O passado não se chama assim por coincidência.

Algumas vezes as palavras nascem de uma necessidade simples de fonética explicativa. Elas têm a escrita que o som determina, tem a forma literal de existência e um sentido único e aprisionado. Com algumas palavras não há como perder tempo traçando origens radicais ou analisando se são primitivas ou derivadas. Algumas palavras são apenas termologia, já algumas outras palavras, são uma ironia com a própria criação.

Quando usamos a palavra “passado” precisamos de contexto. É ele que nos dirá se a palavra se refere ao que está novo, refeito, reorganizado, ou se ela se refere simplesmente ao que já passou. Percebam que mesmo assim esses sentidos se esbarram. Mesmo um assunto “passado e repassado”, alcançou alguma espécie de nova perspectiva, o que implica em uma velha, passada. Mesmo uma roupa passada, se chama assim porque deixou de ser uma coisa para ser outra. O “passado” é alguma coisa que não está mais aqui, e que principalmente, “passou” a ser uma coisa nova.

Por isso não devemos dar muita atenção a ele. O melhor – como dizem todos os pensadores mais respeitados, e como diz a sabedoria dos bêbados – é focar no que o passado deixou de ser. E isso que o passado deixou de ser é o que chamamos de “presente”: uma nova oportunidade de viver de modo diferente, o que já vivemos antes. Porém, sem olhar para trás.

Essa não é uma lição que Veronica estivesse disposta a aprender. É claro que em alguns casos a volta ao passado ajuda a explicar o presente, e a obsessão com o que já acabou, por mais nociva que seja, pode ser realmente necessária. Veronica ainda não sabe, mas toda essa busca pelos anos de outrora, será a grande responsável por muitas de suas mazelas pessoais futuras. Fuçar na história da mãe trará à tona coisas terríveis, que sim, ajudarão a esclarecer a morte de Lilly, mas também trarão informações e perspectivas desnecessárias, que só servirão para machucar e atingir.

A metáfora para tudo isso se dividiu entre a vizinha problemática vivida pela agora famosa Jessica Chastain, e o anuário da escola, onde Veronica descobre mais detalhes interessantes sobre sua mãe e o pai de seu antigo namorado. Em ambos os casos, um segredo atormenta as mulheres, com a diferença de que do segredo da vizinha, Veronica era mais capaz de correr atrás. O que ela faz, com direito a mais invasões, manipulação e intimidação (que vem com uma ajudinha de Weevil).

O roteiro apelou para o episódio recapitulado, dando a entender que essa era uma trama de final chocante. Não entregou nada tão chocante assim, reafirmando a prática de, em algumas semanas, focar mais nos sentimentos de Veronica perante suas recentes descobertas. Ainda que o caso de Sarah tivesse camadas que realmente atingissem uma menina como ela, Veronica reverbera tudo internamente, se perguntando constantemente porque as pessoas de seu passado, tomam certas atitudes horríveis para com ela, em silêncio. Ela não sabe porque a mãe a abandonou, porque Lilly não se abria totalmente, porque Duncan a desprezava… De alguma forma, o passado de Veronica se constitui de um silêncio devastador, que torna o presente dela impossível de ser vivido em plenitude.

No meio disso tudo, o plot entre Weevil e Logan pareceu um pouco deslocado. A intenção é a de desenvolver melhor a ambiguidade do caráter de Logan, o que faz com que a história ganhe uma perspectiva válida. Weevil serve como o contraponto crítico-social. A corda arrebenta do lado mais fraco, mas isso não significa que o lado forte esteja sempre se lixando para as consequências de seus atos.

Lilly aparece em flashbacks… Para um episódio que explora os efeitos do passado, nada mais adequado. E ela aparece como sempre: debochada, cínica, indiferente. O contraponto perfeito para uma Veronica insegura. Forma-se a analogia maior e mais sagaz: o passado de Veronica é turbulento, mas sem ele, que espécie de pessoa ela seria? Lilly (que também tem seu nome tatuado no corpo de Weevil) foi o marco-zero de uma era que precisava ser superada, ao passo em que com as transformações que trouxe, buscava nossas formas de recuperação.

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