Chegamos ao fim da trinca de episódios comemorativos de 60 anos de Doctor Who. Ou será que chegamos ao fim da autocelebração que Russel T. Davies fez da sua própria contribuição para o show? Independente de qual seja a resposta, é inegável o gosto amargo que esse último capítulo acabou deixando. E isso se deve ao fato de que Davies tomou algumas decisões questionáveis não somente sobre esse especial, mas como em todo o cânone em si.
É estranho imaginar que um episódio que comece tão bem acabe derrapando na qualidade de forma tão absurda no seu ato final. A maior expectativa criada sobre esses especiais residia na figura vivida por Neil Patrick Harrys e que, mais tarde, seria confirmada como sendo o Artesão Celestial (Celestial Toymaker, no original), marcando assim a primeira vez que o personagem apareceria na série de TV após a sua estréia no arco “The Celestial Toymaker” de 1966. Esse é, infelizmente, um dos arcos que sofreu com a perda de arquivos da BBC, sendo que somente o último episódio se manteve intacto. Nesse contexto é importante ressaltar que grande parte da experiência de assistir a esse arco acaba sendo prejudicada, já que não podemos acompanhar as dinâmicas dos jogos mortais criados para desafiar o Doctor e seus amigos, uma vez que tudo o que temos são imagens estáticas e algumas descrições de cena, além do áudio original.
Logo, era de se esperar que finalmente pudéssemos presenciar uma aventura que fizesse jus ao personagem em questão e a toda sua obsessão por jogos e brincadeiras. Eu posso dizer que essa expectativa acaba sendo cumprida em partes, pois o ato inicial do episódio consegue transmitir de forma muito eficiente todo o perigo e ameaça que esse ser tão poderoso impõe. A loja de brinquedos é igualmente atrativa e assustadora, principalmente por conta das marionetes presentes ali. A fuga através do corredor infinito é só uma pequena demonstração do que poderia ser feito, mas que acabou ficando apenas na promessa.

Os dois principais embates entre o Doctor e o Toymaker são extremamente simples e, de certa forma, decepcionantes. A maneira ingênua como os jogos foram desenvolvidos em 1966 faz sentido quando você entende os limites orçamentários que a série possuía e como não era possível fazer nada muito distante daquilo que foi apresentado por conta de inúmeros outros fatores. Atualmente, porém, os poderes do Toymaker podem ser explorados das formas mais criativas e inimagináveis possíveis, transformando seus jogos em ameaças visualmente e perigosamente divertidas, mas o grande ápice é uma disputa de pegar bolinha, que se transforma em uma cena extensa e acaba da forma mais preguiçosa que alguém poderia conceber.
E é pouco antes desse joguinho que as coisas desandam. Ao transformar o momento da regeneração em uma “bigeneração”, Davies faz uma mudança drástica no cânone da série, tal como Chibnall ao criar introduzir a ideia da Timeless Child. E eu não estou disposto a dar o benefício da dúvida como eu fiz da outra vez. Chibnall criou um conceito e não soube como trabalhar com ele. A “bigeneração” parece seguir o mesmo caminho, pois a justificativa é que ela seria uma forma de dar um descanso para um Doctor que sofreu demais durante sua existência, mas essa aposentadoria já é jogada para o escanteio minutos depois quando é revelado que o antigo Doctor recebe uma cópia da TARDIS (em uma manobra do roteiro realizada de maneira vergonhosa) e continua viajando com ela.
Para além de todos os problemas que a decisão de manter dois Doctors coexistindo na mesma realidade pode causar e todos os furos que isso cria a partir de agora, fica gritante que essa ideia é apenas uma jogada comercial para criar possíveis spin-offs e maneiras de trazer o Tennant de volta sempre que a série começar a balançar na audiência. É quase que um descaso com Ncuti Gatwa que deixa de ser “O” Doutor para ser “UM” Doutor, como se a série precisasse se ancorar na figura de David Tennant (e o ator é a pessoa com menos culpa nesse emaranhado de decisões estranhas) para se sustentar. E isso é uma pena, já que Gatwa é um excelente ator e sua presença em cena é magnética.
Nesse novo “reboot” que a série recebe, havia a esperança de que Davies pudesse recolocar Doctor Who nos trilhos após a bagunça deixada por Chibnall, mas após ver o que aconteceu nesse episódio, eu fico em dúvida se o seu retorno foi a melhor decisão. O futuro é um livro aberto, mas caso ele continue seguindo os mesmos caminhos que foram trilhados nos últimos, o seu final pode não ser dos melhores.
Um recado para além do tempo: Essa review marca a minha última contribuição para o Série Maníacos. Foram dez anos de parceria com o site e eu posso dizer que foi extremamente prazeroso fazer parte dessa equipe. Eu comecei em 2013 cobrindo “The Simpsons”, “The Voice Brasil” e contribuindo com algumas listas do site. Em 2014 eu passei a ser responsável por “Doctor Who” e receber essa notícia foi uma sensação maravilhosa, pois ela é minha série favorita. Durante todo esse tempo, a série passou por altos e baixos e eu estive firme compartilhando com vocês toda a minha admiração, incertezas e revoltas, além de inúmeros outros sentimentos que só essa série é capaz de causar. Agora é hora de seguir por outros caminhos, mas antes de ir, eu gostaria de agradecer a todos vocês que me acompanharam (mesmo que só por um momento) durante todos esses anos. Eu espero que meus textos, embora não sejam os melhores do mundo, tenham sido capazes de dialogar com vocês e que lê-los tenha sido uma experiência tão boa quanto foi escrevê-los. Até a próxima e que nós possamos nos encontrar novamente em algum lugar desse gigantesco universo.















