O quanto nós realmente conhecemos as pessoas à nossa volta?
Já parou para pensar na quantidade de gente que você conhece? Quantos amigos você tem em seu Facebook? Quantos deles você conhece a história a fundo? Detalhes, intimidades, medos, angústias, erros? E o que você estaria disposto a aceitar para manter a amizade de alguém? Qual o detalhe que, descoberto, o faria voltar-se contra seu melhor amigo?
Em uma cidade tão pequena como Gracepoint era de se esperar que as pessoas soubessem mais da história umas das outras. Tudo bem que Jack Reinhold é um velho, aparentemente, ranzinza e fechado, mas será que ninguém nunca sentou para ouvir a sua história? Ou a vida em Gracepoint é tão corrida quanto a nossa e as pessoas vivem apenas no superficial, idolatrando a cultura do simulacro? E porque diabos a Chloe quer tanto que o Jack seja taxado de pedófilo, que até “obrigou” o namorado a dizer coisas terríveis sobre o senhorzinho?
Renee está cada vez mais bitch e manipuladora. Porém, felizmente, Owen acordou para a vida (talvez um pouco tarde) e deixou de ser o seu fantoche ao não aceitar fazer outra reportagem sobre Jack, mandando Dean e Chloe levarem as alegações à polícia (finalmente alguém me ouviu!! Haha). Ele continua cheio de problemas, principalmente com a drogada da mãe, mas, pelo menos, o seu senso moral voltou a apontar para o norte.
O ator Nick Nolte (que faz o personagem Jack) está de parabéns! Lembro-me de ter reclamado bastante dele nos primeiros episódios por se mostrar extremamente caricato, parecendo que tinha saído de um dos filmes de Jack Sparrow. Aqui, porém, ele se redimiu. Mostrou-se extremamente humano, angustiado, temendo a própria vida e buscando apoio da polícia. E ao contar a sua história para o Mark conseguiu quebrar os corações mais endurecidos. Além de mostrar para o pai de Danny o que a sua vida poderia se tornar, agora que percebeu que os dois possuem histórias não muito diferentes.
Como em um Big Brother, Jack não teve para onde correr. Aquele era o seu lar e ele estava sendo expulso pela massa ignorante que só quer encontrar um bode expiatório não só para a morte de Danny, mas para todos os seus problemas. É muito triste pensar que em pleno século XXI as pessoas assediam, maltratam e abusam umas das outras sem que toda a verdade seja esclarecida. E é exatamente nesse clima de revolta e dor que nos despedimos de Jack, que escolheu deixar essa vida para retornar aos que sempre serão seus.
Agora vamos falar de coisa boa. Tanto a Ellie quanto o Carver passaram por situações embaraçosas parecidas. Carver é o cara mais sem jeito do mundo para chegar em mulher, sério! Nem pra chamar pra sair, tomar uma breja, jantar em um restaurante bacana… Qualquer coisa, menos pedir uma rapidinha logo de cara. A mulher é dona do hotel, jovem, e não uma massagista tailandesa. Já a Ellie foi chamada para um lance com o CSI, que inclusive sabia que ela era casada. Cavalo amarrado também pasta, Ellie. O melhor, porém, foi o Carver dando possíveis detalhes desse encontro infiel. Momentos assim quebram o clima pesado da série de forma bacana, sem estragar a trajetória das coisas.
Apesar da sugestão de que os tocos de cigarro encontrados perto do corpo de Danny pertencem à estranha Susan, continuo convicto de que o padre Paul tem mais culpa no cartório do que quer demonstrar. Muito estranho o superior do Carver pedir pra ele não mexer com a Igreja. Será que ele sabe de alguma coisa? E qual a necessidade do Paul de querer tanta publicidade ao seu redor? Será que, assim, ele se sente mais seguro para controlar o que a imprensa tem a dizer? Tem cachorro nesse mato.

Agora, o que eles vão aprontar com o desaparecimento de mais uma criança? Essa “pequena” mudança já joga por terra a possibilidade de um final parecido com o de Broadchurch. Afinal de contas, uma criança pode até ser acidente, mas duas já está à beira de se tornar um serial killer, seja quem for.
Infelizmente ainda não tenho filhos, mas me lembro de ter perdido meu priminho de 4 anos em um shopping lotado, uma vez. Desconheço sentimento pior. A angústia de imaginar alguém tão indefeso sofrendo nas mãos de um louco qualquer por irresponsabilidade sua faz o seu coração bater na boca e o suor escorrer frio pela espinha.
Na verdade inúmeros pensamentos e sentimentos passam por você em uma situação dessas, e todas essas nuances foram muito bem representadas nesse capítulo pela detetive Miller. O momento da descoberta, com um nervosismo contido, querendo se convencer de que tudo vai dar certo, depois da frieza ao encontrar o mochileiro Lars, com o olhar de águia tentando não deixar escapar nenhum detalhe que o deixasse impune… Em seguida, o grito, o desespero incontido, a revolta que toma conta quando o tempo se prolonga e nenhuma resposta é encontrada. Além do choro e sofrimento interno lindamente expressos por Anna Gunn no abraço que a Beth lhe deu e no último segundo do episódio, ao encontrar a bicicleta de seu filho.
Nas últimas semanas reclamamos bastante do preconceito e infantilidade dos moradores de Gracepoint, que julgam seus vizinhos sem olhar para a escuridão de seus próprios corações, mas depois de mais um sermão do padre Paul, a cidade se uniu de forma muito humilde e prestativa na busca pelo menino Tom. Ou talvez só agora a população entendeu que enquanto o assassino de Danny não for capturado nenhum deles realmente está a salvo.
Outra criança perdida, dessa vez não no sentido literal, foi a menina Julianne. Depois de inúmeras (e toscas) mensagens de voz deixadas por seu pai em seu telefone, a garota resolveu aparecer, sem aviso prévio, no pior momento possível da investigação. E quando o seu pai teve que escolher, não entre uma criança desconhecida e sua filha, mas, entre uma criança em segurança e uma criança desaparecida, a resposta de Carver foi a gora d’água para a Julie, que abandona o pai mesmo sabendo de sua doença cardíaca.
Apesar de sua aparição ter sido curta, seu impacto pode ter sido profundo na vida de Carver. Seu lado humano ficou muito mais aflorado e, talvez, isso seja exatamente o que faltava para ele desvendar o caso da morte do Danny e, consequentemente (ou não), do desaparecimento do garoto Tom.















