A relação leecher da audiência com as produções feitas para cinema e TV, pode refletir a falta de compreensão da importância sobre o quanto uma greve de roteiristas nos EUA, que acaba de ser aprovada pelo Writers Guild of América (o sindicato que representa os escritores junto às produtoras), pode contribuir para uma má qualidade do que chegará à telinha ou telona. Primeiro vamos entender quais são as reivindicações dos interessados na greve, que pode começar no próximo dia 02 de maio.

Segundo o instituto de pesquisas do FX Networks, houve um considerável aumento de séries na TV. O instituto indica que em 2016, aproximadamente 455 séries estavam na TV americana. Os roteiristas alegam que mesmo havendo uma base pesada de atrações na TV, as melhorias da classe não estiveram na mesma proporção. Um dos problemas apontados teria sido o corte do plano de saúde por parte da AMPTP (Aliança de Produções Televisivas e Cinematográficas). A Aliança é responsável por representar canais e produtoras concedendo benefícios e vantagens aos seus afiliados. Os roteiristas alegam que mesmo envolvidos em produções com altos investimentos e os já conhecidos salários astronômicos dos atores, não houve aumento salarial para os grandes responsáveis pelos roteiros destes empreendimento.

Mas afinal, o que os roteiristas de Hollywood querem?

Além de um aumento na faixa de 3%, os roteiristas pedem melhores condições salariais para aqueles que escrevem programas de entretenimento, como talk shows, que também dependem de roteiros e não recebem o mesmo status dos profissionais envolvidos nas séries de sucesso ou em produções cinematográficas de investimento estratosférico.

Mesmo com sinal verde do sindicato para a greve (que teve 96% dos votos para uma paralisação), a AMPTP promete manter o diálogo com o WGA por entender que os prejuízos causados pela greve em 2007 jamais foram recuperados. Estima-se que o rombo foi de U$ 287 milhões. 

A pior temporada de Lost e adiamento de produções no cinema com a greve de 2007

Parece irônico que exatamente há 10 anos, o sindicato e a Aliança estivessem lutando – cada um do seu lado do ringue – por interesses distintos. A engrenagem para que apenas um episódio chegue até você, não é nada simples. Produtores, roteiristas, figurinistas, criadores, todos trabalham em fases distintas para que aquele produto seja levado com um mínimo de coerência até a TV. Aquelas séries que entregam 22/24 episódios por temporada, trabalham em ritmo frenético, com orçamento definido a partir da quantidade de temporadas planejadas por estúdios, canais e produtoras. Cada roteiro passa por um criterioso trabalho crítico para que – de acordo com a proposta – sejam editados termos e expressões – que por exemplo – possam denotar algum preconceito ou situação politicamente incorreta que prejudique não apenas o entendimento ou a forma que aquela cena será recebida pelo público.

Uma das séries mais importantes para disseminação do formato para o mundo, Lost, teve sérios problemas a partir da sua 4ª temporada. Público, críticos, imprensa, sociedade, discutiam – além das teorias –  se a dupla Carlton Cuse e Damon Lindelof (os showrunners da série) estavam prontos para responder às tantas perguntas sugeridas pelos vários episódios das primeiras temporadas. Além da desconfiança do público, a greve dos roteiristas colocou não apenas a série de J.J. Abrams sob suspeita, como teve a quantidade de episódios reduzidos para 14, um número modesto se pensarmos que a primeira temporada teve 25. Há quem diga que a 4ª temporada de Lost foi pior que a última.

Greve de 2007
Greve de 2007

Ter menos episódio, numa síntese geral, significa ter menos tempo para contar a história ou explicá-la e isso ficou nítido não apenas na série da ABC, como também outras produções de sucesso como The Big Bang Theory, The Simpsons, Supernatural e Prison Break. E sim, estamos falando de 2007, quando aconteceu a última greve dos roteiristas.

Tempo é dinheiro!

Qualquer planejamento é prejudicado quando os responsáveis por darem os textos cruzam os seus braços em busca de melhorias. A linearidade e a coerência textual podem sofrer enormes prejuízos se após uma retomada, por questões de custos, a produção for obrigada a correr. Pense: fornecedores, empresas terceirizadas responsáveis pelo aluguel de roupas, o envolvimento de atores/diretores em projetos paralelos, datas de gravação… Deadlines comprometidos internamente.

Também sabemos o quanto é importante que a engrenagem esteja funcionando em tempos onde a produção de franquias e suas respectivas continuações, são as responsáveis pelo (maior) dinheiro que entra e sai em Hollywood. Se as produtoras menores, com a agenda menos apertada, podem se dar ao luxo de adiarem projetos por conta do investimento, gigantes como Tri Star, Warner, Disney, Paramount veem seus cronogramas comprimidos de acordo com as datas anunciadas por suas assessorias. A questão não está resumida apenas ao anúncio de novas datas, mas justamente o compromisso desses profissionais com outros projetos, alguns já assinados e com datas previstas para pré-produção. Isso significa, inclusive, a substituição do elenco. Viagens, livros, anos sabáticos, projetos para TV, convites para direção, antigos sonhos que poderiam sair do papel (e da cabeça), podem ser sepultados de acordo com o tempo de hiato dos roteiristas.

O impacto sofrido em 2007, diminuindo a quantidade de episódios na TV de várias séries, fez com que surgissem inúmeros realities shows para taparem buraco na grade. Foi a maneira “criativa” que os canais encontraram, além das reprises, para que os horários pudessem ser ocupados e não contribuíssem para um maior rombo, especificamente nos contratos publicitários, um dos mantenedores dos projetos na TV.

> Dicas de 5 Séries Nerds!

Você, nerd, ansioso por assistir filmes sob alta expectativa que ainda não foram rodados e sequer escritos, como The Batman ou Deadpool 2, ou séries que retornarão apenas no último trimestre, se tem fé, é momento de começar a rezar. A começar pelo acordo entre o sindicato dos roteiristas e a AMPTP. So say we all.

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