O anonimato trazido pela tecnologia (e principalmente pelas redes sociais) talvez seja uma das melhores características da modernidade. Ele deu espaço para que pesquisemos aquilo que temos curiosidade, mas não é visto com bons olhos. Deu espaço para que sejamos fieis a nós mesmos, ainda que muitas vezes seja uma percepção do que nós somos e não a humanidade real por trás de quem controla. Enfim, nos fez abraçar nossos desejos mais profundos sem culpas, medo ou revelia. Mas como toda evolução é uma faca de dois gumes, ficamos expostos também ao ódio gratuito (os famosos trolls), ao engano daqueles que usam essa liberdade para ludibriar deliberadamente o outro e também a exploração, das mais diversas maneiras (físicas e virtuais). Nossa identidade é protegida ao mesmo tempo que é vigorosamente devassada. E o terceiro episódio de “Euphoria” explora de maneira precisa esse tópico, usando a figura de Kat Hernandez (Barbie Ferreira) como norte narrativo.
O show já definiu sua estrutura narrativa, usando a história de Rue como um tecido em que cedo ou tarde todos os personagens irão aparecer ou intersecionar. Assim, vislumbramos o passado de Kat e como a confiança da garota foi minada após o ganho de peso na infância. Aí entramos no campo dos padrões irreais de beleza e como eles são (desde cedo) os definidores do que é ou não socialmente aceito. Para os garotos as coisas são mais tranquilas (ainda que não menos recheadas de pressão), mas para as garotas toda a pressão da indústria da moda, dos padrões cosméticos e corporais de beleza é incutida desde cedo, fazendo com que toda uma geração de mulheres cresça de maneira a lutar diariamente por metas que não são realistas (ou nem mesmo saudáveis, num campo médico).
Kat então busca a aceitação de seus pares de outro modo: se aventurando no mundo das fanfics na internet. As famosas fan fictions são histórias criadas através de outras obras ou contextos já existentes, apresentam uma visão do fã sobre a criação alheia e geralmente envolvem os famosos shipps, a formação de pares e casais. Assim, ela fica ultrafamosa através de suas criações (me recuperando da sessão de risos da história envolvendo Harry Styles e Louis Tomlinson do One Direction até agora), mas na vida real continua sendo uma pária entre seus colegas e criticada pela sua aparência e peso. Foi com o choque de ter uma sextape vazada que ela entrou em contato com sua própria feminilidade e sexualidade. Não é o melhor dos caminhos, mas serviu para que ela finalmente expusesse sua verdadeira persona (ou algo próximo disso). A série já conseguiu nesses três episódios revirar o estômago por cenas de violência e algumas descrições sexuais, mas a cena em que ela embarca na jornada de camgirl foi um misto de riso e nojo que entra para o rol de cenas memoráveis da season (e talvez da série). Tudo ali servia como gatilho para rir ao mesmo tempo em que ativava o mais profundo sentimento de repulsa.
Correndo por fora temos o plot de Jules e Nate/Tyler que começou a ser desenvolvido no episódio passado. Se pelo lado de Jules a relação está caminhando cada vez mais para algo sério, do lado de Nate as coisas começam a ficar ainda mais confusas. Tudo indica para uma armação com intuito de colocar Jules numa situação complicada, o que o encontro marcado no lago faz corroborar, mas se resume a isso mesmo? Será que tudo é uma armação, talvez uma lista de vitimas do pai que agora serão também vitimas do filho ou o rapaz está realmente apaixonado por Jules? A masculinidade tóxica seria uma artificio usado para esconder questões de orientação sexual? A verdade é que Rue viu que há algo de estranho nisso tudo, mas pelo contexto de vida de Jules (os encontros anônimos marcados de pronto) não há nada de perigoso. A tensão nesse núcleo narrativo cresce em ritmo acelerado e não se sabe o que pode acontecer, indo do clichê ao totalmente surpreendente.

Falando na “protagonista”, o plot de Rue pode ser o grande elemento de ligação da série, mas pelo modo que vem sendo trabalhando, está perdendo força. Sei que a questão do vício é algo complicado e cheio de camadas e nuances, mas essas doses homeopáticas sobre a condição da personagem começam a fragmentar sua potência de modo a não nos fazer importar com ela do jeito com que nos importamos com outros habitantes da trama. Numa linguagem irônica, precisamos de uma overdose de Rue e não pequenas doses em conta gotas. Ainda assim, Zendaya vem demonstrando uma atuação realista sobre uma pessoa sob domínio das drogas, principalmente na sequência em que ela usa o sal vício como desculpa e arma para atacar Fezco. Tanto ela como o rapaz entregaram momentos de sinceridade impar ali.
“Euphoria” entrega um episódio que decai um pouco em qualidade em comparação aos anteriores, mas não deixa de tocar em feridas abertas que afetam a sociedade e a juventude atuais. Identidade corporal, anonimato e violência psicológica são alguns dos ingredientes que são acrescentados na já repleta receita que o show está realizado. O resultado não poderia ser mais polêmico ou picante, mas não menos realista e preciso. Agora que Kat adotou e externou seu novo visual é uma questão de até onde ela usará essa nova máscara. Podemos ser fortes e independentes o suficiente, mas sempre estaremos a mercê daqueles que nos cercam. Viver em sociedade é estar em constante julgamento.
> O MULTIVERSO DE DARK! Perguntas e Teorias da 2ª temporada!
Pílula 1: O momento “Game of Thrones”, com direito a dothraki e tudo, foi outro momento galhofa desse episódio;
Pílula 2: Falando em momentos, alardearam a questão dos pênis expostos no segundo episódio… É porque não viram ainda a aula introdutória a dick pic e a galeria do celular do Nate…
Pílula 3: A edição e as transições de cena (principalmente na sequência de Jules e Nate) foram muito bons;
Pílula 4: O pressentimento é de que a história de Cassie e Chris não vai acabar bem…
Pílula 5: O próximo episódio é sobre Jules.














