Uma série que sabe construir tensão e suspense na medida certa.
Aos poucos toda série mostra sua identidade, eu não imaginei que a de From Dusk Till Dawn estaria consolidada já no quarto episódio. Um amadurecimento exemplar que embasa tudo o que vimos até agora.
Quando uma série é vendida com vampiros por trás de sua temática, com pôsteres de pessoas usando estacas como cruz, mulheres sexy pingando sangue, você espera sentar na frente da televisão para saborear loucura e ação desenfreada. O caso aqui é completamente diferente, estamos vivendo em um terror psicológico e um suspense ritmado do começo ao fim.
Existe certa parcimônia no texto da série. Você não é levado a nenhum pico emocional sem que a cena já esteja em processo a alguns minutos. É o tipo de série que te faz esperar um pouco mais enquanto o vilão desce as escadas para capturar a mocinha na piscina, mesmo que na vida real as coisas não demorassem mais de alguns segundos, levando em consideração o tamanho do hotel. Eu vejo uma ponte sentimental sendo construída. Mas não se engane, tudo isso é velho, nada é novo e recém-inventado pela série, porém é bem executado e isso é o mínimo que toda série deveria alçar.
Também é necessário manter a mente aberta para aceitar momentos de pura filosofia. A jornada do Richie permanece a mesma desde o começo da série. Fé. Sua ligação com o divino finalmente foi estabilizada. Enquanto estivermos lidando com semideuses, é importante manter na memória que existem regras por trás de todas as ações. Tudo é conduzido por uma força sobrenatural, mas não é isso o que te prende, o que te prende são as relações entre os personagens. A instabilidade do oráculo é algo comum a todas as mitologias, logo, o papel de Richie é o de desestabilizar a normalidade até que todos estejam prontos para aceitar o sobrenatual.
Kate e Richie são os dois lados opostos perfeitos dessa harmonia. O divino é sempre composto por duas naturezas, a maléfica e a santa. Richie não é a parte sacra, mas não são sós os justos que possuem fé, esse aspecto é inerente do ser humano. Você pode crer em uma divindade benévola, ou na mesma medida, crer em uma entidade má. A fé continua lá. Em toda batalha é preciso que exista a balança, apesar de não ter visões Kate representa exatamente isso para Richie. Não é a toa que a vemos na igreja sorrido face a imagem de perfeita harmonia dos pais.
Tudo isso fez com que a interação entre esses dois personagens fosse muito mais interessante do que todo o resto. Assim como o medo. No momento em que Richie vê Kate boiando na piscina com sangue ao redor dela, você não imagina que aquilo é uma simbolização da dor da menina, mas sim da perversidade do homem. Da mesma forma que Kate pedir um cigarro, não transparece rebeldia na garota, apenas medo, um complemento a explicação que o próprio Richie deu, amarrando bem os dois. Ela está confusa, ele já não está mais e ambos compreendem o caos em que se encontram.
“Em algum momento alguém vai irritá-lo muito e as coisas vão ficar feias. Você quer que essa pessoa seja o Seth?”
Na verdade, essa fala justificou toda a presença da noiva do Seth, que já partiu para o xadrez. Ou seja, a série teve aquela preocupação em dar uma conclusão ao que tinha ocorrido no episódio passado.
O problema para mim com o episódio foi na cena em que vimos os dois policiais, Gonzales e Eral em uma investigação. Um pequeno deslize, em minha opinião, mas só por que eu fiquei tão imerso no suspense que a série estava construindo, que esse flashback em particular acabou me tirando dos trilhos, por um breve minuto. Entendo perfeitamente que esse era o motivo exato dessa dispersão, como todo bom suspense tudo foi executado pensando na próxima cena e até mesmo a interação dos dois acabou fluindo para a construção de outro momento tenso, em menor escala por se tratar de um flashback, mas igualmente instigador.
Nosso Texas ranger tem uma alma bondosa demais para sobreviver aos males do mundo. Essa é a função do flashback, dar sustentáculo a uma cena futura em que tudo será respondido. Uma pausa para respirar para nós telespectadores, se bem que eu conseguiria prender a respiração por mais um tempo, sem ter a necessidade dessa “memória justificativa”. Agora as coisas devem melhorar para o Gonzalez, se antes ninguém acreditava que os suspeitos que ele perseguia eram de fato ligados aos assassinatos, com o corpo da Gordita no hotel não tem mais como negar. E tudo se resolve no momento mais justificável, a tensão deverá aumentar exponencialmente, já que agora o policial tem o apoio do regimento ao passo que os irmãos Gecko deverão lidar com um veículo mais lento e espaçoso, e uma família de reféns. A tensão precisa ser mantida a qualquer custo.
Uma pena que o Scott Bruce Lee não é um bom ator e não consegue competir sentimentalmente com um personagem conflituoso como o Richie. O bom seria que todo o elenco pudesse dar suporte a seus momentos de esquisitice e loucura. Logo, Scott assume a função de peso morto da família e deve continuar avulso, com uma interação ou outra só para não nos esquecermos de que ele está lá. Quero pensar nele como um cordeiro do sacrifício, antecipar que o personagem pode não durar muito tempo acaba me deixando mais tranquilo para a inexperiência desse ator tão mais ou menos.
E uma grande vaia para o momento camuflagem do Richie. Simples assim, se você cruzar com algum desafeto seu na rua, finge um desmaio na parede mais próxima. Viu um credor? Finge desmaio na parede mais próxima. Aparentemente na série isso te dá o perfeito esconderijo contra policiais desavisados. Outra grande vaia para o tiro no policial que foi o suficiente para fazê-lo dar um duplo twist carpado da escada, desprezando completamente todas as leis da física. Mas tem coisas que nós perdoamos, e eu posso tranquilamente fazer isso com esses dois momentos isolados, no final do dia é uma série com a assinatura do Robert Rodriguez e não um documentário do Al Gore.
Tirando isso, Let’s Get Ramblin foi um episódio maravilhoso. E digo mais, sem a participação do espírito maníaco as coisas continuariam ótimas. O fantasma serviu mais como uma forma de encaixar as coisas, deixar tudo mais cômodo e justificar as ações do personagem. Caso contrário, precisaríamos de mais no roteiro. Logo, a série pode fazer isso, pode trabalhar dessa forma, mas seria melhor não abusar. A tensão de te fazer prender a respiração não precisa desses artifícios, é só se lembrar da cena com o Seth e o policial no telhado do hotel, duas armas descarregadas deram um clima mais pesado do que o fantasma camarada.















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