Desde o começo de Euphoria a série vem priorizando o início de seus episódios com o foco na “história de origem” de um de seus personagens adolescentes. Nunca um adulto tinha tomado tal posição, pelo menos até este episódio. O foco em Cal Jacobs, na versão adolescente dele, explica muitas das situações em que o personagem agora se encontra em sua idade adulta. Mas numa forma irônica e cíclica também acabam respingando em Nate, que apesar de tentar a todo custo ser diferente do pai, acaba seguindo o mesmo caminho tortuoso.

É difícil pensar desse modo, mas a nossa relação familiar é uma relação amorosa como qualquer outra. Quando crianças somos paparicados e amados em um nível sem medida de afeto. Mas quando a adolescência chega esse amor começa a se tornar algo mais distante, impessoal. Assim, todo adolescente procura em outros locais esse afeto. É aí que os primeiros amores acontecem, sejam eles românticos ou platônicos.

O jovem Cal não se encaixa nos padrões. Por fora ele é o bonitão cobiçado por todas as garotas,  é a estrela da luta greco-romana da escola, enfim, o ideal heteronormativo da perfeição adolescente. Mas por dentro ele é uma grande panela de pressão lidando contra suas vontades e instintos em troca de manter essa imagem. Ainda que ele construa uma relação saudável com Marsha, é na presença e companhia de Derek que ele é verdadeiramente alguém completo. São nos olhares ao corpo do amigo, nas trocas íntimas de segredos ou no homoerotismo da luta que a relação dos dois se consuma.

Mas as coisas se consumam de fato quando os dois jovens, numa fuga comemorativa do final do período escolar e início da vida adulta, se entregam ao que sempre sentiram um pelo outro ao se beijarem em um bar gay de beira de estrada, como se a vida inteira estivesse contida nos poucos minutos de uma canção do INXS. Mas a realidade bate à porta e a gravidez da namorada, pelo menos naquela época e geração, firmam de uma vez por todas que Cal não poderia viver livremente quem ele é.

É aí que as similaridades entre pai e filho são totalmente expostas. Ambos tem seus segredos, se atraem por padrões que a família e/ou sociedade não aceitam totalmente e se rendem ao modelo vigente pra tentar passar despercebido. Mas enquanto Nate vai errando mais uma vez, ao colocar Cassie num estado de escravidão afetiva e Maddy numa relação de poder totalmente tóxica, no caso de Cal os segredos estão vindo a tona e a imagem de “homem de bem” e “pai de família” fica cada vez mais agarrada a um fiapo de esperança perante um abismo de realidade.

Ja Rue continua em sua jornada destrutiva ao fundo do poço. Ela ainda não chegou lá, mas está se esforçando o máximo pra chegar o mais rápido possível. E por ser viciada, o egocentrismo adolescente se torna ainda mais vil e cruel. Ela ataca Ali no ponto onde mais dói, brinca com os sentimentos da família e de Jules e coloca Elliot num limpo emocional onde ser uma incógnita é uma faca de dois gumes, porque ao mesmo tempo em que o garoto se sente atraído por ela também se sente manipulado (assim como ela manipula a irmã).

A entrada no mundo das drogas, desta vez no papel de traficante, é mais um dos degraus rumo ao caos completo. Não tem como ver nada de bom saindo daí e a promessa de tensão e suspense se mistura ao sentimento de apreensão e angústia. Mas enquanto nós espectadores nos preocupamos, como a personagem bem diz numa quebra de quarta parede que não tinha dado as caras desde o ano anterior, ela não está nem aí, porque sua busca pela esperança nas drogas pra apagar a realidade de um mundo cada vez mais f*dido é mais importante.

Voltando aos efeitos e artifícios usados no ano anterior, já estou mais do que ansioso pra ver Lexi tocando fogo no parquinho escolar com a peça escrita por ela. O destaque da personagem sempre foi algo pedido pelos fãs da série, mas o resultado está se saindo melhor do que a encomenda. Toda a sequência que mostra Lexi sendo a diretora de sua própria vida, com os bastidores da série e da narrativa se misturando ao ponto de serem a mesma coisa foi genial e hilária.

Mas vivendo “no armário” desde sua juventude, Cal agora é obrigado a sair dele à pancadas. Literalmente, graças a Ashtray. Ao perseguir Fezco ele acaba tendo de bater de frente com seus segredos escondidos e acaba por revelá-los ao jovem dando assim a mais uma pessoa o controle sobre sua narrativa. Mas ao contrário de Nate, não acho que Fezco vá usar isso como moeda de troca além do que ela já pediu. Se antes eram os “pecados do pai” que motivaram as mudanças no filho, agora são os “pecados do filho” que motivam o pai a assumir os erros do passado. E a si próprio.

Dose 1: Aaron Jacobs apareceu novamente deixando ainda mais dúvidas, afinal qual o destino do rapaz na série. Universidade? Morto? O mistério continua;

Dose 2: Rue, Jules e Elliot. Triângulo amoroso que chama né?

Dose 3: “Bitch, you better be joking” Maddy proprietária dos melhores quotes. Aliás, a reação dela quando viu Cassie vestida igual a ela foi impagável.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.
euphoria-2x03-ruminations-big-and-little-bullysMas vivendo “no armário” desde sua juventude, Cal agora é obrigado a sair dele à pancadas. Literalmente, graças a Ashtray.