
Após nove anos, Friends ainda tem fôlego para entregar bons episódios?
Em geral, comédias veteranas tendem a se apoiar mais no carinho do espectador por seus personagens do que em tramas que de fato acrescentem algo humoristicamente. É um caminho natural, uma vez que após quase 200 episódios é difícil se concentrar criativamente em novas piadas, e tudo acaba soando como mera repetição de coisas vistas anos atrás. E Friends, cuja existência é exatamente para quebrar certos paradigmas do gênero, não poderia deixar de ser uma exceção. Não por ainda ser brilhante em sua nona temporada, já que não é, mas por ainda mostrar episódios como The One with the Sharks, executado perfeitamente em sua principal proposta.
Muito disso se deve ao roteiro de Andrew Reich e Ted Cohen, acostumadíssimos com a série, que divide a trama em três. A primeira, e mais importante (apesar do nome do episódio), é a que envolve Ross clareando a mente de Phoebe ao afirmar que ela nunca tivera um relacionamento duradouro, o que a desespera em um encontro com Mike, deixando o amigo com peso na consciência. Enquanto isso, Monica visita Chandler em Tulsa, e o surpreende aparentemente se masturbando assistindo a um filme de tubarões. Finalmente, Joey vai a um encontro com uma desconhecida, mas tem a sensação de que já dormira com ela por reconhecer seu apartamento.
Diante dessa premissa, é possível notar a formação de uma dupla raramente explorada por Friends, mas que sempre entrega resultados positivos. Trata-se de Ross e Phoebe, cujas personalidades diametralmente opostas ajuda a criar uma curiosa dinâmica que envolve o contraste entra a racionalidade e o romantismo. Aliás, os dois só funcionam tão bem por serem pouco explorados, uma vez que representam o tipo de dupla que facilmente se desgasta nas mãos de showrunners menos talentosos, que se empolgam com o êxito pontual e procuram estendê-lo.
E é exatamente isso que faz The One with the Sharks tão competente. Toda a interação entre Ross e Phoebe cria piadas orgânicas e rápidas, geralmente baseadas na capacidade do primeiro em tomar más decisões quando está desesperado, criando aleatoriamente Vikram, suposto ex-namorado da amiga. Mas a adição de Mike contribui com o sucesso da trama, especialmente pelo fato de Paul Rudd se sentir extremamente confortável no papel, e pelo fato de seus diálogos com Ross serem rápidos e inteligentes. É curioso como os dois personagens são colocados em tela, revelando uma inusitada química entre os atores, que ainda será explorada de forma curiosa posteriormente.
Igualmente competente é o arco que dá nome ao episódio. O curioso é que também envolve um personagem tentando amenizar uma situação constrangedora. E tudo leva ao momento em que Monica finalmente se rende aos “prazeres” de Chandler, provocando no marido uma enorme confusão. As expressões de Matthew Perry praticamente implorando para que alguém explique para ele o que está acontecendo são sublimes. Até mesmo a pequena participação de Rachel na trama funciona muito bem ao criar o clima de desespero e estranheza da situação.
Já a trama de Joey é mais problemática. Não por não ser cômica, já que tem seus momentos, como o primeiro diálogo dele com Hayley, mas por não acrescentar nada em termos de humor, limitando-se a criar mais um cenário em que a falta de inteligência do personagem é importante, bem como sua capacidade de atrair mulheres. É exatamente esse tipo de tendência que séries veteranas costumam mostrar, e, como vimos com os outros personagens, poderia ser evitada através de algo mais elaborado. A discrepância dessas tramas chega a dar a impressão que estamos assistindo a dois episódios completamente distintos.
Aliás, Friends parece não se preocupar mais em criar uma coesão narrativa mais elaborada. É natural quando uma série procura ser mais situacional do que de costume, e de novo o fato de ser veterana contribui com isso. E aqui, dada a eficiência de boa parte das tramas, isso não faz falta, já que o roteiro investe em um ritmo alucinante de piadas, de forma a manter o espectador rindo a cada instante, estabelecendo uma espécie de conexão através disso.
A partir disso é possível afirmar que Friends tem por onde escapar mesmo após nove anos, criando tramas interessantes e muito eficazes em fazer rir. No entanto, mostra alguns vícios de sitcoms envelhecidas. Por isso, não é mais a série brilhante de outrora. Mas ainda é muito competente.














