
O episódio mais interessante e coerente de Gossip Girl em muito tempo.
Spoilers Abaixo:
Gossip Girl sempre nunca foi uma série com enfoque exclusivo em apenas um personagem. Mesmo que Serena e Blair sempre tenham aparecido com maior destaque, a premissa da série trata da vida da elite de Manhattan, justificando a divisão do foco entre vários elementos de um grupo de pessoas. Apesar disso, com o passar dos anos, essa maneira de conduzir sua narrativa gerou imensos buracos nas tramas, tornando vários episódios extremamente dispersos, com histórias excessivamente distantes umas das outras. Mas, a quinta temporada da série parece trazer um nível de maturidade maior por parte do roteiro, procurando sempre garantir a coesão de seu texto. Memoirs of an Invisible Dan é o episódio que melhor atinge essa proposta, com apenas uma exceção.
Focado principalmente em Dan e no lançamento de seu livro, o episódio narra as diferentes reações de todos os personagens ao lê-lo. Apesar de inicialmente apoiar o amigo pelo novo sucesso, quando todos o leem e situação muda completamente. Ao descobrir que Dan contou ao mundo sobre o beijo que teve com Blair, a garota perde a paciência e o confronta, além de correr o risco de perder Louis. Já Serena enfrenta problemas no trabalho por conta da má reputação que o livro confere a ela. Enquanto isso, Chuck encara tranquilamente o fato de ser narrado como uma pessoa solitária e amargurada, com um final trágico. Alheias a isso, Diana e Charlie/Ivy se encontram, com a primeira descobrindo o segredo da garota.
Ao ler esse pequeno resumo do episódio, evidencia-se o fato de que o roteiro de Memoirs of an Invisible Dan (tratado a partir de agora apenas como Memoirs) procura unir todas as histórias de seus personagens em um único ponto central. No entanto, a trama de Charlie e Diana foge dessa proposta, aparecendo completamente deslocada do restante do episódio. Além das duas personagens não possuírem importância nenhuma para a série, a proposta de Diana para proteger Ivy consiste na união das duas piores tramas desta temporada. Somando-se a isso o fato de que o episódio possui um foco muito distante da história das duas, o resultado é a existência de um apanhado de cenas sem propósito algum envolvendo as personagens.
Mas, se essa trama parece deslocada das demais, as outras, mais coesas, consistem em grandes acertos do episódio. A começar pelo personagem central, Dan. Gossip Girl raramente o torna o grande destaque de um episódio, e aqui o resultado é bastante satisfatório, por utilizá-lo para semear uma grande quantidade de conflitos a serem resolvidos (ou não) posteriormente. Por isso, apesar de Dan interagir pouco (seu personagem possui uma função mais agregadora), a existência de seu livro traz alguns elementos interessantes para o episódio. A começar pelo apoio inicial dos amigos, que gradualmente vai diminuindo à medida que todos começam a ler os capítulos do romance, embora as “cenas” do livro, com uma palheta irritantemente óbvia do diretor de fotografia do episódio, sejam dispensáveis. Além disso, o contraste entre a reação de todos os personagens ao livro de Dan e a indiferença ao ler pequenas fofocas da Gossip Girl ou até mesmo em veículos mais respeitáveis estabelece uma deliciosa ironia, evidenciando o fato de que um golpe interno é muito mais doloroso que um que venha de fora.
Assim, o episódio aos poucos vai destruindo o caráter de receptividade que Dan recebe em um primeiro momento. E, das reações negativas, a mais importante é a de Blair, como previsto. Primeiramente, porque Dan permitiu-se uma licença poética que a garota não esperava, devido aos sentimentos do rapaz desconhecidos por ela. Aliás, o roteiro também evidencia que a opinião dela é claramente a mais importante para ele, uma vez que a garota é a única que Dan tenta ir atrás. Além disso, essa situação fere o relacionamento entre Blair e Louis. Embora a reação do príncipe seja exagerada e infantil, fica claro que esse é o início do fim do conto de fadas vivido pela garota, principalmente pela dificuldade dele em confiar nela, que não deverá mudar daqui pra frente, apesar das tentativas.
Já a reação de Serena é interessante por escancarar uma característica da personagem, egoísta a ponto de jamais perceber que Dan não descrevera nada mais do que a realidade. Esse caráter egocêntrico e alienado da garota torna a irritação dela com Dan absurda, mas coerente com a personagem. Agora ela deverá engolir seu orgulho para tentar adquirir os direitos de produção de um filme sobre o livro do rapaz, o que poderá trazer um conflito interessante. Além disso, a atitude de Dan com a personagem de Serena no livro aproxima o autor de seu protagonista no romance, mesmo que esse tipo de atitude não seja anti-ética, levando-se em conta tudo que Serena já fez.
Enquanto Serena e Blair tem reações mais acentuadas, Nate e Rufus aparecem um pouco mais contidos, embora o sentimento de revolta seja praticamente o mesmo. Mas, da mesma forma que as duas garotas, Dan não retratou nada mais que a realidade. Aliás, não deixa de ser uma piada dos roteiristas o fato de até mesmo Dan perceber que Nate não possui função alguma na série a não ser o fato de ser filho de uma família problemática. No entanto, retratar Rufus como um marido-troféu não condiz, embora também seja verdade, com a personalidade fraternal do rapaz. É verdade que Dan escrevera o livro para ninguém lê-lo, mas mesmo assim não o vejo observando as coisas dessa forma com o pai.
Mas é Chuck que recebe dos roteiristas a trama mais aprofundada. Primeiramente, por deixar claro o amadurecimento do personagem ao longo do tempo, sendo o único que não se importa de fato com a divulgação do livro. Mas, mesmo acreditando tratar-se apenas de uma ficção, o rapaz também é afetado pelas visões de Dan. No entanto, ao contrário dos demais, a reação dele é exclusivamente interna, levando-o a um conflito psicológico inevitável dadas as perdas do personagem em um passado recente. Na verdade, por ser o único que não despejou suas decepções no autor, ele é também o único que toma as palavras de Dan como verdadeiras, passando a temer por seu futuro. Agora sim, com um argumento válido baseado em algo mais sólido que a incapacidade de sentir evocada nos três primeiros episódios, Chuck poderá sofrer um desenvolvimento mais adequado.
Dessa forma, Gossip Girl constrói um ambiente válido e coerente, baseando-se na atmosfera que ela própria trouxe desde o começo da série, sem precisar investir em tramas absurdas e sem sentido, além de introduzir diversos conflitos que deverão ser explorados daqui pra frente.














