Eu poderia começar esse texto falando sobre como todas as pessoas, a partir do momento em que se percebem em uma prisão, tentam escapar, mas sei que não é totalmente verdade e não cabe a todos. Tudo é habitado por variáveis. É sufocante a ideia de que nascemos condicionados a certos ambientes e vidas, mas muitos aceitam esse destino e vivem suas vidas se equilibrando no que podem retirar de bom disso. Encontram boas rotinas.
“Ninguém se liberta só com palavras.”
— Dois Irmãos.
Omar, que a maior parte do tempo não parece ter consciência alguma de nada, sabe disso e é inteligente o bastante para notar o meio em que vive. Ele sabe e tira proveito da condição financeira privilegiada, sabe do afeto da mãe e da condescendência dela diante de suas decisões equivocadas. Ao abusar de tudo isso e se entregar a uma vida caótica e sem planos de grandeza, muito diferente de seu irmão, porém, ele precisa aceitar a sua incapacidade de sair daquilo. Sua viagem, entretanto, acaba fazendo-o questionar essa posição reservada em sua casa.
Acredito que o Caçula não foi uma personagem escrita (no romance e na minissérie) para nos cativar. Seus acessos de exagero só servem para que nós consigamos observar o modo como os outros são afetados e como reagem. Ele é um mal necessário para conflitos importantes na história. Em alguns momentos sentimos que, na verdade, a minissérie é sobre um irmão só, por conta do foco que lhe é dado, mas, mesmo quando um dos irmãos toma a tela individualmente, mesmo então, o outro está presente. O nível de irritação provocado por essa personagem tão desprezível pode afetar nossa relação com a minissérie, mas há de analisar de modo frio por que esta personagem é desenhada assim.
Mesmo que em nenhum momento Omar possa nos fazer torcer por seu destino, é interessante notar sua luta para sair das prisões estruturadas a partir de seu relacionamento com a família. O esforço fica evidente nesse quinto episódio, quando, em dois momentos, ele muda sua forma de se comportar e testa novos hábitos, seja nos estudos ou nos negócios — ou business. Por mais que o público não se identifique com a personagem, vê-la em conflito com seu meio e com outras, quando bem trabalho, pode cativá-lo. A nova investida de Omar para ser livre e ter sua própria vida, entretanto, desestabiliza a família e o casamento dos pais de forma devastadora.
Creio que a série vai voltar aos acontecimentos entre Omar e Yaqub em São Paulo, já que pouco foi mostrado, e um pouco bem estranho. Yaqub, assim que vai para São Paulo, é ausente em boa parte da história, então ter uma parte do enredo que se passa com ele, mas desperdiçada é uma pena. As cenas com o Caçula naquele estranho quarto colorido intercaladas com a sala de aula foram estranhas. O roteiro da minissérie tem momentos bons e bem coordenados, mas que são acompanhados por outros preguiçosos. Algumas passagens do narrador também: certas frases deixam de ser poéticas e soam bregas.
Nael, nosso narrador e responsável pelo encadeamento dos fatos, começa a crescer, por mais que a minissérie não se preocupe em demonstrar isso visualmente — o que se repete com o professor/poeta do Liceu, escola onde vai estudar e onde achará vestígios de Omar e a fama que ele estabeleceu por lá. Enquanto cresce, descobre a malícia através dos olhares voltados a sua tia e precisa dividir os estudos com os afazeres absurdos que Zana lhe passa, o rapaz passa a questionar seu lugar dentro daquela casa e a identidade de seu pai. Além do mistério envolvendo o seu nascimento, ele percebe que nasce com o destino de sua mãe, que sempre quis escapar daquela casa, mas que nunca conseguiu. É por isso que recorre aos estudos, aplica-se: pretende romper a prisão. E como a frase de maior destaque no episódio diz, somente as ações libertam uma pessoa da prisão em que ela se encontra.
Não tivemos uma exploração detalhada sobre como Domingas se sente sobre o fato de envelhecer nessa casa, algo apontado no romance, mas ausente aqui. É uma pena, pois os momentos em que a índia, suas crenças e rotina ganham destaque enriquecem bastante a produção. Dois Irmãos não é somente sobre estar preso em um casamento em ruínas, estar preso embaixo das asas maternas e do nome da família na cidade, mas também sobre estar preso na condição social imposta a partir do momento em que se vai morar com alguém que literalmente o compra para que você sirva de empregado para o resto da vida, drama sofrido pela mãe do narrador. Quando pequena e assim que ficou órfã, o plano de Domingas era viver pelas lagoas, na aldeia onde seu pai viveu, ser livre por aí.
Destaco uma passagem do livro:
“Zana não se despegava dele [Omar], e o outro [Yaqub] ficava aos cuidados de Domingas, a cunhantã mirrada, meio escrava, meio ama, “louca para ser livre”, como ela me disse certa vez, cansada, derrotada, entregue ao feitiço da família, não muito diferente das outras empregadas da vizinhança, alfabetizadas, educadas pelas religiosas das missões, mas todas vivendo nos fundos da casa, muito perto da cerca ou do muro, onde dormiam com seus sonhos de liberdade.”
— Dois Irmãos, Milton Hatoum, página 67.
Espero que os próximos episódios abordem isso e não desperdicem tanto tempo em tela com cenas repetitivas entre Zana e Omar. A relação dos dois é interessante de acompanhar, mas há mais riqueza em volta.
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ps:
Cauã Reymond / Yaqub corrigindo a pronúncia de seu nome pela empregada quando ele também não tem sotaque específico (ou nortista) é bem cômico.















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