O entendimento para Full Disclosure pode ser feito através do próprio título. A brincadeira com a palavra “disclosure” aparece ao final para dar uma dica maior sobre o que está sendo dito pelas personagens e o que elas de fato sentem ou querem fazer. Ou seja, enquanto todos em cena se posicionam sobre uma situação como se aquilo fosse o fim para eles, na verdade, agem como se quisessem desenterrar a história e conviver com ela.
Antes de analisar os conflitos mais sérios e as complicações estabelecidas esta semana entre as garotas, devo dizer que a produção da HBO sabe aproveitar seu tempo muito bem e não perde muitos minutos com preparação de terreno e cenas que somente adiantariam um conflito. Isso fica evidente quando, em menos de um minuto, Hannah conta a Marnie sobre sua gravidez, após algumas falas que já estampam o quão egocêntrica é a segunda. A conversa entre as duas é interessante também para estabelecer um paralelo entre a honestidade presente atualmente na amizade delas e aquela que testemunhamos no passado, quando ambas moravam juntas. Diálogos assim são essenciais para abordar a ideia de relacionamentos que amadurecem com o tempo, e não deixa isolado o tema de episódios passados, quando falei sobre essa questão por aqui.

Depois de censurar algumas decisões na vida da melhor amiga, Marnie fica feliz por ela e a apoia. Essa atitude é surpreendente, mas é bem-vinda e se contrapõe aos exageros de Elijah, que tentou se redimir em seguida. Talvez Marnie esteja apenas deslumbrada com a ideia de ser uma madrinha, afinal, voltou à questão em conversa com sua mãe, quando os tópicos abordados por elas não tinham elementos em comum. Claro que nesse caso há uma possibilidade de ser coisa minha e minha implicância com a personagem, então sigamos.
Para abordar as garotas e as ótimas cenas que protagonizaram aqui, é preciso primeiro falar sobre a que está ausente. Shoshana não apareceu — Jay também não. O estranho é que a maioria das cenas dela é dividida com ele, e o simples fato da personagem dele não ser abordada nesse sexto episódio é indício de que ela também não estará. Isso é estranho se tratando de uma série como essa, e piora quando percebemos que só temos mais quatro episódios para fechar a história da personagem, e todas as outras estão próximas de algum fechamento. O medo é que lhe atribuam um final de última hora, típico de final de filme mal escrito ou novela.
Tendo deixado isso de lado, chego às ótimas cenas envolvendo Marnie em Full Disclosure. Depois do jantar com Hannah, a jovem se envolve em diversas discussões com Desi e, aparentemente, ambos se despediram nesse episódio. A cena dos olhares trocados ao final, enquanto ela fazia parte daquela apresentação estranha ao lado de sua mãe foi muito bonita, por mais que simples. Sua mãe (Rita Wilson, bem confortável), aliás, voltou nessa temporada para nos lembrar de quem Marnie herdou essa forma de abordar relacionamentos a partir de si.

A impressão durante as cenas das duas é que Marnie ainda é uma garota muito nova, muito ingênua, muito mimada, e que parece uma criança ao lado da mãe, obedecendo tudo o que lhe é falado. Desi, por outro lado, enquanto tem o ator Ebon Moss-Bachrach crível, na medida do possível, tornou-se cansativo para mim e seria interessante que a série realmente se despedisse dele — e o curto e frustrado monólogo dito em cima de sua moto caberia perfeitamente nessa tarefa.
“Eu não sou um músico, Bella. Nunca fui. Apenas agi como um. Antes disso, eu apenas agia como um ator. Antes disso, eu agia como um grande fotógrafo. Eu estou sempre agindo como se eu fosse algo, mas agora eu cansei”.
— Desi em Girls.
Peter Scolari, que venceu o Emmy ano passado pela sua personagem depois de entrar na corrida pelo prêmio após a desqualificação de um candidato (o que ainda me soa bizarro — não a vitória, mas como se deu), faz uma boa participação aqui e, assim como o ator já disse em entrevistas, ele está distante de ser apenas o pai de Hannah, tendo uma vida e jornada à parte. É importante sua opinião na construção do debate sobre o bebê, já que tivemos sua ex-esposa na semana passada. Talvez como fruto do memorável terceiro episódio, o roteiro traz argumentos diferentes e confronta sua protagonista com suas decisões pessoais. Para tanto, Ethan Phillips fez uma boa participação e sua personagem trouxe questões interessantes e que talvez tenham representado diversos telespectadores.

Chegamos ao ponto em que Hannah está totalmente irreconhecível nessa temporada, e isso é ótimo porque é crível, foi um trabalho desenvolvido ao longo de toda a série. Sua interação com Adam e Jessa separadamente é o ponto fundamental dessa percepção, além da ligação que ela faz ao final para tentar localizar o pai de seu bebê — mesmo que ela não tenha concretizado a ação de comunicar o pai, o fato de considerá-la expõe-nos uma pessoa disposta a ouvir e aceitar a verdade alheia, a possibilidade de que outras pessoas também tenham razão diante de uma questão.
“Tudo o que fizemos juntos aconteceu, queira você acreditar nisso ou não, queira você se lembrar ou não. Você não pode apagar as pessoas. Você não pode simplesmente me apagar”.
— Jessa em Girls.
Os encontros com Jessa e Adam me renderam duas observações que gostaria de compartilhar. Com a primeira, é preciso dizer que o momento poderoso entre as duas foi um pouco ofuscado pela cena que veio antes. A cena metalinguística de Elijah interpretando uma cena nos tira da ambientação que estávamos na série. Ou seja, quando vemos Hannah e Jessa se confrontando, fica a sensação de que são duas atrizes conversando e interpretando. Isso só seria diferente se a cena fosse mais longa, com outra escrita e ambas atrizes irretocáveis. Mesmo assim, assistindo ao episódio pela segunda vez, consegui me desapegar disso e apreciar o bom momento. Nele, Jessa fala que não é possível apagar as pessoas, enquanto Hannah afirma que não se importa; a verdade, porém, é que ela se importa sim — como diz a frase no final, algo que machuca não pode ser esquecido, porque a mágoa é gerada justamente disso: a permanência daquele momento conosco. Ainda destaco como foi levantado que ambas talvez nunca tenham sido amigas, algo adiantado por mim em textos passados.

O segundo ponto que observei foi a reação de Adam ao filho de Hannah e isso me preocupa, justamente porque não quero que ambos se reaproximem por isso e dessa forma. Se isso acontecer, e é uma grande possibilidade, quero que isso se dê de outra maneira.
“Se machuca, você vai sempre se lembrar”.
— Adam em Girls.
> Punho de Ferro, Crítica Sem Spoilers!
Por fim, temos o filme feito por Adam e estrelado por Daisy Eagan. O título (full dis:closure) nos entrega a intenção por trás do episódio, e as poucas cenas que vemos costuram mais um roteiro muito afiado. O episódio termina com Robyn nos fazendo sentir, desde agora, saudade da série e nos lembrando do final do terceiro episódio da primeira temporada, quando fomos conquistados de vez.















