
Hey Arnold! é uma das animações que ajudou a definir uma geração e toda a imagem de um canal. Mas de que maneira?
Seria fácil relevar essa série – e assim como toda animação da Pixar é um filme, Hey Arnold! é uma série – como apenas um entretenimento infantil destinado a ocupar tardes em reprises infinitas. E embora cumpra essa função, sucede por ir além disso e ser um entretenimento familiar que se aplica em várias camadas. Não é profundo, estamos falando de um menino com cabeça de bigorna no final das contas, mas possui uma sensibilidade especial: cada vez que você assistir um episódio em uma etapa diferente da sua vida, você irá perceber algo diferente. É isso que torna esse e outros desenhos em coisas especiais, pois não importa se você é uma criança, um adolescente, um adulto ou até mesmo um idoso, a mensagem será sempre nova e o seu significado permanecerá sempre forte.
“Parents Day” é um episódio que exemplifica isso da melhor maneira possível. Nele, ao participar de uma gincana de pais com os seus avôs, Arnold começa a questionar a verdadeira natureza do desaparecimento dos seus pais e perceber que as histórias que sempre ouviu sobre eles talvez não fossem tão verdadeiras. Nada aqui é revolucionário, mas tudo é tratado com seriedade. As piadas são constantes e boas (temos um clássico “Eu tô legal!” do Eugene, a interação sempre divertida da família Pataki e as histórias de Phil, avô do Arnold, cada vez mais absurdas, cada vez mais frágeis), mas o que interessa o criador da série aqui é uma situação sempre relevada por mundos ficcionais. Ter um personagem principal sem pais é uma ótima forma de colocá-lo em aventuras, de passar para crianças uma pequena realidade onde são livres para reinar, tomar sorvete no café da manhã e dormir tarde. Ao mesmo tempo, é uma forma de marcar o personagem durante toda a sua vida – algo com o qual quase ninguém se importa, mas “Parents Day” acerta em cheio*.
*Uma coisa também maravilhosa aqui é como conhece a ignorância dos amigos de Arnold naquela idade: enquanto um tenta ver o lado positivo da situação sem delicadeza, Helga (após seu pai ter o chamado de “Orfãozinho) fica satisfeita com um pedido de desculpas claramente desastroso.
Arnold é grato pelos seus avôs e amigos e tudo que eles fizeram (como mostra a sua pequena interação com Gerald no começo do episódio, onde ele tenta animá-lo sobre a gincana ao lembrar como a família na pensão é incrível). Só que ao ouvir toda noite histórias sobre os seus pais, ele é lembrado da parte da sua vida que não é incrível e que sempre vai estar… Faltando. Quando em um sonho Arnold bebê engatinha pelos corredores procurando seus pais, a ideia não é triste em si. Seu avô está lá! Para pegar ele nos braços, contar uma história de ninar e o colocar naquele maravilhoso quarto que foi objeto de desejo para milhões de crianças no mundo todo, onde dormiu durante toda a sua vida… Durante essa sequência, não é o que Hey Arnold! mostra que quebrou o meu coração, e sim o que ela oculta. Arnold é feliz, ele ama os adultos responsáveis que tem na sua vida. Mas ele não tem os seus pais. E a combinação de começar a perceber as mentiras reconfortantes nas histórias do seu avô e de ver todos os seus amigos entre mães e pais o leva a fazer um pouco de desnecessária auto-reflexão.
Afinal, ele é feliz, não é?
Isso que importa, Arnold sabe disso e gradualmente o episódio faz o personagem perceber a bobagem que está fazendo ao querer desistir da gincana que tanto animou aqueles que ama. Então ele participa na corrida, torce para que a sua avó consiga atravessar o muro, e comemora quando o seu avô vence Bob Pataki – em um lembrete não tão sutil que nem todos os pais são super-heróis, algo que ajuda Arnold a aceitar melhor o desaparecimento e quase certa morte dos seus (o series finale iria colocar isso em dúvida, passo em falso que sinaliza, entre outras coisas, o problemático filme da série em 2002).
Assim, “Parents Day” acaba otimista. Arnold tem pais, ele apenas não tem os seus: aqueles das histórias fantásticas e perfeitas, pessoas das quais mal se lembra. Ele tem o seu avô, a sua avó, fantásticos amigos, e enquanto uma parte dele sempre vai imaginar o que houve com os supostos aventureiros em uma última, nobre jornada – talvez logicamente concluindo que não havia nada de perfeito sobre os dois -, outra parte sempre vai se agarrar de maneira infantil ao que ambos representam e ao avião que não voltou. Esse é um episódio honesto, forte, que é penetrado de leveza por todos os lados para que nunca perca o foco e que possui uma cena final icônica para a televisão. Gosto de pensar que algum garoto em algum lugar não tão diferente do próprio Arnold achou nessa meia hora um conforto, ou que pais e avôs tenham entendido melhor como uma criança se sente nessa situação.
E sabem de uma coisa? Tenho bastante certeza que isso aconteceu.
Em 2010, nós criamos a coluna Flashback para séries canceladas.
Mas como a resposta não correspondeu limitações de tempo, reformulamos esse espaço
para que ele possa abordar, em atualizações irregulares, um número diferenciado de episódios.
Espero que vocês gostem.











