99.9999%.

Spoilers Abaixo:

Até parece mentira, mas não é. Chegamos aos momentos derradeiros de Fringe, com um episódio que traz um misto de esperança e amargura. Não é só porque a série está acabando, mas pela trama em si. Em seu penúltimo episódio, Fringe resolveu jogar com os fãs. Quem prestou atenção percebeu que as probabilidades, de fato, não são nem um pouco animadoras quando o assunto é a sobrevivência do trio principal.

Essa semana vem cheia de respostas, lacunas preenchidas e falta muito pouco para podermos enxergar o todo e dizer que foi um fechamento perfeito. Assim como no final da 3ª temporada, a série aposta em três episódios cheios de ação, emoção e conteúdo para encerrar a história, dessa vez, para não mais voltar. Eu quase não contenho as lágrimas ao escrever isso, porque não gosto de encarar o fato de que depois do dia 18 de janeiro eu nunca mais serei surpreendida por Fringe novamente, mas não adianta reclamar. Depois de tanta insegurança a série terá um desfecho apropriado e parece injusto choramingar por uma produção que, seja como for, teve a chance de cumprir sua missão.

Depois desse episódio tão bom, e que introduz muito bem os ganchos para a Series Finale dupla, fica até fácil dizer que Fringe não nos deixará insatisfeitos. É como naquela conversa de Windmark com seu superior, em 2609. Pensar num final ruim é improvável e insignificante, porque existe 99.9999% de chances de sucesso. Mas se esse episódio ensina alguma coisa é a não subestimar probabilidades e aproveito para fazer uma metáfora sobre a ínfima possibilidade de 0.0001%, em que enfrentaremos uma anomalia na Finale. Dá para notar que mandei o controle das expectativas às favas e sei que a maioria dos fãs já fez o mesmo, mas estou tentando não enlouquecer completamente.

É claro que o roteiro precisava separar um tempinho para reencontrarmos Donald, a quem chamarei apenas de September daqui em diante, simplesmente porque não consigo olhar para ele e usar outro nome. O modo como Walter guia todos até ele é feito especialmente para os saudosistas. Não dava para encerrarem a série sem usarem aquele tanque pelo menos mais uma vez, sempre aproveitando para fazer piadas pontuais sobre a nudez de Walter e a liberdade que ele sente quando está dopado e mergulhado numa fortíssima solução salina.

O momento em que September abre a porta e vê Walter, Peter, Olivia e Michael é, provavelmente, um dos mais bonitos de toda a série. Dá para sentir que existe um laço entre essas pessoas e que elas vão fazer tudo para salvar a humanidade.

Rapidamente entramos numa série de explicações sobre o surgimento dos Observadores e a origem de Michael. É preciso rever a sequência para não perder nada, muito embora a texto e imagens tenham sido casados perfeitamente para sanar quaisquer perguntas. O que não foi respondido de forma direta, pode ser compreendido por meio da lógica. Acho que o principal é sabermos que não foi Walter (ou William Bell) o responsável pela criação dos Observadores.

Muita gente apostava nisso, inclusive porque, em Fringe, toda e qualquer bizarrice foi causada ou tinha alguma ligação com esses dois nomes. De qualquer forma foi bacana saber que a culpa desse mal maior é de um cientista norueguês, que inventou essa história de sacrificar emoções para aumentar a inteligência dos seres humanos. Nessa equação ele só esqueceu que tanta inteligência tornou esses seres arrogantes a ponto de destruir o planeta em que vivem. Para os Observadores não há problema algum nisso, porque afinal, qualquer viagem no tempo pode resolver o impasse. Tecnicamente.

Foi bom ver a narração de September entremeada pelas descobertas de Windmark e sua obsessão em destruir “as pessoas em posso da anomalia”. Windmark é o único dos Observadores a compreender o que pode acontecer de modo mais amplo, mas ainda assim, não totalmente claro. Algumas emoções tomam conta dele, despertando raiva e o desejo de ver as pessoas mortas. Aliás, a influência da música nas emoções foi muito bem pontuada e vale lembrar de uma das afirmações de Windmark, sobre como ele não entende o apreço dos humanos normais por música.

Não sei se pretendem voltar nisso, inclusive por questões de tempo, mas vale notar que um dos oficiais que sempre anda com Windmark, batia o pé ao som daquela canção. Seria um sinal de mudança? De que os Observadores, afinal, não são isentos de emoções e estariam evoluindo e desenvolvendo esse lado por sua constante convivência com aqueles que eles julgam inferiores? Tudo isso fica para a gente pensar, muito embora a existência de Michael confirme as suspeitas.

Visto como anomalia, ele representa, em verdade, uma evolução. Uma criatura que tem emoções, sensibilidade e inteligência incríveis, o que faz dele um alvo. É aqui que fico duvidando do plano elaborado por Walter e September. Michael tem mais chances de ser morto por ser diferente e representar uma ameaça a interesses maiores do que de se tornar um meio de salvação, ao trazer a consciência de que não é preciso sacrificar emoção para aumentar a inteligência. Obviamente, digo isso do alto da minha ignorância, porque sendo Michael tão especial quanto é, ele deve saber exatamente o que fazer para reverter a situação atual com o mínimo de danos.

Mais uma vez, é preciso voltar ao diálogo entre os chefões Observadores, que denotam a tal arrogância que comentei alguns parágrafos acima. Chamar a Fringe Division de insignificante é coisa de quem não assiste essa série. Faz tempo que não consigo mais aturar novas produções de ficção científica porque nada é complexo o suficiente e digo que “isso não passa de um Fringe Event. Em Fringe eles resolveriam essa série inteira em apenas um episódio”. Pois é. Se os Observadores assistissem Fringe (e eles poderiam, porque deve estar passando em algum universo paralelo, com certeza) saberiam que se existe mesmo 0.0001% desse pessoal vencer, essa já é uma probabilidade bem larga.

Chega a ser engraçado ver que a falta de emoções e a falta de compreensão do impacto que as emoções têm nas ações dos humanos é o vai acabar com os Observadores. Eles não enxergam onde está perigo e o que seria seu maior trunfo acaba se transformando em seu defeito primário. Percebam que eles eram incapazes de compreender porque September, um cientista, iria querer salvar aquela anomalia genética. Acontece que September é uma espécie de Walter.

Um cientista capaz de tudo, inclusive mexer na linha temporal, para salvar o próprio filho. A história se repete e Walter (e não excluo Walternativo dessa) é o exemplo de pai que fez September ameaçar seus iguais. Lembro de quando ele disse para Peter: “Deve ser difícil ser um pai”. Agora ele está descobrindo por si mesmo o que é ter de arriscar um amor incondicional desses em nome de algo maior. Sou fã absoluta do modo como os roteiristas exploram o assunto da família, uma vez após a outra, sem deixar que tudo se torne apenas uma repetição sem graça.

É essa vontade de ter a família de volta que atinge Olivia em cheio, quando ela ouve sobre o plano. Acho que apenas Peter, em seu olhar tristonho, conseguiu entender o que resetar a timeline significa. E resetar a timeline para uma realidade onde os Observadores nunca existiram e, portanto, nunca invadiram, não significa ter Etta de volta. Absolutamente. Basta pensar um pouquinho no assunto.


September foi punido (ou agraciado coma retirada do aparelhinho) por interferir, repetidas vezes, na timeline (ou nas timelines de diferentes universos, como vimos). Se os Observadores não existirem, September some das variáveis, nos deixando com Peter do lado A morto (como já vimos diversas vezes) e o Peter do lado B vivo (provavelmente), mas por ter sido salvo por Walternativo. Lembrem que ele não encontrou a cura por causa da interferência de September no laboratório.

Com tudo isso em perspectiva não teríamos Peter e Olivia e portanto, nada de Etta. Não descarto a possibilidade Bolivia e Henry, no entanto, apesar de as chances disso acontecer diminuírem drasticamente, porque o sumiço de September mudaria absolutamente tudo o que vimos até aqui. Inclusive, Michael não existiria.

É por isso que tenho minhas dúvidas sobre a verdadeira resolução que será apresentada na Series Finale. Parece tudo muito cruel e difícil de digerir, lembrando que Walter deve se sacrificar no processo. Não digo que esse final não seja absolutamente coerente, mas nenhum de nós quer ver tudo destruído ao levado à estaca zero. Ninguém quer que esses cinco anos de histórias e de envolvimento com os personagens seja resetado, como se nada houvesse acontecido de verdade.

É com esse dilema que os roteiristas nos deixam. E está difícil encarar a possibilidade de um episódio bastante trágico. Não dá para prever o que vai acontecer de fato. Prefiro não prever e ficar boquiaberta na semana que vem, não importa por qual motivo. Sabemos apenas que Michael deve ter papel fundamental no processo, afinal, ele não saiu daquele trem à toa. Há quem pense que ele foi apenas uma criança burra, mas parece improvável. Fico com a ideia de que Michael sabia que deveria se entregar para salvar Peter, Olivia e Walter de serem capturados. Além do mais, September é certeiro ao dizer “nós nos veremos novamente”. Talvez ele saiba algo além, talvez um destino mostrado por Michael ou um plano que apenas os dois conhecem de verdade.

Gostei de ver a referência a “Cantando na chuva” e a esse passado do qual Walter não consegue lembrar com clareza. Não dá para saber ainda porque Michael lhe trouxe certas memórias e omitiu outras, mas a dica pode estar justamente no amor incondicional entre pai e filho. Os sentimentos de Walter e Peter nunca foram tão expostos como nesse episódio. Cena de marejar os olhos, mas de alegria. A conversa dos dois foi absolutamente linda e já um dos meus diálogos favoritos de toda a série.

O Glyph Code da semana é GRACE, que significa Graça. A palavra está diretamente ligada a Michael, já que ele seria o que se chama de ‘saving grace’ ou aquele que irá salvar toda a situação.

Não posso deixar de lado a tulipa branca que, para mim, é o símbolo maior de Fringe. A simples menção dela me faz lembrar desse que é um dos meus episódios preferidos e toda a carga emocional que ele trouxe. Imagino que aquela tulipa irá ter algum significado no encerramento da série, sendo mais do que redenção ou esperança, mas a certeza de que vivemos com Fringe, uma experiência inesquecível.

P.S*Queria ter visto muito mais de Astrid nessa temporada. Pequena reclamação que precisava registrar.

P.S*Muita gente anda dizendo que não faz sentido September dizer para Walter, em 1985, que “O garoto deve viver. Ele deve viver”, mas vejam só: De acordo com Inner Child, Michael estava escondido no subsolo desde a década de 1939, ou seja, em pensamento linear, a coisa se encaixa. Apesar disso, não acredito que esse andamento para o caso estava pensado desde a primeira temporada. De jeito nenhum. Pra mim, a equipe pegou o que intrigava os fãs e costurou a trama. Essa capacidade é absolutamente louvável, porque se tivessem deixado em aberto, teria um monte de gente reclamando que nunca voltaram nesse assunto.

P.S*Minha ideia sobre a não existência de Observadores do sexo feminino: mulheres foram descartadas para evitar reprodução não controlada. Aposto que usam óvulos feitos em laboratório para conseguir desenvolver a raça daquele jeito, maturando-os em tubos. Adorei poder ver o processo todo na tela, com efeitos sempre excelentes e que nenhuma outra série consegue apresentar atualmente.

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