Em American Bitch, Lena Dunham resolveu colocar o dedo na ferida e fazer isso da maneira como sabemos que consegue: entregando meia hora de provocações, humor negro e reflexões não tão óbvias, mas necessárias. Com momentos dúbios e que podem ser interpretados de diversas formas, American Bitch inicia um debate e dá ao público a oportunidade de ler a situação conforme achar que deve. A perspectiva para os dois lados da história está lá. Independente da opinião a respeito, a realidade é que há algo no roteiro escrito pela criadora da série que precisa ser discutido.
Talvez para fugir da inevitável concorrência com o Óscar, o episódio apresenta uma trama que não fora estabelecida antes e que se limita praticamente a si. Funciona, portanto, assim como episódios semelhantes, isolado e não leva consequências ao restante da série. A contribuição maior ao programa é o acréscimo que ele faz à percepção de maturidade de Hannah que tanto se discute nessa sexta temporada. De resto, dá para recomendar o episódio (e isso talvez passe pela sua cabeça), mesmo aos que não acompanham a série.

É preciso alguns minutos para que entendamos o que está acontecendo. Se no começo acreditamos que Hannah é convidada ao apartamento de um autor para escrever sobre ele, logo percebemos que, na verdade, ela já escreveu a respeito e o que o autor em questão deseja, por mais que não diga isso diretamente, é uma retratação. Na verdade, conforme avançamos no episódio, fica a ideia de que ele quer lhe dar uma lição.
O roteiro é inteligente e sabe manipular o espectador, colocando-o na mesma posição da protagonista. Chuck Palmer (interpretado pelo ator Matthew Rhys de The Americans) é uma pessoa crível, demonstra sua arrogância, suas manias, sua vaidade e sua fragilidade através de um comportamento bem pensado. O quanto ele deixa transparecer de propósito para ser essa pessoa é algo que nunca saberemos. Isto porque, após um tempo, fica claro que cada passo dado em seu apartamento é mais uma jogada para o resultado final, não muito evidente no começo.
Uma discussão levantada logo no início é sobre o consenso em relações sexuais e como alguns atos, segundo o escritor-personagem, não podem ser realizados sem concessão — ele cita sexo oral, que Hannah afirma que sim, isso acontece. Ela não sabe explicar bem o motivo, seus argumentos não são bem embasados, mas a sensação é de que ela se torna um exemplo dessa relação não consensual que descreve. O escritor, mais experiente, usa de sua posição para destruir as defesas dela e, depois disso, abusar da fragilidade presente em um espírito jovem como o de Hannah. Algo semelhante acontece na vida real.

American Bitch traça o perfil comum do homem bem sucedido e que pode usar seu poder e influência na sociedade como bem quiser, usando, na maioria das vezes, para conquistar e descartar mulheres. Quem acredita que esse jogo de sedução é jogado pelos dois lados e a culpa é de quem se deixa levar, precisa avaliar a história pelo que ela é, levando-se em conta o cenário no qual as mulheres estão inseridas, todo o contexto.
Segundo Chuck, enquanto ele se aproveita de suas fãs, elas se aproveitam dele para terem algo sobre o que escrever — aquela experiência de vida que Girls citou algumas vezes em temporadas anteriores. Sendo assim, ele acredita que os dois lados estão quites e que não lhes deve nada. O que Hannah explica, durante um debate interessante, é que as garotas não se comportam assim para adquirem material para escrita, mas para existirem. Ouso dizer que a denúncia feita pelas diversas garotas, o que leva à trama do episódio, também é por isso. Rostos e nomes esquecidos, as garotas que cruzam o caminho de Chuck acabam combinadas em um perfil só, e ele não se dá ao trabalho de dar a cada indivíduo sua história, sua importância, referindo-se a todas da mesma forma. Quando “revidam”, quando o denunciam, as garotas provam, através desse ato, que deveriam ser lavadas em consideração e não tratadas da forma genérica como o famoso escritor as trata.
Além das citações às modernas ferramentas de escrita e divulgação de informações, o episódio faz bem ao posicionar Hannah dentro dessa situação através de um texto escrito por ela sem que houvesse qualquer investigação por trás, porque, conhecendo a personagem, sabemos que é isso que ela faria.
Algumas comparações podem ser feitas com outros episódios da série, como One Man’s Trash (citado anteriormente por aqui). Entre os motivos, está a competente direção de Richard Shepard, que dirigiu aquele episódio, entre outros. Em entrevista ao The Daily Beast, o diretor nos fornece diversas informações que sevem como complemento ao que fora assistido. Depois de falar sobre o uso de prótese na cena mais desconfortante, ele deixa um alerta ao explicar a última:
“Se nós não mudarmos a maneira como lidamos com essa dinâmica de poder, haverá mais vítimas, mesmo que alguém teoricamente escape”.
— Richard Shepard, diretor do episódio, para o The Daily Beast.
Aqui temos a situação se desenvolvendo no ambiente em que a série se passa, mas, assim como disse Lena Dunham a Vulture, essa é uma situação com a qual diversas mulheres podem se associar, independente da área que trabalham. Isso porque, a partir do momento em que alguns homens assumem cargos e têm poder e dinheiro à disposição, atuam como se o resto do mundo devesse servi-los. A autora também fala dessas situações confusas nas quais não se sabe direito como se chegou ali e se há alguma culpa por parte da vítima — ou a ideia de vítima por si só. Pessoalmente, sempre fui da opinião de que a ideia de consenso é muito vaga e não pode ser aplicada quando um dos lados exerce uma influência dominante e manipuladora sobre o outro, algo que sempre repeti nas conversas sobre relações.

Com Hannah, chegamos à cena da cama e ao pedido de desculpas que ela acha que lhe deve. Depois, quando estávamos prontos para baixar a guarda, há uma reviravolta que deveríamos esperar e Chuck se mostra aquilo que a escritora esperava. Seu gesto a empurra para mais uma zona cinza, área que ela se diz cansada de habitar. Essas zonas assim se mantêm porque não as iluminamos como deveríamos. Essa é importância de episódios como esse.
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Ao som de Rihanna (uma artista feminina que tem uma atitude provocativa e uma história pública envolvendo abusos) cantando que não há mais lugar para ela ali, American Bitch se despede como o episódio mais completo de Girls — o que é estranho, por ter somente uma de suas personagens. A meia hora serve para vislumbrar o talento e o futuro de Lena Dunham no entretenimento. A última cena, mesmo a mais distante da série, é talvez a sua mais poderosa e emblemática. Minha percepção é de que diversas garotas estão caminhando para o mesmo destino, e é isso que fazemos: assistimos.















