E enfim, o inverno. Começamos a última temporada de Game Of Thrones sem a resposta para a mais importante de todas as perguntas: quem ocupará o Trono de Ferro, afinal?
Eram anos atrás (17 de Abril de 2011, no nosso tempo) e todos achavam que o verão demoraria ainda algum tempo para acabar. Um menino, afoito, desafiava a gravidade nas muretas de Winterfell, observando de longe – quando a paisagem ainda era verde – a chegada de um rei e de uma rainha. É bem verdade que da rainha ele não gostava muito, mas tinha a sensação de que aquele rei era alguém em quem talvez se pudesse confiar. Era uma tarde como qualquer outra, numa vida infante como qualquer outra, que entre uma ou outra escalada, só poderia ter sinais vindouros pela frente. Esse menino, que se chamava Bran, tinha um pai incrível, uma mãe amorosa, um monte de irmãos para dividir o mundo e nenhuma ideia de que aquela visita do rei mudaria completamente o curso de sua vida.
Não é possível dizer, mas talvez os pensamentos da criança que corre na paisagem gelada de Winterfell quando estão para chegar outro rei e outra rainha, tenham sido muito parecidos com os de Bran. Talvez, enfim, com uma grande diferença: Winterfell não recebe só uma “visita”, ela se prepara para uma guerra. Contudo, os cabelos brancos da mulher, a armadura do homem, o exército marchando em uníssono, os dois dragões gigantescos que atravessavam o céu… O quão fascinante tudo isso não parecia? Depois de anos tentando simplesmente continuar existindo, Winterfell estava prestes a ser a mártir de uma batalha anunciada.
Tudo a respeito dessa première da última temporada da série foi sobre encontrar a outra ponta antes que ela se feche e forme o círculo. Durante os sete anos que nos trouxeram até aqui, ainda que estivesse respeitando a ideia de ser uma saga, um épico, que exige mesmo, inevitavelmente, longos processos que levarão a resultados apenas mais adiante, Game Of Thrones traçou linhas imaginárias que pareciam afastar personagens uns dos outros, quando na verdade só estava fazendo curvas que farias essas pontas se chocarem novamente. Jon e a família, Arya e Gendry, Arya e Clegane, Sansa e Tyrion, Jaime e Bran… Até mesmo a própria ideia de começarmos o primeiro episódio da última temporada com Winterfell de novo recebendo uma “família real” é uma espécie de reencontro com as pontas dessa linha imaginária. Como em todo capítulo final, é hora de resgatar o começo para desenhar o fim.
House of Stark
A volta de Jon para Winterfell é emblemática em muitos aspectos. Quando o episódio Winter is Coming, o primeiro, foi exibido, o que víamos era um Jon rejeitado, preterido, amado quase em segredo por Bran e Arya. Percebam como é incrível quando colocamos em perspectiva as duas situações:
- Quando Robert chegou ele estava no trono sem que tivesse direito a ele. Cersei era sua rainha, mas escondia segredos. Ned saberia, logo adiante, quem realmente tinha direito à coroa. Tyrion tinha muitas reservas com relação ao rei e a rainha; e havia uma relação incestuosa acontecendo sem o conhecimento de todos.
- Quando Dany chega ela se proclama rainha sem ter direito a coroa. Jon é seu “rei”, mas se lhe esconde um segredo. Sam sabe quem realmente tem direito ao trono. Tyrion tem muitas reservas com relação ao rei e a rainha; e há uma relação incestuosa acontecendo sem o conhecimento de todos.
As pontas seguem se encontrando. Na primeira vez temos uma história em torno de Joffrey ser o sucessor, quando na verdade é um bastardo. Agora, temos um bastardo que na verdade é um sucessor. Na primeira vez Catelyn entrava em embate direto com Cersei, a “rainha”. Agora, Sansa, sua filha, entra em atrito velado com Daenerys, a “rainha”. Até mesmo a boa dose de reencontros emocionais vistos da perspectiva de Arya soam um resgate do que era a personagem antes de ser “ninguém”. As narrativas pessoais dela sempre tiveram a ver com quem eram seus amigos, quem eram aqueles que ela devia vingar ou proteger. Faz todo sentido, então, que Gendry e Jon tenham sido seus pontos de apoio nessa estreia.

House of Targaryen
Conexões emocionais são muito importantes em últimas temporadas, algumas séries conduzem seus anos finais se apoiando quase que totalmente nelas. E existe uma problematização sobre Jon e Dany que é relevante sim. Nem é só uma questão de não me soar muito bacana que ela tenha sido uma representação de força feminina dentro da série, para ser destronada no último minuto, por um homem. A preocupação dos roteiristas com isso é visível, já que sempre se esforçaram muito para que Jon fosse tão merecedor quanto ela. O problema desse “romance” é que ele parece lançado na roda com pressa e despreparo. Em um episódio com tantos reencontros emblemáticos, toda aquela sequência de Como Treinar Seu Dragão parecia deslocada dos instintos naturais do show. Que Jon fique abobado diante de Dany é normal, ele já tinha demonstrado isso com Ygritte, é da personalidade dele. Mas, essa faceta “poderíamos ficar aqui até ficarmos velhinhos” não é muito coisa da Mãe dos Dragões. Minha única teoria é de que essa é uma preparação emocional urgente, porque quando ela souber que ele é o rei de direito, o impacto será um pouco maior do que se ele fosse apenas um aliado qualquer.
A projeção da figura de Ned Stark em Sam é muito clara também. Sam tem uma responsabilidade com a verdadeira história por trás de quem deveria estar no trono – do mesmo jeito que Ned – e até mesmo protegendo um filho que não é dele, Sam também está. A questão é que estamos diante de um momento dos acontecimentos em que revisitar toda essa questão dos direitos ao trono só provocaria uma desestabilização generalizada que impediria todos de focarem no objetivo maior, que é derrotar o Rei da Noite. Jon, provavelmente, vai guardar essa informação numa gaveta. A não ser que Dany tente exercer seu papel de rainha em cima de Sansa, por exemplo, já que foi saber da morte do pai e do irmão que fez com que Sam tivesse a coragem derradeira de revelar o segredo ao amigo. Se Jon detectar a ameaça, ele vai confrontar Dany. O que não sabemos é se isso vai ser antes ou depois da grande batalha.

Eu, que sempre preferi entender a dramaturgia da série como uma costura tripla, formada por Jon, Dany e Tyrion, estou apreensivo com o quanto os roteiros parecem propor uma armadilha que separará os três, os dividirá de modo abrupto, rancoroso. Ao mesmo tempo, não posso deixar de pensar em como, mais uma vez, a série flerta com os espelhamentos do passado. Targaryen e Stark, em meio a heranças, promessas, romances, velados por um Lannister, passíveis de desestruturarem mais uma vez, imponderadamente, toda a paz de uma nação. É perigo e excitante, na mesma medida.
Estruturalmente, esse foi um episódio que precisou dar conta de muitas peças, assentando as coisas para que os eventos finais tenham embasamento. Com a divulgação de que o episódio 3 será o episódio da batalha em Winterfell, a promo do segundo faz parecer que teremos em mãos mais 60 minutos de preparos. Até porque, pouco restou para conduzir em King’s Landing, já que precisamos primeiro lidar com a ameaça do norte e depois ver todos partindo para o sul, atrás do trono que ninguém sabe de quem é. Porém, se esse esmero em conectar pontas continuar, teremos uma temporada maravilhosa pela frente. Basta pensar no círculo que se fechou na última cena desse episódio: Jaime jogou Bran da torre no minuto final da première da temporada 1. Jaime e Bran se encontram pela primeira vez, anos depois, no último minuto da première da temporada final. Isso é respeitável, senhores. Respeitável.
Anos e anos se passaram e a jornada que acompanhamos nos trouxe até esse momento histórico da televisão mundial. Game Of Thrones está a cinco estações do fim.
Revoada dos Corvos:
- Muita gente estranhando que Cersei tenha levado Euron para o quarto. Eu não estranho, além de gostar de plateia ela não tem mais aliados.
- Sinto dizer, mas acho que Theon e a irmã não tem muito tempo de vida no show.
- Sem dúvida Emilia Clarke estava num dia ruim quando filmou a cena em que Dany fica sabendo que seu dragão agora é Branco. Ela parecia ter recebido apenas a notícia de que o papel higiênico havia acabado.
- A abertura nova está LINDA e mostra, pela primeira vez, os interiores das casas icônicas da série. Acho que vale a pena terminar olhando mais uma vez para ela.
E antes de ir embora, quero pedir licença para a MARAVILHOSA Steffi e dizer que é um prazer e uma honra assumir seu lugar para essa última temporada da série. Espero poder fazer ao menos 10% do maravilhoso trabalho que ela fez.













