Euphoria” começou apostando no choque. A divulgação e todo o entorno do marketing da série propagavam as cenas pesadas, os gatilhos para pessoas sensíveis, a crueza e veracidade de seus retratos, a nudez e o consumo de drogas. Mas por baixo dessas camadas de apelo gratuito a série ia construindo uma jornada realista que visava em mostrar não só a realidade da juventude dos anos ’10, mas também a luta (nem sempre ganha) contra o vicio e suas consequências. Assim, a escolhida como protagonista foi Rue (Zendaya), mas a cada semana um de seus colegas ia ganhando o holofote e expondo suas problemáticas e seus anseios, construindo assim um panorama geral de toda a situação retratada.

No encerramento da temporada, nada mais óbvio do que dar o foco novamente a Rue. Só que desta vez não acompanhamos a origem do vício (mesmo que ela tenha sido mostrada), mas sim como a garota não consegue se dissociar das consequências do mesmo. Tudo começou com o transtorno bipolar e com a ansiedade, agravada pela doença do pai e pelo fácil acesso a drogas controladas que eram usadas no tratamento do câncer. Quando Jules entra em sua vida como uma bola de demolição derrubando as barreiras construídas pela adição, Rue começa a experimentar tudo aquilo que sempre foi nublado pelos narcóticos. As crises, a convivência real com os amigos e, principalmente, o amor foram trazidos com todas as suas cores e nuances para dentro de seu campo de visão. Só que assim como ficamos desnorteados por uma mudança muito drástica de nosso cotidiano, Rue se perdeu dentro de suas próprias sensações. Restou somente uma pergunta a garota: é melhor estar sóbria e sentir dor ou estar dopada e não sentir nada afinal?

E aqui parabenizo Sam Levinson não só pela criação da série usando suas experiências como norte narrativo da jornada de Rue, mas também por conseguir criar uma tensão excruciante usando basicamente finais felizes. Desde o momento inicial em que Leslie, mãe de Rue, se usa do discurso para exemplificar o exercício mental que sua filha faz por toda a série (e talvez por sua existência como dizem algumas teorias por aí), o sentimento é de uma nauseante sensação de que tudo pode dar ruim na próxima virada de foco de personagem. A festa de formatura foi tão ou mais poderosa na construção dessas expectativas como a feira do episódio quatro. Mas ao contrário do episódio focado em Jules, aqui essas expectativas eram destruídas apresentados caminhos não pensados até então (talvez) pelos espectadores, entregando momentos equivalente a joias narrativas no processo.

O principal deles foi dar foco as mulheres da série. Rue, Jules, Cassie, Lexi, Maddy e Kat tiveram seus momentos de brilhar e com eles mostraram a questão da construção da feminilidade moderna. Tudo se resume a sexo? A sensualidade? As garotas mostraram que as coisas vão por caminhos muito mais complexos, numa jornada que pode não ter sido tão explicita quando algumas cenas, mas que foi explicitada em todos os episódios. Claro que há modos e modos de agir com essas descobertas e cada uma delas seguiu por um caminho definido por suas escolhas dentro desse processo. Aqui Cassie e Maddy se destacam. A primeira por escolher manter seu corpo para si e não usar mais como uma moeda de troca por afeto. A sequência em que ela realiza o aborto e se imagina no rinque de patinação como válvula de escape da situação é de uma beleza e de uma tristeza que poucos shows conseguiram retratar na televisão. A segunda, por sua vez, sabe da relação tóxica que mantem com Nate, mas escolhe por um fim (será que escolheu mesmo) nessa troca estranha de personalidades em prol de manter a sanidade. Só que ela também descobriu o segredo de Cal e agora com provas em mãos (e muito deboche também) ela tem todas as ferramentas necessárias para destruir aquele que não lhe deixou inteira psicologicamente.

Falando em Nate, se antes ainda havia indícios de que o personagem tinha salvação, eles aqui foram destruídos sem a mínima cerimônia. A cena em que ele tem uma crise e se debate no chão pode soar caricata, quase como um crianção dando piti por que não conseguiu o brinquedo que tanto queria. Mas ali, na interação dele com o pai, as camadas de erros construídas na criação e na liberdade que foi dada ao comportamento psicopático do personagem se mostram como a definitiva ruína de suas chances de sair dali com a integridade necessária. Tudo pode acontecer e Nate ter uma jornada de redenção no futuro do show, mas não consigo ver algo de bom saindo do plot do garoto.

Outra quebra de expectativa foi a que construíram em cima de Fezco (Angus Cloud). Acreditava piamente que ele ia partir pra cima de Nate para defender Rue, passando do ponto do aceitável das consequências até. Mas eis que a série coloca o personagem numa jornada própria para se firmar ainda mais dentro da posição de traficante. Tão violenta quanto imaginei, mas um tanto quanto desconexa do contexto geral. O médico que servia de fonte para Mouse (o fornecedor de rosto tatuado) surgiu de modo muito repentino nessa finale e espero que as atitudes tomadas por Fezco sejam o começo de uma linha narrativa mais evidente para o personagem na segunda temporada, onde ele definitivamente merece um episódio para chamar de seu.

Mas a pièce de résistance do show foi o final desse episódio. Rue se vendo numa situação em que a ansiedade já tinha carcomido todas as possibilidades de ter um final feliz com Jules, mergulhando mais uma vez nas drogas. E aqui também mergulhamos numa viagem, não só pela origem do vício da garota (em outra dolorosa e precisa montagem de cenas), mas por um lirismo quase escapista dessa nova visita ao inferno que a personagem fará. Ao dar peso a passagem, mas ao mesmo tempo colocar tudo dentro de uma embalagem de sequência musical, o programa mistura toda a comiseração e desistência com uma leveza e estranheza quase histérica. Um coral de igreja, uma banda marcial, a letra de “All For Us” de Labrinth ganhando novos contornos interpretativos na voz de Zendaya, quase como um hino da destruição da personagem, subindo numa pilha de corpos (de tantos outros como ela) para cair em um espaço de suspensão onde não sabemos se ela sobreviverá ou não dessa vez. É como se tivéssemos adentrado numa zona onde nada pode dar certo, onde a derrota, depressão e vazio são as únicas possibilidades possíveis. Mas que ainda assim apresenta uma beleza incrível.

Euphoria” se desfaz de suas próprias expectativas. A série desponta como uma das melhores produções do ano, uma tour de force repleta de realismo cortante, otimismo velado e entrega total de seus retratados. Não é dos mais fáceis de acompanhar, mas é quase necessário em sua crueza e veracidade com que aborda seus temas. Nem tudo na vida precisa ser retratado por uma lente apaziguadora. Muitas vezes precisamos ter nossas caras esfregadas na lama da modernidade para encarar de vez aquilo que sempre teimamos em ignorar: há dor na beleza e há beleza na dor.

> THE BOYS VAI TE SURPREENDER!

Pílula 1: Até a próxima temporada!

Pílula 2: O nível técnico dessa série é coisa de outro mundo. As composições de cena, montagens, planos, fotografia, tudo é tão bem feito que bate de frente com muito filme de grande orçamento, superando até em alguns momentos.

Pílula 3: A trilha sonora também é outro ponto muito bem trabalhado nessa temporada inicial. Você pode escutar a playlist oficial aqui.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.
euphoria-1x08-and-salt-the-earth-behind-you-season-finale“Euphoria” se desfaz de suas próprias expectativas. A série desponta como uma das melhores produções do ano, uma tour de force repleta de realismo cortante, otimismo velado e entrega total de seus retratados.