Será que agora a xícara de chá quebrou de vez?

Foi assim, de forma devastadora, que chegou o fim do reinado absoluto de Hannibal Lecter na televisão. Mesmo que esse não tenha sido, ainda, o último episódio da série (que tristeza) é seguro dizer que a supremacia Lecter chegou à um certo fim, pelo menos por enquanto. Claro que nós sabemos as possibilidades dessa história de agora em diante. Mesmo que essas possibilidades venham com um gostinho agridoce, não há motivo para desespero, afinal, começaremos a ver o desenvolvimento do embate e/ou união entre Hannibal Lecter e o Fada do Dente, que, me desculpem a linguagem chula, é foda demais!! Pobre Will!

Com certeza, podemos encarar esse episódio como o final de um importante capítulo do livro televisivo (sim, acabei de inventar uma nova categoria) sobre o canibal mais famoso da cultura pop. E exatamente como um livro, as páginas foram viradas e a cada nova página nós torcemos, vibramos, choramos, nos decepcionamos, sentimos nojo e repulsa e, principalmente, ficamos de boca aberta com a qualidade de cada detalhe dessa jornada. É louvável mencionar o respeito aos aspectos, locações e personagens dos livros que foram mantidos e até mesmo aperfeiçoados na trama. Mas, sabíamos que o fim do caminho de Hannibal estava próximo e era invevitável. Quando esse fim chegou, foi ótimo perceber que não iríamos nos decepcionar, e de fato, não nos decepcionamos. Que felicidade imensa foi presenciar a beleza desse “meio” fim, não? Mas chega de chororô, afinal, a série continua e tem muita coisa boa pela frente. Vamos ficar animados, afinal, agora sim a série entrará de cabeça em Dragão Vermelho, com Hannibal preso e a chegada do Fada do Dente. Precisamos sim mudar a página e entender que a dinâmica da série, de agora em diante, mudará e isso não é ruim.

Porém, antes de mudarmos a página, e entrarmos mesmo no capítulo do Dragão Vermelho, é necessário entendermos de uma vez por todas o significado e a relevância desse capítulo dedicado à Will e Hannibal. É em Will que sempre encontraremos Hannibal. Hannibal deixou isso bem claro. Não seremos mais capazes de  tirar o Will de Hannibal, muito menos de tirar o Hannibal de Will. Se isso não é amor, o que é?

Sabemos que as pessoas deixadas para trás, para reconstruir a vida após eventos traumáticos, têm o caminho mais difícil de trilhar. É exatamente nesse caminho que vimos e continuaremos a ver o Will. Mesmo que não para sempre, a história de amor entre Will e Hannibal chegou à um ponto de despedida. Will, por conveniência, será obrigado a reconstruir sua vida. Será obrigado a ser aquele que agora deixará Hannibal para trás. Mas como ficará sua vida e mente depois de tamanho impacto? Como ele lidará com esse caminho de reconstrução? Como será sua vida sem Hannibal de agora em diante? Será possível voltar a ter um certo equilíbrio? Sim, sabemos que esse não é o fim definitivo para Will e Hannibal, a questão é perceber que nada mais será como antes, mais ainda, é importante perceber que não deve ser como antes. Will sabe disso. Will teve seu momento de libertação e despedida.

Então, chega o momento em que eu expresso o quanto estou satisfeita com os momentos/diálogos entre Will e Hannibal nessa temporada. Foram poucos, mas de qualidade. Em “Dolce” tivemos o momento do reencontro e aqui em “Digestivo” tivemos o momento da despedida. Ambos foram momentos de total poder, beleza e honestidade entre dois personagens que realmente,  de maneira singular e sem sombras de duvidas, se amam. Para mim, essas duas cenas, foram as melhores da série, no quesito relacionamento. Até agora, claro. Manda mais assim, Bryan Fuller (lembrem-se que ele lê as minhas reviews).

Aparentemente, no próximo episódio encontraremos os personagens três anos depois dos acontecimentos de “Digestivo”. Acredito que passaremos a entender melhor a dimensão do estrago feito pelo dr. Lecter a partir desse avanço na trama. Sem contar que, pobre Will, mal supera um psicopata e já chega outro. Sendo assim, SEJA BEM-VINDO FRANCIS DOLARHYDE. Como te esperei, meu Deus, como te esperei!!!

A chegada do Fada do Dente trará, também, a certeza que Will sempre precisará de Hannibal. A conexão sempre estará ali. Sua vida, fará voltas e contornos, mas o caminho sempre o guiará até Hannibal, e muito provável que essa seja uma rua de mão dupla. Afinal, o palácio mental de Will foi erguido com cômodos em comum ao do dr. Hannibal Lecter. Não há como mudar isso.

Sem contar que, o presente de despedida de Hannibal não poderia ter sido mais propício e cruel. O legado deixado por Lecter é o que realmente será difícil de superar. Lecter fez questão de deixar sua presença para sempre dentro da alma e da mente dos personagens, e não me refiro somente à Will Graham, mas também à Jack Crawford e, principalmente, à Alana Bloom.

Mais que tudo, Will terá que lutar com a presença de Hannibal dentro da sua mente. Jack terá que lidar com o fato que no final, depois de tudo, Hannibal não foi capturado. Hannibal se entregou, Hannibal decidiu seu destino, Hannibal controlou o jogo e, mais ainda, o fez como “prova de amor”. E Alana, bom, Alana não só sujou completamente as mãos, como se tornou uma pessoa totalmente inversa à seus princípios. Alana está comprometida, Alana dormiu com o diabo e até agora não conseguiu sair dessa cama. Alana está manchada, corrompida para sempre. Assim, entendemos, de uma vez por todas, que o palácio mental de Hannibal é o único que continuará de pé.

Mais ainda, vemos novamente que não há prisão capaz de segurar Hannibal Lecter e toda a sua relevância. Hannibal pode estar preso, mas o resultado e extensões de suas ações perdurarão. Assim, fica ainda mais fácil entendermos o motivo da sua influência ser tão enorme dentro desse universo. Independente de quem seja o psicopata perseguido pelo FBI. Mas querem saber, “vilão” bom é assim mesmo. Não há jaula capaz de aprisioná-lo. Chiyo sabia disso, nós sabemos disso.

É engraçado e interessante perceber que Chiyo é a personagem que estava ali para personificar os sentimentos daqueles que assistem à série. Afinal, como nós, Chiyo sempre foi capaz de ver e entender todos os lados de Hannibal, mesmo também fazendo parte do grupo magnetizado por ele. Chiyo é a personagem que definitivamente nos conectou, de alguma maneira, à realidade. Por causa de Chiyo, nós fomos capazes de lembrar (e não esquecer de novo) da existência do monstro dentro de Hannibal, ver além da máscara de charme e elegância.

Enfim chegou o momento de refletirmos mais sobre os Vergers. Primeiro: Mason Verger. Como fã do universo de Hannibal, já tinha total ciência do sadismo desse personagem. Mesmo assim devo admitir que me surpreendi em ver, de maneira tão natural e gráfica, a dimensão de onde ele era capaz de chegar com esse sadismo. Ele foi responsável por uma bela destruição mental, muito além do que eu esperava. Afinal, ver Lecter ali, mesmo que por pouco tempo, como mais um porquinho da sua fazenda foi assustador. Alguém me explica como Mads Mikkelsen consegue passar elegância e ser sexy até na posição de porco pronto para ser abatido? Sinceramente, posso dizer para vocês que fui muito feliz com a versão televisiva de Mason. Bryan e sua equipe foram fiéis à essência do personagem do livro, com sua personalidade sádica, sofisticada e psicopata. Vou admitir que torci para que mudassem o destino do personagem, mesmo assim, fiquei satisfeita com o desfecho.

Mason Verger, como deveria ser, não deixou nada a desejar quando comparado à Hannibal Lecter. Tanto que não quero, e nem sei se consigo, entrar nos detalhes que envolvem a barriga de aluguel suína. WTF? Que coisa totalmente perturbada foi aquela? Insano, angustiante e revoltante, mas totalmente brilhante e sensacional. Devo me preocupar por ter achado aquilo sensacional? Principalmente, fiquei satisfeita em ver como esse momento se encaixou totalmente e foi fiel à essência do universo de Hannibal! De novo, ainda não consigo acreditar que essa série é da NBC. Portanto, independente de cancelamento, devemos dar nosso reconhecimento à NBC pela coragem de, por três temporadas, ter sido a casa da série.

Certa vez o Bryan Fuller fez uma analogia, que só agora eu entendo melhor. Bryan disse que via Mason Verger como o Coringa para o Batman do Hannibal. Não há como negar, que foi exatamente isso que vimos. RIP Mason. Vocês já pensaram no quão sensacional seria Hannibal Lecter, Mason Verger e Francis Dolarhyde juntos na mesma sala? Ou melhor, na mesma cozinha? Foi com esse pensamento que eu torci loucamente para o Mason conseguir aplicar o “Face/Off” no Will. Ok, era totalmente impossível, eu sei. Mas pararam para pensar na possibilidade? Mason, totalmente insano, existindo no mundo com aquela carinha de cachorrinho abandonado do Will? Estão escutando? Esse é o som de uma explosão mental coletiva mediante à essa possibilidade. Não há como lidar com isso. RIP Cordell. Se tínhamos alguma duvida que loucos atraem loucos, Cordell está aí para fornecer a prova definitiva.

E agora, Margot Verger. A forma delicada e cuidadosa com que lidaram com a história de Margot é outro registro de como Hannibal é uma série bem cuidada e única. Margot sempre foi aquela quem mais sofreu nas mãos do lunático Mason. Afinal, ninguém é tão capaz de ver todos os lados da sua moeda como a família (e a Chiyo). Margot sempre foi aquela que não conseguia escapar, e tão pouco podia escapar. Pois bem, assim como nos livros, Margot escapou, e escapou com direito a gargalhada maléfica (porque, na minha cabeça foi assim que aconteceu). O quão brilhante é entendermos que de todos os personagens, Margot foi a única que realmente se beneficiou por conhecer Hannibal Lecter? Podemos dizer, inclusive, que foi Hannibal quem a incentivou e a libertou de seus demônios, até mesmo foi por causa de Hannibal que Alana e Margot se encontraram e viverão felizes para sempre e na companhia de um Vergerzinho (de novo: porque, na minha cabeça é isso que vai acontecer). É muito gratificante ver que a força dos personagens femininos nos livros não é desperdiçada na série. No universo literário de Hannibal as mulheres sofrem horrores sim, mas também são fortes, mais resilientes. Foi exatamente isso que Margot Verger representou para nós aqui: resiliência. Margot sofreu o pão que o diabo amassou, mas agora é livre e rica.

Agora, eu vou jogar uma bomba em vocês: Alana Bloom é minha personagem favorita nessa temporada, pelo menos por enquanto. Alana queria mesmo é preservar e proteger Will de sua vingança contra Hannibal, e por causa disso teve que sujar as mãos de maneira que não terá mais volta. É Alana quem, inesperadamente, mais se adaptou à maneira de agir de Hannibal. Alana, de todos os personagens, foi aquela que mais se aproximou de se tornar Hannibal Lecter. Pasmem. Foi ela quem realmente entendeu que era necessário ser Hannibal para impedir Hannibal. Portanto, deixo aqui o meu pedido de desculpas oficial por algum dia ter duvidado da relevância dessa personagem. Alana é outra prova de como essa série é diferente de tudo que estamos acostumados a ver, hoje em dia, na televisão. Nada é o que parece ser e devemos ter muito cuidado com as teorias e os “achismos” para não acabarmos mordendo a língua. Eu mordi, e doeu!

Momento canalha: vocês ficaram felizes em saber que o Hannibal é ¼ Lannister? Afinal, os Lannisters sempre pagam suas dívidas e o Hannibal sempre cumpre suas promessas. Depois que desabafei com essa tentativa de piadinha horrível, quero encerrar essa review com algumas palavras motivacionais: DRAGÃO VERMELHO/FADA DO DENTE ESTÁ CHEGANDO!!

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