Na língua inglesa existe uma expressão que não faria tanto sentido em português, mas é usada para quando você corta relações definitivamente com alguém ou quando se compromete de maneira irreversível em um caminho ou decisão: “burning bridges”. Agora imagine que Rue está em uma ilha, chamada vício, e saindo dessa ilha há diversas pontes: a família, os amigos, o tratamento… São inúmeras as possibilidades. 

O episódio dessa semana de Euphoria finalmente colocou Rue no fundo do poço (mais uma vez), só que ao invés dela tentar reunir toda a ajuda possível, ela decidiu alegremente jogar gasolina e tocar fogo em cada uma das pontes, enquanto assiste tudo com um sorriso alegre e doentio no rosto. 

Esperava o pior. Pela promo e pelo final do episódio passado pensava que Rue tinha batido as botas de vez. Não seria algo inédito na ficção. A série agora poderia ser sobre como aqueles que ficaram lidariam com a morte da personagem principal. Mas Sam Levinson resolveu mostrar uma face de Rue que só tínhamos vislumbres até agora e nunca vimos em sua totalidade.

Como num daqueles filmes de ficção onde um ser alienígena invade o corpo de um humano incauto, o vício age da mesma forma, transformando alguém na sua pior versão. Em diversos graus, a série sempre fez intervenções com Rue, mas nunca uma propriamente dita. Ao colocar todos os personagens que circulam em volta da garota para confrontá-la, a narrativa deu permissão para que a “verdadeira” Rue entrasse em cena.

E não foi algo fácil de se acompanhar. Nessa temporada, tudo mudou para muito mais do que um visual sombrio, mas também na temática. Como um canivete afiado, Rue vai rasgando a pele de todos aqueles que a amam. Culpabiliza a mãe e a irmã por algo alheio ao controle delas (a morte do pai). E por mais que tenha sido divertido ver a reação de Maddy ao descobrir do caso de Cassie com Nate, aquilo foi uma das jogadas mais baixas para poder escapar, machucando de verdade um grupo de pessoas que sinceramente só queriam o bem dela.

Aliás, esse humor saído de momentos soturnos foi algo que chamou a atenção nesse episódio, com toda aquela perseguição policial que prometia um final sombrio e acabou se tornando uma sequência digna de uma comédia de erros. Mas enquanto Fezco não compra mais os joguinhos emocionais de Rue, Laurie em toda a sua apatia faustiana não só acolhe como justifica as atitudes da garota. A chefona do tráfico é uma das personagens mais surreais criadas pra série, mas é aquela que sempre rende os momentos de maior tensão com seu núcleo, por justamente não conseguirmos enxergar nada além daquela fachada impassível.

Mas repetindo o que já tinha dito no episódio passado, o único caminho possível a partir do fundo do poço é subir. E parece que finalmente Rue conseguiu enxergar a luz no fim do túnel. A grande questão é que talvez seja tarde demais já que a maioria das pontes foram queimadas e aquelas que restam estão com uma estrutura tão frágil que é possível que não aguentem nenhum passo a mais. “O destino tem uma maneira de alcançar aqueles que tentam fugir dele” está escrito na sinopse oficial do episódio. Mas o destino não só já alcançou Rue, como parece ansioso em fazê-la pagar pelos seus erros.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.
euphoria-2x05-stand-still-like-the-hummingbird“O destino tem uma maneira de alcançar aqueles que tentam fugir dele” está escrito na sinopse oficial do episódio. Mas o destino não só já alcançou Rue, como parece ansioso em fazê-la pagar pelos seus erros.