplesmente por perceber o tamanho da periculosidade que uma pessoa como ele pode trazer à vida de uma criança.
Sobre as histórias paralelas devemos ressaltar seus ótimos níveis, ainda que tenham sido ligeiramente ofuscadas pela tensão que House trouxe para si próprio desde sua chegada ao laboratório de testes. A nova abordagem dada aos problemas da Thirteen (agora mais seriamente, sem envolver tiros de batatas) serviu para dar à história uma deixa para falarmos do Dibala novamente. Não tivemos menção (explícita) alguma ao ditador assassinado por Chase tempos atrás, mas a simples mudança de feição do médico e o contexto do diálogo foram suficientes para que o espectador atento percebesse que ali acabara de formar-se um vínculo entre duas pessoas que sabem o que fazer quando é necessário. É gratificante quando uma série valoriza a inteligência de seu espectador, e o mínimo a fazer é darmos o crédito por isso.
Ao Taub, ainda que meu coração tenha implorado para que a dançarina realmente atirasse em sua cabeça naquele estacionamento, parece que teremos enfim uma história interessante. Ressalta-se que não seria surpresa se, de fato, tivéssemos mais um personagem morto em House (já foram tantos…), mas a iminência de um filho pode fazer com que o personagem mais chato da série tenha um motivo para melhorar (ou pelo menos um motivo pra surtar e fazer alguma coisa interessante).

Muito legal também que, ao fim do episódio, os quatro pupilos sentam serenamente em seus lugares, como se a madrugada recém terminada não tivesse sido diferente de qualquer outra. Mais do que cinismo dos personagens, esta omissão em discutir seus problemas reflete mais uma vez o que aquele ambiente traz a qualquer um que o adentre. Não foi à toa que Masters recusou permanecer nesta equipe: mais alguns meses e ela estaria tão destruída quanto todos eles.
Ao fim do capítulo, a expectativa (padrão) de vermos um cliffhanger central e bombástico antes do último episódio é substituída por um sentimento de evolução e, ao mesmo tempo, de alívio. Alívio porque, agora, não há a necessidade de nos centrarmos exclusivamente em um evento único durante os 43 minutos do season finale; teremos sim a chance de acompanhar com paciência… o que quer que aconteça. Há tempos que eu não sabia o que esperar de um final de House, mas, visto o que vi hoje, estou tranquilo que teremos algo interessante e, no mínimo, digno.
Outras considerações:
1) A introdução abrupta na história da namorada do Taub (se é que podemos chamá-la disso) parece providencial, pois mostra o quão inconsequente este ato dele foi. Trata-se de uma menina que nem ele e nem o público conhecem. Uma coisa que poderia ser vista como uma falha acaba se mostrando um recurso interessante.
2) Ainda bem que não tivemos uma batida entre os carros de Cuddy e Chase. Ainda bem. Seria muito A Turma do Didi pro meu gosto.
3) Eis a cena: House literalmente destruído na maca, em seu pior momento físico e psicológico em anos e renegado por todos à sua volta ainda encontra tempo e forças para ajudar Chase e Thirteen quando estes pedem sua ajuda por telefone. E o pior: ainda consegue descobrir uma solução que os dois não haviam descoberto! Na moral… alguém dê um troféu McGuyver pra ele, por favor.
4) Quando Darrien percebe que foi curada mas será presa começa a xingar e esculachar a Thirteen. Em seguida, em um momento de pura superioridade, a médica relata que hoje ela a odeia, mas que amanhã agradecerá e perceberá que na verdade a amiga salvou sua vida. Esta ação da Thirteen, de se preocupar exclusivamente com a saúde de seu paciente e não em sua opinião ou vontade só a aproxima (mais ainda) da filosofia de vida que House adota como própria.
5) “Algo tem que mudar”. Sim, Wilson, algo há que ser mudado. Mas o quê?
E vocês, o que acharam de After Hours? Gostaram, foi bom o suficiente? Espero ler a opinião de vocês.
Um abraço, e até semana que vem 😛














