Beyond the Wall é a ilustração perfeita de como Game of Thrones se transformou.
Não há nenhuma produção atual que desperte tamanha comoção coletiva como GoT e essa afirmação fica mais evidente a cada semana. A 7ª temporada vem enfrentando o desafio de lidar com o vazamento de seus roteiros, episódios e a bizarra situação ocorrida na última semana quando a HBO Espanha exibiu o inédito episódio 7×06 ao invés da reprise programada do 7×05. Acontece que a série não tem sido prejudicada por esses eventos externos, alcançando recordes de audiência semana após semana. Os problemas da atual temporada são internos, residindo nas suas escolhas narrativas.
Por exemplo, Beyond the Wall foi um episódio em que sobrou intenção e que tinha tudo para ser mais um penúltimo episódio épico na história da série. Se há alguns anos falássemos que no futuro Game of Thrones entregaria um episódio no qual Jon, Jorah, o Cão e Gendry enfrentariam juntos o exército dos mortos além da Muralha, Daenerys sobrevoaria o caos com seus dragões a incendiar os mortos vivos e o Rei da Noite mataria um dos dragões trazendo-o para o seu lado, soaria como a sinopse de um dos melhores episódios da série… Analisando esses eventos separadamente, como acontecimentos independentes do restante da trama, eles realmente despertaram enorme emoção. Mas dentro do contexto minuciosamente apresentado ao longo de todos esses anos, e construído tão rapidamente nessa temporada, é evidente que falhas de coesão, motivações frágeis dos personagens e excesso de resoluções convenientes prejudicam a apreciação de uma trama que tinha tudo para ser espetacular.
Beyond the wall não é sequer o melhor episódio da temporada atual, o que é especialmente desanimador quando conhecemos o retrospecto da série e sabemos que as retas finais das temporadas – especialmente os penúltimos e últimos episódios – são os ápices do que a série tem a entregar naquele ano. Nas conversas e debates pós-episódio fica a constatação que GoT tem nos entregado exatamente o que desejávamos, mas não da forma que queríamos.
A série que em penúltimos episódios matou Ned, Robb e Catelyn Stark, criou sequências inesquecíveis na Batalha da Água Negra e na Batalha dos Bastardos, dessa vez leva seus protagonistas a situações de extrema periculosidade por razões absurdas, matando figurantes e criando resoluções óbvias. A ânsia em criar momentos marcantes e grandiosos foi maior do que a sensibilidade em construí-los. Ao final, estávamos tal como Jon e Dany… Conquistamos o que queríamos, afinal tivemos momentos grandiosos, mas sacrificamos algo de suma importância no caminho. Há um sabor amargo na catarse de presenciar momentos marcantes…
Nós vimos a força do Rei da Noite, choramos com Drogon ao ver Viserion ser abatido, surpreendemo-nos com o surgimento de um Dragão zumbi, vimos o embate do gelo e fogo… Mas a decepção de realizar o quanto a série escorregou para alcançar esses feitos faz com que esses trunfos sejam bem menores do que poderiam ter sido se construídos com o mesmo cuidado que vimos eventos anteriores desenvolvendo-se.
Vejam, não é que a série esteja ruim. Game of Thrones permanece como uma produção de tirar o fôlego, mas não é mais o produto diferenciado de antes. Se antes prendíamos a respiração diante dos acontecimentos imprevisíveis e surpreendentes, agora é a grandiosidade das cenas de ação, batalha e dos reencontros de personagens que nos tiram o ar.
Se nos tornamos exigentes e questionamos essas escolhas narrativas é porque amamos a série e a forma como ela nos conquistou nos detalhes. Criticamos porque ao olharmos o passado da produção temos conhecimento para questionar as escolhas atuais. Queremos o melhor para Game of Thrones porque adoramos adorá-la.
Um desabafo de fã… Sinto-me às vezes como uma mãe que gosta de exaltar os grandes feitos do filho e que tenta atenuar e procurar desculpas às suas falhas. A decisão por uma temporada mais curta soa cada vez mais equivocada e vou tentar destrinchar os problemas que tanto me incomodaram em Beyond the wall.
AS FACES DE ARYA E SANSA
Há um jogo que envolve Sansa, Arya e Mindinho ocorrendo em Winterfell. Resta confirmar quem são as peças e quem as está movimentando.

O diálogo inicial de Sansa e Arya começa bastante promissor, com a caçula relatando as lembranças de sua infância rebelde em Winterfell, com a voz forte e o olhar raivoso de quem ainda não digeriu o assassinato do pai. Mas, então, a agradável sensação que a cena transmitia é quebrada quando Arya revela estar usando desse momento para direcionar, injustamente, parte da culpa pela morte de Ned à Sansa. A semente plantada por Mindinho germinou e nesse episódio infelizmente acompanhamos o desagradável conflito entre Arya e Sansa crescendo muito mais do que eu gostaria.
Arya usa a carta que Sansa enviara a Robb no passado como a prova da traição da irmã soando inflexível, até mesmo pedante, sustentando-se na imagem que criou de Sansa há anos atrás. A ruiva, por sua vez, manteve uma postura irretocável, pontuando perfeitamente que vê-las brigando era exatamente o desejo de Cersei (no caso de outro inimigo, Mindinho) e que se não fosse por ela, elas não estariam ali dialogando em Winterfell.
É a primeira vez que vemos Sansa exteriorizando a certeza de sua importância na vitória da Batalha dos Bastardos. É interessante ouvi-la dizendo que ‘Jon perdeu a Batalha’ pois é um fato que ela nunca usou contra Jon ou para humilhá-lo, evidenciando que não há desejo de usurpar o lugar do irmão (primo), como Arya desconfia. Ainda que possa desejar internamente usufruir definitivamente dessa posição que ocupa momentaneamente, essa Sansa seria incapaz de tramar contra Jon. Ela exalta como foi indispensável na retomada de Winterfell, como forma de defender-se da argumentação de Arya, nunca como um motivo para menosprezar o lugar que Jon ocupa atualmente.
Gosto de ver Sansa ressaltando como a irmã também não fez nada diante da condenação de seu pai, principalmente porque Arya é muito injusta nas suas afirmações. Sansa realmente estava linda e bela ao lado dos Lannisters no espetáculo montado para Ned confessar ‘sua traição’. Ela o incentivava e sorria, mas se assustava à violência do povo com seu pai e – principalmente – gritou e implorou desesperadamente para que seu pai não fosse morto, tão logo Joffrey o condenou. Ela fez o que podia naquele momento, tanto quanto Arya fez. A reação das duas foi basicamente a mesma, revejam a cena aqui.
Esse foi um momento determinante na jornada de Sansa, onde ela deixou para trás a menina que mentiu para proteger Joffrey a caminho de Porto Real. Ela passou a odiá-lo, mas nunca mais pôde ver Arya desde então. A carta que Mindinho planta para Arya, resgata todas as lembranças antigas da menina que se acostumou a ouvir a irmã referir-se a Joffrey como ‘meu amado’.
Dessa forma, há até certa razoabilidade nas desconfianças de Arya, mas que deveriam ter sido afastadas diante de uma conversa sincera e demorada sobre tudo que ambas passaram. Enquanto permanecem afirmando que uma não sobreviveria ao que a outra passou, elas amplificam suas diferenças e impedem que a cumplicidade de duas meninas que tanto sofreram mas permaneceram resilientes, as conecte novamente além do sangue.
Dentro desse contexto, torço para que tudo isso seja um jogo de Arya para testar a lealdade de Sansa à exaustão. Elas tiveram bons momentos na cripta de Winterfell, quando se reencontraram depois de tanto tempo, mas foi só ter conhecimento da presença de Mindinho em sua casa que Arya ligou seu alerta. Ela precisa ter certeza absoluta que sua irmã não está aliada a Petyr ou sendo usada por ele, e assim a pressiona o quanto pode.
Se por um lado Arya acredita que Sansa tem a mesma mentalidade de tempos atrás, Sansa está certa que sua irmã está completamente mudada e acredito que isso a coloca um passo à frente da irmã. Ela afirma isso a Mindinho enquanto desabafa sobre os impasses entre elas, sem saber (será?) que foi ele quem orquestrou todo o incidente. O medo de Sansa é palpável, ela realmente teme o que essa nova Arya é capaz e, aproveitando-se dessa fragilidade, Petyr dá continuidade a seu jogo persuasivo relembrando-a da promessa que Brienne fizera a Catelyn Stark (proteger suas duas filhas, tanto Arya como Sansa).
É difícil entender porque Sansa permanece abrindo-se tão intimamente a Mindinho. Se no final da temporada passada ela afirma a Jon que ‘apenas um tolo confia em Mindinho’, de duas uma… Ou ela é uma tola ou está o fazendo de um. Há um vínculo inevitável criado com o homem que lhe ajudou, seja resgatando-a de Porto Real, seja auxiliando na Batalha dos Bastardos… Mas Sansa parece sempre muito consciente das artimanhas que ele é capaz de orquestrar (recordam-se quando ela afirmou a Bran que Mindinho não lhe daria a adaga sem querer nada em troca?), afinal ela o acompanhou de perto e o viu assassinando Lysa Arryn, além de ouvi-lo dizer sobre sua ambição em sentar-se ao Trono de Ferro. Não há ninguém na série a quem Mindinho se expôs tanto quanto à Sansa e essa pode ser sua grande fraqueza (torcemos por isso).
Acredito que ela não seja tola, mas esteja se aproveitando da conexão estabelecida com Mindinho para se manter atenta aos seus passos e reais interesses. Quando ela conta sobre Arya a ele, torço para que seja ela quem esteja jogando com ele e não o contrário.
Logo depois de conversar com Petyr, ela decide enviar Brienne para representá-la em Porto Real (aliás, perfeita a sua decisão de não deixar Winterfell nesse momento dirigindo-se à cova de Cersei Lannister!) o que gerou uma série de questionamentos. Por que ela afasta Brienne justamente após Mindinho apontar o fato que ela prometera proteger as filhas de Catelyn? Estaria Sansa ouvindo os conselhos de Mindinho afastando alguém que poderia proteger Arya caso ela precisasse agir contra a própria irmã? Afinal, num embate entre as duas, qual seria a reação de Brienne? Eu definitivamente não acredito nisso. Como dito anteriormente, vejo Sansa bastante consciente e meticulosa, e não me surpreenderia dela ter tomado essa decisão justamente para Mindinho achar que ela ouviu suas incitações.
Sansa ainda tem dúvidas sobre quem Arya se tornou, mas completa noção de quem Mindinho é. E na busca pelos segredos da irmã, ela encontra a maleta com as faces que Arya furtou da Casa do Preto e Branco, o que desencadeia um novo embate entre as duas, agora mais sombrio, onde uma dark Arya cresce sobre Sansa que se encolhe assustada. Excelente atuação de Sophie Turner que entrega em seu olhar e expressão corporal todo o receio e insegurança que Sansa sente.
É extremamente decepcionante assistir Arya ameaçando Sansa de forma tão vil. Agarro-me a possibilidade de isso ser parte de seu plano em testar Sansa até o limite. Talvez Arya também esteja alimentando o embate para avaliar a reação de Sansa e Mindinho a esse fato. Afinal, Arya NUNCA desejou ser Lady de Winterfell, vestir as roupas de Sansa ou usufruir do seu status atual. Essa ‘ameaça’ soa completamente contraditória com tudo que já a vimos agir e falar. Essa incoerência aliada ao fato que no último minuto ela entrega a adaga a Sansa, alimenta minha esperança de tudo ser uma atuação daquela que aprendeu a ler mentiras e a representar na Casa do Preto e Branco.
Enquanto a série aponta na direção de um desnecessário confronto entre Sansa e Arya, eu espero ansiosamente que estejamos, junto com Mindinho, sendo também enganados. Duas mulheres que, por caminhos tão distintos, aprenderam a se proteger de mentiras e persuasões e agora o reconhecem, independentemente, como um inimigo. Agora é preciso que elas reconectem para o combaterem em conjunto. Esta é minha aposta para o season finale.
SUCESSÃO TARGARYEN

Enquanto os ‘heróis’ arriscam-se além da Muralha, Dany e Tyrion conversam em Pedra do Dragão sobre os sentimentos de Dany e Jon (que estão cada vez mais evidentes e não precisam dos personagens colocando isso em palavras todos os episódios) e sobre os termos do acordo selado entre os irmãos Lannister que, de uma forma ou de outra, prometem atenuar a impulsividade de suas Rainhas no encontro em Porto Real.
Há uma grande insistência de Tyrion em Daenerys ‘quebrar a roda’ que seu antepassado, Aegon, criou. O anão parece determinado a criar um novo mundo, sustentado em novas relações políticas (talvez uma democracia?) e exterioriza suas preocupações tanto com o comportamento de Dany como na permanência de seu legado caso ela venha a perecer. É uma preocupação pertinente e eles já deveriam ter debatido um possível sucessor antes mesmo de começarem a guerrear, mas também é compreensível que – agora – no calor das batalhas, Dany prefira conquistar o Trono antes de planejar um futuro com uma coroa imaginária.
Enquanto os personagens ainda desconhecem a legitimidade de Jon Stark Targaryen ao Trono de Ferro, o anão traz à tona uma das questões mais delicadas na vida da Mãe dos Dragões: a sua impossibilidade de gerar herdeiros e eternizar sua linhagem no Trono de Ferro. Um assunto que foi pouco abordado na série, mas que é profundamente debatido pelos leitores da saga de GRRM e baseia-se na profecia da maegi, Mirri Mas Duur, a feiticeira que prometeu salvar Khal Drogo através de uma magia que envolvesse sacrifício de sangue, na 1ª temporada.
Caso vocês não se recordem, a Khlaeesi acabou pagando a vida de Khal Drogo com a morte de seu filho, Rhaego, que nasceu prematuro e completamente deformado enquanto a maegi executava a cerimônia para salvar Drogo do ferimento que o debilitava. No entanto, mesmo após a magia de sangue, Khal Drogo permanece em estado vegetativo e ao questionar quando Drogo retornaria ao normal, Daenerys escuta a seguinte resposta de Mirri Mas Duur:
“Quando o sol nascer a oeste e se puser a leste. Quando os mares secarem e as montanhas forem sopradas pelo vento como folhas”.
No entanto, nos livros há uma frase adicional a essa profecia, que não foi incluída na série: “Quando o seu ventre estiver pronto a ganhar vida e der à luz um filho vivo. Então ele voltará, e não antes”.
Diante da impossibilidade dos outros termos da profecia acontecerem, Daenerys conclui que se tornou estéril e passa a considerar seus três dragões como seus únicos filhos possíveis.
Não acho que essa questão tenha sido trazida à tona à toa, especialmente em uma temporada em que cada diálogo parece ser de alguma importância para os fatos futuros. Os problemas da sucessão podem ser resolvidos ou se complicarem ainda mais quando eles descobrirem a origem de Jon.
ESQUADRÃO SUICIDA

Foi preciso reunir a estupidez de diversos personagens (Tyrion sugerindo o plano o qual Jorah e Jon aceitam imediatamente; Cão arremessando pedras contra os wights desnecessariamente; Jon demorando a subir em Drogon, etc…), a introdução de uma habilidade the flash a Gendry e Drogon – bagunçando toda a coesão de espaço e tempo – e as salvações deus ex machina de Dany e Benjen ‘Mãos Frias’ Stark, para que vivêssemos o bom momento (extremamente bem feito e catalisador de grandes emoções) do abate de Viserion e sua posterior transformação em um dragão de olhos azuis.
É verdade que toda a sequência além da Muralha foi de uma fotografia impecável, digna de cinema. Imagens belíssimas que compuseram com perfeição as expectativas daquele mundo, em cenários diferentes dos vistos perto de Castelo Negro ou Durolar, mas que transmitiam igualmente a presença do Inverno nas terras ao norte de Westeros. Nesse quesito técnico, não há quase nada há se criticar. Igualmente bem feitos estavam os dragões. O clímax do episódio foi emocionante e um duro golpe – daqueles que acrescentam à história – para o público que acompanhou o nascimento e crescimento desses animais por tanto tempo. Foi extremamente triste ver Viserion contorcendo-se ao ser atingido pela lança de gelo, seu sangue a explodir e espalhar-se enquanto o grito de Drogon ecoava tão tristemente.
O problema está em como as coisas foram construídas (ou não construídas) para se chegar até aí. A motivação que desencadeia todo esse evento é de enorme fragilidade e difícil compreensão… A série pede que os fãs – estimulados todos esses anos a pensarem em mil teorias, degustadores de tramas coesas e bem embasadas nas motivações dos personagens – tornem-se wights e simplesmente aceitem os fatos sem questionamentos.
Será que desfechos impactantes e espetaculares serão suficientes para os fãs fecharem os olhos para todas as críticas que podem ser feitas?

A primeira parte da jornada em busca do wight alternou interações inusitadas entre personagens que tiveram poucas (ou nenhuma) chance de interagir anteriormente. Foi uma escolha feliz que funcionou para evidenciar o avançar da trilha que percorriam, além de adicionar doses de humor e referências aos antigos eventos da série em diálogos curtos e ágeis, que são perfeitamente aceitáveis dentro do contexto apresentado.
Dentro de todas essas interações, destaco o diálogo de Jon e Jorah sobre seus pais honrados e a morte pouco honrosa que tiveram. Refletindo essa honra paterna, vemos Jon devolvendo a espada de aço valiriano da família Mormont para Jorah e este devolvendo-a de volta. Aos que não se recordam, quando Jorah fala que trouxe ‘vergonha’ para sua casa, ele se refere ao fato de ter fugido para Essos a fim de evitar a execução por escravizar prisioneiros (Westeros condena veementemente a escravidão). E como bem lembrado nesse diálogo, Ned Stark foi quem o descobriu e iria decapitá-lo com sua Gelo. Jon e Jorah protagonizaram uma cena simples e de enorme significado, condizente com toda a trajetória dos personagens até aqui.
Destaco também a cena entre Beric Dandarrion e Jon, quando o primeiro recorda ao Rei do Norte (e ao público) que foi Ned Stark quem o enviou para capturar Montanha nas Terras Fluviais. Beric conheceu sua primeira morte pelas mãos de Montanha e após ressuscitado, ele formou a Irmandade sem Estandartes com Thoros e outros soldados.
O encontro entre os dois é também a primeira interação entre dois personagens que conheceram a morte e puderam ‘vencê-la’. Se a morte é o inimigo, Beric esforça-se para explicar Jon que eles dois devem proteger aqueles que não conseguem se defender sozinhos desse inimigo. Sabendo que a morte é inevitável, eles podem ao menos atrasar essa derrota.
“Pessoas inteligentes não vem aqui buscar mortos”.
É do selvagem Tormund a frase mais inteligente sobre o plano mais estúpido já visto em toda a série.
Não é de se estranhar que venha justamente dele, o único – ao lado de Jon – a verdadeiramente compreender o perigo que eles escolheram enfrentar. Se a inteligência não acompanhava os objetivos do melhor esquadrão suicida do entretenimento (#paz) – Jon, Jorah, Cão, Tormund, Beric, Gendry, Thros, Figurante 1,2 e 3 – coragem, resiliência e habilidades de luta/sobrevivência precisavam sobrar para que eles tivessem algum sucesso. Além de (claro!) inúmeras conveniências de roteiro…
Se sobra coragem por parte dos personagens, falta e muita por parte dos roteiristas… Eles construíram uma missão de extrema periculosidade para o grupo e sabiam que, dentro de tudo o que a série construiu até hoje, seria mais do que esperado que personagens importantes perecessem no caminho. Traria mais robustez ao perigo tão alarmado, maior sensação de imprevisibilidade e, certamente, uma experiência mais marcante para os fãs. Seria coerente e mais real.
Não estou dizendo que os fãs de Game of Thrones só gostam dos eventos nos quais personagens importantes morrem de forma surpreendente… Os fãs gostam da sensação de estar no escuro, sem saber se um pequeno passo irá desencadear grandes quedas. Os fãs gostam quando adivinham os fatos baseados em pistas que tateiam no escuro, não quando o óbvio surge diante de si.
Em uma missão suicida como essa, mesmo personagens secundários permanecerem incólumes vai contra tudo o que a série pregou ao longo dos últimos sete anos. Não há mais o diferencial de que ‘ninguém está a salvo’ quando nem mesmo há coragem de se eliminar certos personagens coadjuvantes. Para não tornar a missão inverossímil, opta-se pela saída mais fácil: introduzir figurantes para morrerem e eliminar o personagem com menor conexão com a audiência (Thoros de Myr).
Aliás, o responsável pela morte de Thoros, o urso polar wight, era um antigo desejo de David Benioff e Dan Weiss que pôde finalmente ser incorporado na série. Um momento oportuno para relembrar a audiência que animais/criaturas também se tornam soldados do Rei da Noite. Achei o urso extremamente mal feito e pouco realista, como se fosse uma cena de algum jogo de vídeo game. Já havia lido que há maior dificuldade em criar os lobos gigantes do que os dragões em CGI (e por isso vemos tão poucos momentos de Fantasma!) e essa cena do urso me fez compreender melhor essa questão.
Uma das maiores e mais relevantes revelações de Beyond the wall é o fato de que ao destruir um White Walker os wights transformados/reanimados por eles também são destruídos. O esquadrão suicida de Westeros faz essa descoberta quando Jon destrói um dos WW com sua Garralonga de aço valiriano e, convenientemente, apenas um wight do bando não estava conectado ao WW e eles puderam capturá-lo para concluir seu plano. No submundo da Internet circulam algumas teorias que acreditam que o fato daquele bando andar com um zumbi transformado por outro WW, possa significar uma espécie de comunicação entre WWs. Uma teoria que seria interessantíssima, mas extremamente improvável dado o desenrolar da série. Trata-se apenas de mais um acontecimento conveniente para o roteiro prosseguir.
Jorah e Jon confabulam sobre essa informação acreditando que ao matarem o Rei da Noite, que iniciou todas as transformações, poderão, então, derrotar todo o exército da morte. Eu espero avidamente que isso não aconteça e, que essa conexão não exista entre os WW. Espero que eles precisem destruir todos os WW, um a um, para vencer a Grande Guerra. Ou que, ao menos, a destruição do Rei da Noite necessite de algo além do já descoberto aço valiriano e vidro de dragão… Vale pontuar que em Durolar (5×08), quando Jon destrói seu primeiro White Walker, não há qualquer sinal de que outras criaturas tenham sucumbido também.
Após capturarem o wight, Jon ordena que Gendry retorne a Muralha e peça ajuda a Daenerys, enquanto ele e os demais correm do exército de centenas de mortos que avançam sobre eles. Aprisionados em uma ilha no meio do lago congelado, resta aos nossos heróis aguardarem que a chegada da khaleesi ocorra mais rápido do que o congelar do lago, eventos que acabam por acontecer na mesma hora.
Eu sempre busquei relevar os ditos ‘teletransportes’ que vem acontecendo na série desde o final da última temporada, defendendo que as cenas não são exatamente sequencias e não ocorrem ao mesmo tempo e que a trama precisa ser mais ágil nessa sequência final. Mas dessa vez não há defesa, pois o que vimos foi sequencial: o retorno de Gendry, o envio do corvo à Pedra do Dragão e a chegada de Daenerys ao lago congelado ocorrem em um tempo máximo de 24 horas. Houve a tentativa de evidenciar a passagem do tempo ao vermos o dia escurecer e voltar a clarear, mas ainda assim tudo que aconteceu nesse espaço tempo soa inverossímil.
O problema é tão evidente que o diretor do episódio, Alan Taylor, reconheceu que o timing foi um desafio e que não funcionou para alguns espectadores. Em sua defesa ele declara que eles buscam alcançar mais as ‘impossibilidades plausíveis’ do que certas ‘plausibilidades impossíveis’ (~gif da Nazaré~) e que espera que o momentum alcançado pela história possa sobrepujar alguns problemas de timing. A emoção causada pela chegada triunfal de Daenerys pode, sim, tornar-se maior do que esses problemas, os minimizando, mas é inegável que o problema existiu.
Outra questão de difícil compreensão é porque o gelo estava frágil assim que eles começaram a percorrer o lago – quando deveria estar intacto há tempos – e congelou-se tão fortemente apenas de um dia para o outro permitindo o avançar das criaturas… Será a força do Inverno trazido pelos WW?
Muitos estão se perguntando porque os WW não atacaram antes e permitiram a aproximação de Dany. Acredito na teoria mais difundida, que eles estariam aguardando a chegada dos dragões, possivelmente via uma visão verde do Rei da Noite, desejando incorporá-los a seu exército.
No reddit, inclusive, foi compartilhada a imagem que sugere que os WW teriam três lanças para abater três dragões.

Toda a cena dos zumbis de gelo alcançando a ilha foi bem conduzida e tensa. Imaginei, novamente, uma cena de um jogo de vídeo game, mas agora de forma positiva. Mas ‘nossos heróis’ poderiam ter destruído a camada de gelo em volta da ilha para impedir a aproximação dos zumbis até a chegada de Dany, correto? Eles presenciaram o fato que os zumbis se afogavam e não sobreviviam na água.
Vale notar que o Esquadrão Suicida já estava usando armas de vidro de dragão, recém forjadas em Pedra do Dragão, como vimos na cena em que Jorah usa uma adaga contra um zumbi.
Se há um personagem que gosto é Tormund. Mas seria marcante, seria dolorido, seria Game of Thrones vê-lo sucumbir aos wights, implorando por socorro. O momento em que ele é agarrado pelos zumbis foi um dos mais tensos do episódio, mas a partir do momento que ele consegue sobreviver no ‘último minuto’ tal como fizeram com Jaime em Spoils of the War, o público perde o senso de perigo e, de repente, estamos certos que todos sobreviverão por mais perigosa que seja a situação em que se envolvam ali.
Por isso, quando tudo parecia perdido, sabíamos que Daenerys chegaria triunfante em seu novo look de inverno deslumbrante. É realmente emocionante a cena em que os dragões iniciam sua destruição, fogo x gelo, e tenho certeza que a chegada de Dany catalisou fortes emoções no público.
O honrado Jon Stark Targaryen escolhe lutar para afastar as criaturas e permitir que os companheiros possam montar em Drogon. Mas depois que todos já estavam no dragão, Jon permaneceu lutando, por que? Um tempo perdido que o impediu de juntar-se a Daenerys e permitiu que o Rei da Noite atingisse um dos dragões que causava enorme estrago em seu exército, Viserion. A melhor e mais triste cena do episódio, refletida no grito de Drogon… Game of Thrones sempre evidenciou que para cada ação há uma consequência e o resultado desse plano estúpido foi a morte de um dos dragões de Dany.
Antes que o Rei da Noite pudesse atingir outro dragão, Dany parte deixando seu honrado sobrinho para trás, tal como ele pediu. E, novamente, quando tudo parecia perdido para Jon, surge o Deus Ex Machina, Benjen Stark, para salvá-lo. Se sua tia Targaryen não conseguiu salvá-lo, seu tio Stark completa a tarefa com sucesso.
Deus Ex Machina: “O termo refere-se ao surgimento de uma personagem, um artefato ou um evento inesperado, artificial ou improvável, introduzido repentinamente numa trama ficcional com o objetivo de resolver uma situação ou desemaranhar um enredo” (Wikipedia)
Um triste fim para o único personagem o qual Jon sabia seu real parentesco. Irmão de Lyanna, mãe de Jon, ‘uncle Benjen’ foi quem salvou Bran na temporada passada e, agora, dá sua ‘semi-vida’ por Jon.
Vi muitas críticas à atuação de Emilia Clarke diante da morte de seu filho dragão. Na hora a personagem ficou atônita, paralisada, mas senti o pesar em seu olhar junto ao desespero de sair dali antes que seus outros filhos também perecessem. Acredito que o que faltou foi um momento posterior em que pudéssemos vê-la sofrendo com a esperada intensidade de quem perde um filho. Ah, como fazem falta mais três episódios na série!
ALIANÇA POLÍTICA E EMOCIONAL DE JON E DANY
Eu não faço coro às vozes que reclamam do nítido envolvimento de Jon e Daenerys. Inclusive tenho total convicção que os livros de GRRM chegarão – por caminhos diferentes e mais consolidados – ao relacionamento entre os dois. Há anos os leitores criam teorias sobre o envolvimento dos personagens e isso acontecer não me soa fan service.
Gostei da emoção da Khlaeesi ao presenciar a chegada de Jon à Muralha bem como da cena deles no barco. Senti-me completamente envolvida pela química dos personagens e a achei verossímil comparada a tantos outros problemas que citei ao longo do texto. Os dois se apaixonaram e isso também faz parte da realidade que a história de GRRM quer retratar. Se em seu primeiro encontro as diferenças os afastavam, agora houve tempo e experiências suficientes para que eles enxergassem um no outro, algumas das qualidades que mais admiram. Dany viu as cicatrizes de Jon, confiou nele e pôde compreender a realidade do perigo o qual ele alertava. Jon penalizado pelas consequências de sua missão, mas eternamente grato pela confiança que Dany depositou em seu chamado, compreende que é hora de se ajoelhar a sua Rainha ‘Dany’.
Daenerys que sempre gritou que era a Rainha por direito, pela primeira vez diz que ‘Espera merecer’ a confiança de ser chamada de Rainha por Jon.
É evidente que nessa Canção de Gelo e Fogo é apenas uma questão de tempo os dois se entregarem um ao outro. O incesto tão tradicional na linhagem Targaryen está prestes a acontecer novamente… O pior é que torcemos por isso!
O diretor, Alan Taylor, comentou que GRRM já havia lhes falado que Jon e Dany eram o ponto central da história. Muito se comenta que a narrativa de GRRM foge à história do herói clássico, o que acredito ser parcialmente verdade. Jon e Daenerys são os personagens mais próximos dessa denominação e o grande diferencial da saga é que acompanhamos o crescimento deles desde o momento em que eles representam muito pouco dentro de uma grande história em que outros personagens parecem os mais próximos de heróis (Ned, Robb).
DRAGÃO DE GELO
A cena final do episódio mostra o Rei da Noite transformando Viserion em um de seus soldados. O dragão Targaryen morre e renasce de olhos azuis, o acontecimento mais surpreendente e corajoso de todo o episódio que impacta enormemente a Guerra que está por vir. Interessantemente vemos o Rei da Noite tocá-lo para reanimá-lo… Sabemos que os WW não precisam tocar os mortos que sucumbem além da Muralha para revivê-los e que era seu toque nos bebês de Craster que os transformavam em WW. Será Viserion um wight destrutível por fogo (sua grande arma em vida) ou uma espécie de Dragão White Walker que só sucumbirá diante de aço valiriano ou vidro de dragão?
Não me questionem de onde surgiram as correntes que os wights usaram para erguer o corpo morto de Viserion ou como eles conseguiram prendê-las para içá-lo, uma vez que sucumbiam ao cair na água… O fato é que temos um ‘dragão de gelo’ e aguardamos ansiosamente descobrir se ele cospe fogo ou gelo.

SUSPIROS FINAIS
– Como me dói ouvir Sansa falando sobre a frágil lealdade dos nortenhos que mudam de lado de acordo com as circunstâncias. Na série, o Norte não se lembra tanto assim…
– Quando Tormund diz a Gendry e Jon que no Norte eles “se viram como podem”, temos uma clara referência ao fato de Tormund se vangloriar de ter transado com uma ursa. Nos livros, inclusive, um de seus apelidos é ‘Esposo de ursas’.
– Cão é o dono de algumas das melhores frases no episódio… “Esse aqui já morreu seis vezes e não está reclamando”… A conversa dele e Tormund sobre Brienne é excelente. Como não shippar Tormund e Brienne of fucking Tarth?
– O Cão diz odiar ruivos, mas parece ter esquecido de Sansa por quem nutria enorme carinho.
– A Internet falou e é verdade. O Governo Cersei trouxe enorme melhoria aos sistemas de transporte e comunicação a Westeros!
– Linda Antonsson, uma das co-autoras do livro O Mundo de Gelo e Fogo junto a GRRM, afirmou que a estimativa mais real do tempo que se levaria percorrendo Pedra do Dragão a Atalaialeste do Mar em um dragão seria de…. 28 horas!
– Em 1980, GRRM publicou um conto infantil intitulado ‘Dragão de Gelo’ no qual narra a história de uma criança que interage com um poderoso dragão que ‘cospe gelo’. O autor já negou veementemente que a história se passe no mesmo universo de Westeros, mas vai saber se não é exatamente isso que David e Dan planejam para a série…
– O quão poético seria Drogon destruir Viserion, como Drogo assassinou Viserys?
– Com o dragão-zumbi temos o fim da profecia do ‘dragão tem três cabeças’?
– Melhor meme:














