“Euphoria” foi uma grata surpresa de 2019, nos levando numa viagem ao cotidiano millennial envolvido no vício, nas redes sociais e na violência física e psicológica na qual somos todos submetidos atualmente. Foi uma série que apostou nos extremos, no choque para ganhar seu público, mas que acabou se revelando como uma ode a uma juventude perdida, pega desprevenida no fogo cruzado da modernidade.
Eis que veio o coronavírus e com ele fomos privados da segunda temporada e de descobrir o que aconteceu com Rue, Jules, Nate e tantos outros, após aquele apoteótico final da primeira temporada. Pensando nos fãs, Sam Levinson e a HBO lançaram o primeiro dos dois episódios especiais que servirão de ponte para a segunda temporada (e para matar um pouco a ansiedade por uma nova season).

Não poderiam ter dado um título mais pertinente a esse rápido, mas pesado mergulho de volta na vida desses personagens. Um respiro necessário, mas também um choque de realidade tanto para Rue (Zendaya) como para o público. Tecnicamente despido das fórmulas visuais, dos ângulos de câmera inventivos, das transições de cena agitadas, esse capítulo nos trouxe à crueza de uma conversa franca entre Rue e Ali (Colman Domingo) sobre a recaída em que fomos deixados.
Narrativamente, poderíamos chamar esse episódio de um debate necessário. Mesmo que vítima das circunstâncias, Rue se utiliza do vício como uma justificativa para ser vil e cruel, consigo e com os outros. Ali vem como um contrapeso e mostrar que as coisas não são bem assim. Acaso, desbalanço químico, livre arbítrio, nada é motivo para que ela coloque a culpa em Jules (Hunter Schaeffer), na sua mãe ou em outros. No final das contas tudo é responsabilidade dela e somente dela. E somente ela é capaz de sair do buraco em que se meteu. Claro que para isso ela vai precisar de ajuda, mas o primeiro passo é dado por ela. O contraponto que Ali representa, o da pessoa que sucumbiu e conseguiu vencer, acaba sendo o guia de toda a dinâmica do episódio. Ele mostra que é possível, mas haverão altos e baixos e que é um caminho tortuoso a ser seguido. E que mesmo vencendo, é necessário pagar um preço doloroso por isso (a sequência em que ele fala com a filha e o neto é de uma delicadeza e tristeza únicas).

No meio do processo, temas como polarização política, racismo, globalização, consumismo e manipulação da mídia são colocados em tiradas ora sarcásticas e cheia de apelo, ora com um cinismo repleto de verdade velada. A passagem em que se fala do propósito de vida e do presente divino é uma das mais emocionantes, já que como é possível entender a morte e a perda sem perder a fé? A fé ainda é um caminho válido? Esse episódio seguiu um caminho filosófico que eu não esperava e acabou sendo uma grande (e bem-vinda) sessão de terapia do que algo nos moldes que estávamos esperando.
Pode soar anticlimático ou deslocado, alguns podem até chamar de filler e não estariam errados, já que há uma grande carga de ligação, de passagem entre a trama da season passada e o que virá no futuro, mas não podem negar a beleza e a melancolia que “Trouble Don’t Last Always” apresentou. Dois personagens, uma conversa, 57min de puro domínio técnico e de atuação. “Euphoria” pode não ter retornado completamente, mas ainda continua entregando algo acima da medida e do que pedimos. Apesar dos pesares, os problemas não duram para sempre, para o bem ou para o mal.
Pílula 1: Aquele final tocando Ave Maria… Prenúncio da decisão tomada por Rue de se matar ou o anúncio da redenção?
Pílula 2: O começo estava muito bom pra ser verdade, só podia ser um devaneio mesmo…













