
Parem as máquinas, os roteiristas de Friends lembraram que não é apenas a Rachel que faz aniversário.
Quando Phoebe resolve comemorar seu aniversário numa quinta-feira de Halloween, todos os seus amigos, com exceção de Joey, acabam se atrasando por estarem em diferentes estágios de suas vidas. Enquanto Monica e Chandler brigam por conta de alguns cigarros fumados e pelos métodos não ortodoxos de engravidar de Monica, Rachel e Ross têm que lidar com a difícil missão de deixar a responsabilidade em relação à segurança da filha nas mãos de terceiros por algumas horas. Tudo fica ainda mais divertido na medida em que Phoebe batalha com os garçons para manter a sua mesa de seis pessoas e Joey é obrigado a ignorar a devastadora fome de quem almoçou apenas uma vez no dia.
Com uma trama bem simples e divertida, o episódio tenta repetir a fórmula do sensacional “That One Where No One’s Ready”, um dos melhores episódios da série em que Ross fica cerca de vinte minutos tentando evitar o atraso de seus amigos em um importante jantar do museu onde trabalhava. Apesar de estarmos falando sim de mais um ótimo episódio de Friends, é evidente que ele não conseguiu chegar no mesmo nível alcançado pelo seu antecessor e vários motivos explicam o porquê. Primeiro porque estamos falando agora de um episódio da nona temporada, em que naturalmente os personagens e as histórias já estão desgastadas, principalmente se pensarmos que o objeto de comparação é um episódio da segunda temporada, quando a série se encontrava em plena ascensão. O segundo motivo está na graça da novidade, já que “That One With Phoebe’s Birthday Dinner” é fruto da repetição de uma fórmula consagrada anteriormente e dificilmente iria superar a original, uma vez que a novidade da história não existe mais. O terceiro e último motivo está no fato de que aqui os personagens não se encontram no mesmo ambiente, o que tornou o episódio da segunda temporada bem mais genial, dinâmico e engraçado. Ao isolar os personagens em três núcleos diferentes, fatalmente a série nos faz optar por torcer por um deles, assim, correndo o risco de irritar alguns fãs que assim como Phoebe e Joey acabam se vendo ansiosos pela chegada dos outros.
A trama central do episódio aborda o impacto das muitas mudanças na vida das pessoas na amizade. Enquanto Phoebe e Joey permaneceram estagnados, seus amigos passaram por muitas coisas (casamento, filhos, novas responsabilidades…) e acabaram negligenciando a amizade por estarem muito envolvidos com as questões desta nova realidade. O mais interessante é ver a capacidade da série em abordar o assunto sem trazer um julgamento, principalmente após sua conclusão, em relação às prioridades de cada um. Deixando de descartar o egoísmo e o egocentrismo que cegaram Monica, Chandler, Ross e Rachel, o episódio consegue chegar num ótimo equilíbrio ao sugerir que também faz parte da amizade saber compreender que nem sempre os amigos estão disponíveis. Phoebe é peça central nesta engrenagem já que sempre defendeu os princípios da amizade e acabou escolhendo apostar em seu novo relacionamento com Mike em detrimento aos amigos, que já passaram desta fase há muito tempo.
Na parte cômica, o grande destaque do episódio ficou por conta de Joey, que estava simplesmente hilário com uma fome que só um Tribbiani é capaz de sentir. É impossível não rir com o desesperado dele fazendo de tudo para antecipar os pedidos e se controlando para não bater em mulheres ou em uma daquelas pessoas que se machuca facilmente como um pêssego. É impressionante como o personagem rende bem mais quando não é restrito a piadas fáceis em relação ao seu baixo QI, Joey sempre foi mais do que isto e seus melhores momentos provam esta tese. Para nos fazer gargalhar, ainda tivemos a cena do Parabéns no final do episódio, em que ele completa a canção com o seu nome e confessa felizmente que nunca teve um aniversário tão maravilhoso como este. Vale destacar também a ótima narração de Ross em relação ao o que poderia estar acontecendo com Emma dentro do apartamento. Com a voz do “Christmas Armadillo”, Ross narra a história da pobre águi que ao invadir um apartamento acabou pousando no fogão, pegando fogo e atacando uma linda menininha enquanto tudo se inundava graças a uma torneira aberta.
Plots envolvendo a insegurança dos pais com bebês recém nascidos ou a tentativa de engravidar já são grandes clichês da comedia há muito tempo e acabam evidenciando a escassez de novas ideias na série. Sempre que uma série não sabe mais o que fazer com algum personagem, acaba inserindo um desejo pela paternidade, que sempre rende assunto para pelo menos duas temporadas. Entretanto, mesmo apelando para esta saída fácil, tudo acaba funcionando, graças ao talento do elenco aliado à grande coerência do texto em relação aos personagens. Mesmo sendo tramas batidas e sem novidades, tanto Monica manipulando Chandler de forma calculista como Rachel toda encanada em deixar a filha com a “sogra” bebendo várias taças de vinho acabam funcionando muito bem. Friends é a série que chegou primeiro a todos estes clichês e, assim, conseguiu ainda nos divertir mesmo em suas últimas temporadas.
Por fim, além de ser muito engraçado e divertido, “That One With Phoebe’s Birthday Dinner” acaba conseguindo trabalhar muito bem a relação entre os seis personagens da série, se utilizando de fórmulas consagradas para fazer todos eles renderem bastante. É legal perceber como a série consegue transmitir este olhar maduro adquirido com tantas temporadas sem cair em algo pedante ou piegas. É como se os roteiristas fossem capaz de nos dizer pessoalmente o quanto devemos priorizar os amigos, ao mesmo tempo em que confessa que às vezes isto não é tão fácil assim. Este poder de se comunicar de forma tão honesta faz Friends ser esta comedia tão amada, ao invés de nos apresentar personagens perfeitos, a série nos oferece amigos de verdade, que erram e nem por isso deixam de ser nossos amigos.
PS.: Adoro o momento em que Phoebe fica perplexa ao falar dos seios de deusa grega de Monica. A expressão alcançada por Lisa Kudrow é nada menos do que sensacional.














