Outlaws não é tanto sobre foras da lei quanto sobre culpa. Sobre dois homens que trouxeram fim à vida de outros humanos e que têm de lidar com isso. Duas faces, uma única moeda. Sawyer encontra a redenção através da sua sede de vingança e Charlie encontra paz através da reflexão. E eu encontro uma fantasia pessoal: não poderiam ter sido 16 episódios de Kate e Sawyer?
É a segunda vez que uma singela caça a javalis nos presenteia com um episódio maravilhoso – Walkabout foi o primeiro –. Algo sobre esses animais faz com que um relâmpago de inspiração caía sobre os roteiristas da série – talvez pela sua aparência selvagem, que possibilita o despertar da selvageria dos próprios sobreviventes –, ainda que alguns pontos que compartilham, como a obsessão, sejam demasiado parecidos.
O que os distingue é que Locke fazia para provar que era capaz, por superação, enquanto Sawyer o faz porque o seu instinto predominante é o de vingança. E quanto às pequenas incongruências, como Sawyer não dormindo com uma arma debaixo do travesseiro e tendo atirado logo no javali, podemos olhar para o outro lado. Não que eu queira que Sawyer seja hábil em toda as áreas de perícia possíveis – inclusive fiquei alegre por ele não saber como caçar –, mas no que interessa à narrativa, foi escorregadiço.
Sawyer vive a sua vida adulta com mágoa, perturbado pela lembrança da noite em que deixou de ser criança. Enquanto Michael tenta congelar no tempo a infância do filho, Sawyer tentaria retornar à sua, se pudesse. Sawyer ouve os murmúrios desconhecidos na floresta, assim como Sayid depois de fugir de Rousseau. Inicialmente, pensei que fossem os Outros, mas agora suspeito que seja a floresta conversando com os sobreviventes através dos seus pecados. Rousseau ouve os seus colegas, que matou, Sayid ouve as suas vítimas e Sawyer ouve o homem inocente cuja vida se esvaiu nas suas mãos. E por mais semelhanças que Sawyer tenha com os outros sobreviventes, ele sempre será um desajustado. A não ser com Kate.
Sawyer é como um poço de desejos. Toda vez que Lost atira uma moeda para dentro do poço, ele devolve alguma coisa. Nesse episódio, o poço retribuiu com alguns flashbacks do passado de Sawyer e não perdeu a chance de liga-la ao desconforto que Charlie está sentindo após ter matado Ethan. O momento em que Sawyer e Kate jogam ‘eu nunca’ é mais memorável do que, essencialmente, todas as cenas da personagem com Jack.
Me pergunto por que razão terá Sawyer escondido de Jack a verdade sobre o seu pai. Sobre o quanto ele o amava e estava grato. Será que Sawyer só queria privar Jack da sua merecida paz e vê-lo prosseguir se torturando? É quase certo. Gostaria que Sawyer tivesse um motivo mais altruísta, para ser franco.
Seja como for, já que Lost decidiu transformar os sobreviventes em predestinados, nada me faz mais satisfeito do que ver que a série faz isso bem. Sawyer e Jack são irmãos. Unidos não pelo sangue, mas pelo fardo do pai. Jack conseguiu fugir do manto paternal e do raio de destruição que o acompanha, mas Sawyer aceitou o pior que a influência do seu companheiro de bebida tinha para oferecer. Sawyer encontrou um pai num barzinho carrancudo na Austrália. Por alguns minutos, como é evidente, porém o suficiente para quem nunca teve um.
O arco de vingança e redenção de Sawyer está se desenvolvendo de forma estupenda. O assassínio da pessoa errada, as últimas palavras que ecoam na sua cabeça, a reencarnação da sua vítima e da sua humanidade no javali… formidável, tudo. Acredito que Outlaws seja, depois de Walkabout, o meu episódio predileto da temporada até aqui. Que venham muitos mais javalis!
Enquanto isso, no indecifrável epílogo da mente…
(?): Por que Hurley é tão amado? Com o papo de Ethan se transformar num zumbi, tivemos apenas mais uma piada do personagem que no papel parece funcionar, mas na tela não.
(.): Se Kate acredita que só beijou Sawyer porque tortura-lo não funcionou, então ela está mentindo para si mesma. Ou mais alguém acredita que ela não sentiu prazer em se entregar a Sawyer?
(!): O velho Locke já garantiu o posto de maior contador de histórias da ilha. A parábola do cachorro e sua irmã foi extraordinária.















