Existe uma sequência da recém-terminada trama de Haja Coração que para mim exemplifica bem como era sua gênese criativa. Depois de sair da cadeia, o jovem Giovanni saía para procurar emprego, mas a inimiga de sua família, a poderosa Teodora Abdalla, tinha criado uma página na internet difamando-o. Então, para mostrar como isso deixava o personagem tenso, os autores criaram uma cena em que ele ia para uma entrevista de emprego e a atendente do lugar lhe fazia algumas perguntas. Amedrontado, em dado momento ele responde a uma das perguntas assim: “O que? Porque você quer saber? Vai jogar meu nome na internet pra ver se encontra alguma coisa?”. Fiquei paralisado do outro lado da TV, vendo aquilo.
É quase como se o texto precisasse sublinhar todas as reações e pensamentos com negrito e caixa alta. Se Giovanni tivesse dito “vai jogar meu nome da internet pra ver se acha uma página que fizeram contra mim, me difamando?” eu não iria me surpreender, porque a maior problema da estrutura de Haja Coração estava no seu compromisso de ser fácil, mastigada, desenhada para afastar qualquer complexidade. Nada poderia ou deveria ser construído com a própria cognição do espectador, porque o texto não dava ao silêncio, ao olhar, ao gesto, nenhuma chance de transmitir intenções emocionais. Tudo era verbalizado do jeito mais didático possível.
A novela nasceu do que seria um remake de Sassaricando, trama de Sílvio de Abreu entre 1987 e 1988. Esse parentesco faz toda diferença aqui, sobretudo porque Sílvio é hoje em dia o diretor de dramaturgia da emissora e qualquer novela que vá ao ar passa antes por seu crivo. Colocando em perspectiva essa posição, todos os produtos novelísticos do canal acabam sofrendo influência direta dela. Sílvio era um autor de tramas supereloquentes, com grandes empresas, disputas de presidência, vilãs “disneylescas”, armações que separam casais e comédia macarrônica. A fórmula passou por alguns upgrades visuais através dos anos, mas sempre foi basicamente a mesma. Se olharmos para o que está sendo A Lei do Amor, por exemplo, é como se Sílvio estivesse pairando sobre tudo que ele mesmo aprova.
Haja Coração mudou de nome provavelmente porque ficou com bem pouco do que havia na sua progenitora. Tancinha virou a protagonista (enquanto era mera coadjuvante no original) e a questionada decisão de escalar Mariana Ximenes para vivê-la também representava a mudança de perspectiva: loira, olhos claros, magra, traços muito distantes do que era Claudia Raia na versão de 87. A Tancinha de agora era tão dissonante que até mesmo o resto da família seguia outro tipo físico. Haja Coração não se preocupava com profundidade textual e muito menos com a ordem de diversificação do mercado: do elenco todo, a Nair, vivida por Ana Carbatti era a única negra (só pra citar um exemplo).
Enquanto tramas como a de A Regra do Jogo equilibravam a obrigação de núcleos cômicos de mau gosto com uma boa trama central, Haja Coração tinha em seu autor, Daniel Ortiz, uma espécie de reprodutor mecânico do estilo de seu patrão, Sílvio de Abreu. A mão de Sílvio era tão pesada, que até mesmo pegar uma das irmãs de Tancinha e transformá-la na Shirlei de Torre de Babel, ele pegou. Não havia a menor necessidade de repetir a personagem em outro contexto, sobretudo porque ela foi um grande sucesso quando surgiu. Mas, a ordem era repetir os bons números do horário das sete e para isso valia todo o sortilégio de recursos.
Acabou dando certo… Haja Coração chegou a dar mais audiência que as novelas do horário das 21. A “ressuscitação” de truques narrativos que já deveriam ter sido abandonados lá nos anos 90 foi tão acachapante que até mesmo ficar ouvindo o pensamento dos personagens segundo eles mesmos, nós ouvimos. Ou seja, nenhuma cena de reflexão poderia ser só de reflexão, ela tinha que ser verbalizada: “O que será que ela está aprontando?”, “Ele me paga”, “Então quer dizer que ela já sabia de tudo”… Um exercício constante de sublinhar tudo o tempo todo, como se o já simplório texto já não fosse didático o suficiente.
Se há uma coisa de boa, sem dúvida, foram algumas escolhas de elenco. Grace Gianoukas foi uma escolha inusitada e acertadíssima para viver Teodora Abdalla e João Baldasserini fez um Beto tão adorável que deixou o autor numa situação difícil. Algumas escolhas não foram tão espertas, como a de Marisa Orth para viver Francesca (a elegância da atriz não dava credibilidade ao tipo feirante, o que fez com que a primeira opção – Christiane Torloni – tenha escapado de ser ainda mais equivocada). Mariana Ximenes aceitou a bomba de encarnar Tancinha e eu mesmo chamei essa escalação de “uma das mais erradas da história da TV brasileira”. Porém, Mariana fez um trabalho tão emocional e sincero, que a personagem já estava me comovendo lá pelo meio da história. O mesmo para o injustiçado trabalho de Tatá Werneck, que criou um tipo, uma cadência vocal, um olhar, totalmente diferentes para sua Fedora e os defendeu com segurança e equilíbrio por toda a novela. Virou um clichê daqueles reproduzidos em rede dizer que Tatá é péssima atriz, mas Fedora tinha uma construção inclusive dramática e nos capítulos em que precisou prová-la, fez um admirável trabalho.

O trio de amigas que queriam um marido rico também teve boas escalações, mas o destaque ficou definitivamente com Ellen Roche. A trama da ex-bbb atrás de mais fama é atual e rendeu ótimos momentos (como quando Ana Paula fez participações como sua rival). Infelizmente, Leonora foi uma das vítimas da pressa com que funcionou a última semana da novela, que “resolveu” conflitos guardados há meses com cenas de menos de 30 segundos. Era como se o autor tivesse descoberto que a novela ia acabar dali a três dias e tivesse tido que fechar dezenas de ciclos em menos de três capítulos. Interações esperadas e merecidas como a do perdão entre Enéas e Giovanni, o encontro da irmã de Felipe com os novos meios-irmãos, o de Carmela com o pai, a rotina de Beto com os filhos adotados, os reflexos das mentiras de Adonis, a descoberta das maldades de Bruna… Tudo foi ignorado ou desperdiçado em diálogos de quatro falas.
Contudo, a decisão de fazer com que Tancinha e Apolo ficassem juntos tinha raízes morais sólidas. Beto interrompeu a trajetória dos dois usando de mentiras e fazia sentido para o autor que Tancinha e Apolo pudessem ter a chance de reverter o quadro e recuperarem o fluxo da própria história sem interrupções. Porém, Beto tinha 20 quilos a mais de carisma e o resultado acabou sendo difícil de engolir, sobretudo num último capítulo recheado de finais rocambolescos que pareciam saídos da cabeça de um adolescente que escrevia novelinhas duas décadas atrás, ainda em máquinas de escrever. Sequestro, vilã doida colocando fogo, atriz convidada aparecendo com o mesmo tipo de outro personagem só pra ser um consolo para aquele que não ganhou a mocinha… Receita típica de um novelão dos anos 80, o que não significa que seja bom só porque dizemos que é um “novelão dos anos 80”.
Vale Tudo é o tipo de novela dos anos 80 que pode passar hoje no horário das 21 e ainda vai ser crível, pulsante. Não é só uma questão de tempo, mas de qualidade textual, de apuro. Haja Coração teve muita audiência, mas nas redes sociais, era tida como uma piada super produzida. Apelar para um didatismo que novelas mexicanas sustentam até hoje pode ser uma saída fácil para sustentar a hipnose em frente a TV, mas não fazem nada de bom pela teledramaturgia do nosso país. As séries mudaram quando resolveram ser arte, além de uma planilha de números. As novelas também podem fazer a mesma síntese e temos ótimos exemplos disso. Olhar para trás com reverência é uma questão de respeito, mas bombear fórmulas ultrapassadas não é homenagem, é oportunismo.
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Haja Meu Coração: Tenho uma admiração brutal por Tatá Werneck (que não afetou meu julgamento sobre Fedora, juro) e já nos falamos pelo twitter, conhecemos pessoas em comum, ela até já mandou um vídeo para mim quanto tive dengue. Meu pedido para o Papai Noel esse ano é: conseguir conhecê-la pessoalmente e dar um abraço nessa linda.
Haja Meu Coração 2: Conheci a Mariana Ximenes num evento de Supermax e pude dizer a ela o quanto estava vencido pela Tancinha que ela construiu. Ela me olhou com um carinho tão grande que agora sou fã até o fim do mundo.
Haja Meu Coração 3: Para mim, as narrativas mais coesas da novela foram a de Fedora, Tancinha e Camila. Mas, acho que a ausência de uma cena entre Fedora e Estelinha Salgado é simplesmente imperdoável.
Haja Meu Coração 4: Que abertura preguiçosa e chata. Tá na hora de começar a pensar em aberturas que se relacionem com a trama, com a essência. A Regra do Jogo deu banho nesse quesito. O mesmo para títulos… Que sono desses títulos que são ditados, expressões, frases feitas… Ainda estou tendo pesadelos com A Lei do Amor.











