No more!
50 anos de histórias. E que histórias, e que 50 anos! Mas assim é Doctor Who, uma série que ultrapassa as barreiras do tempo e por que não, do espaço?
Eu podia falar para vocês sobre a emoção que foi viver esse dia, compartilhá-lo com whovians de todo o Brasil, na realidade de todo o mundo já que esse especial foi transmitido ao redor de 94 países simultaneamente. Mas decidi não fazer isso, afinal essa emoção, essa alegria, essas manifestações de amor e devoção com a série é material para um extenso texto paralelo.
Mas estamos aqui para falar sobre emoções sim, mas as emoções do episódio e tudo o que ele representou para nós. “The Day of the Doctor” foi escrito por Steven Moffat e muitos fãs da série têm uma relação de amor e ódio com ele, posso dizer que eu não faço parte desse grupo já que sou muito amor por Moffat, mas entendo completamente e por muitas vezes a parte do ódio. Mas ninguém pode negar que Moffat foi capaz de nos entregar um episódio completo, sem margem para questionamentos ou ódio. Um episódio que costurou de forma coesa 50 anos de mitologia. Moffat usou o seu direito de showrunner da série, sua “liberdade” criativa e mudou coisas ao mesmo tempo sem mexer nos alicerces importantes estabelecidos durante 50 anos. E além de tudo isso ele ainda abriu o leque de possibilidades para as aventuras que estão por vir. Obrigada Steven Moffat!
Logo no primeiro minuto, já tivemos fortes indícios do que nos esperava. As palavras de Marco Aurélio, mencionadas por Clara: “waste no more time arguing about what a good man should be. Be one” podem ser encaradas como o mantra desse episódio, já que durante esses 76 minutos foi exatamente isso que vimos, a luta de três Doctors para se tornarem melhores e livres de arrependimentos. Além de claro, todas as coisas “wibbly wobbly timey wimey”!
Prevejo que essa review não será uma review típica, afinal não pretendo me manter restrita aos acontecimentos do episódio, não consigo. Essa review vai ser mais focada no que realmente foi o episódio para mim: emoção, saudosismo, celebração e respeito. Respeito mostrado por Moffat ao material da série. Emoção por ver um episódio além de tão respeitoso aos fãs, tão cheio de referências. Saudosismo por ver elementos tão importantes naturalmente inseridos ali. DAVID TENNANT, minha gente! Celebração, porque não há nada melhor que assistir a um episódio especial, um marco da sua série favorita, rodeada de pessoas que dividem e até mesmo superam essa paixão e ver também essa paixão naqueles responsáveis em realizar o episódio. Foi um momento único e inesquecível.
Mas sei que preciso falar do episódio, então na medida do possível farei exatamente isso. O episódio começa com Clara em seu novo emprego como professora. E o saudosismo já começa aí. A primeira cena desse episódio, com sua abertura e aquele arranjo musical, o reflexo dando vida a um membro da polícia britânica e esse policial passando pela placa I.M. Foreman (o ferro-velho onde a TARDIS estava estacionada) são homenagens ao primeiro episódio de Doctor Who “An Unearthly Child” em 1963. Isso era o suficiente, mas teve mais, a escola onde Clara leciona é a Coal Hill School, a mesma escola onde Susan Foreman, a neta do Doctor, estudava. Pela placa na porta da escola percebemos que o “Chairman of the Governors” (na Inglaterra “School Governors” é o nome dado aqueles membros do corpo administrativo da escola, e “Chairman of the Governors” é o líder desse corpo) é I. Chesterton, ou Ian Chesterton, que foi um dos três primeiros companions do Doctor. Percebemos também, que o diretor da escola hoje é W. Coburn, uma referência a Anthony Coburn que escreveu “An Unearthly Child”.
Assim que recebe o recado do “seu” Doctor, Clara vai ao seu encontro, e logo se vê sendo sequestrada pela UNIT, junto com o Doctor e a TARDIS. A responsável por esse sequestro é Kate Stewart, a filha do Sir Alistair Gordon Lethbridge-Stewart, o Brigadeiro, que é um dos fundadores da UNIT, e apareceu em Doctor Who pela primeira vez durante o reinado do segundo Doctor (Patrick Troughton).
E é aí que tudo começa a se conectar. O Doctor é levado para a National Gallery onde instruções deixadas pela rainha da Inglaterra, Elizabeth I, esperava por ele. Antes de sabermos mais sobre essas instruções, somos apresentados a obra de arte intitulada “No More” ou “Gallifrey Falls”, que é um obra típica Gallifrey, maior por dentro. Essa obra mostra o último dia da Guerra do Tempo e é exatamente para lá que somos levados e passamos a acompanhar o War Doctor (John Hurt) em seu dilema entre salvar o universo ou salvar sua nação.
No meio desse dilema, vemos que o War Doctor rouba um artefato de Gallifrey chamado “Momento” que foi descrito como o “comedor de galáxias”. Esse artefato foi o responsável pela destruição dos Time Lords e Daleks. Ou assim pensávamos. Quando conhecemos a interface desse artefato temos uma grata surpresa, já que a interface veio na forma de Rose Tyler (Billie Piper) ou do Bad Wolf (presença onipotente criada por Rose quando ela absorveu o vórtex do tempo). A interface, em uma tentativa de prever um genocídio, dá a oportunidade ao War Doctor de ver os efeitos que suas decisões terão em seu futuro, portanto nada mais válido e eficiente essa interface ter o rosto de Rose. Afinal, mesmo não sendo a minha favorita, é fato que Rose é uma das companions de maior significância, pelo menos nesse revival da série. É por causa de Rose que vimos e entendemos muitas das ações do Doctor e por forte influência dela que o Doctor é a “pessoa” que vemos hoje.
Para mostrar as consequências, o peso de seus atos e o que o espera no futuro (afinal um dia ele contará quantas crianças havia em Gallifrey quando ele ativou o “Momento” e depois que contar ficará difícil de esquecer) a interface abre janelas no futuro do Doctor. Janelas essas que ligam o War Doctor, ao décimo primeiro Doctor e ao décimo Doctor. Este último, dividido entre galantear a rainha Elizabeth I e a caça aos Zygons, na Inglaterra em 1562. Zygons estes que também estavam atacando a UNIT em Londres em 2013.
E aqui eu digo para vocês que quando o décimo Doctor apareceu montado naquele cavalo e com seu costumeiro “Allons-y” eu me transformei em uma criança que descobriu o Natal pela primeira vez. Sabia que sentia saudade de Tennant, mas até então não entendia a dimensão dessa saudade. É impressionante vê-lo ainda completamente à vontade na pele do Doctor, mesmo depois de alguns anos. Quão fantástico e agradável foi John Hurt encarnando essa versão mais escura do Doctor? Ele se entregou ao personagem e conseguiu deixar sua marca na história da série. Foi muito especial ver a sintonia monstra entre Matt Smith, David Tennant e John Hurt. Cada um com o seu Doctor distinto e ao mesmo tempo todos tão bem conectados. Foi realmente mágico ver as picuinhas, as provocações, o apoio incondicional e o Fez dividido entre o três. E ficou evidente o quão à vontade eles estavam na presença uns dos outros e também como eles sabiam que estavam diante de um momento tão especial.
Em todo momento em cena presenciamos o poder de atuação desses três, a diferença entre os três Doctors foi enorme e ao mesmo tempo conseguimos reconhecer nos três as distintas características que fazem Doctor Who ser essa série sem precedentes. Rose Tyler mais uma vez resumiu muito bem o momento em que cada encarnação se encontra: o homem que destrói, o homem que se arrepende e o homem que tenta com todas suas forças esquecer. Ou ainda, usando as palavras de Clara: o herói, o guerreiro e simplesmente o DOCTOR!
Clara “Oswin” Oswald, cada vez mais forte em nossos corações. Se tivemos certeza absoluta da importância de Rose Tyler na vida do Doctor, também tivemos a certeza que Clara se tornará igualmente importante. Ela já é (como um dia disse Michel Arouca) a constante na vida do Doctor, ela é aquela dentro da timeline do Doctor, aquela que salvou, de alguma maneira, todas as suas encarnações. Agora entendemos que Clara salvou também Gallifrey. A sintonia entre os dois é tanta que Clara consegue entender o peso das ações passadas ou futuras do Doctor através de seu olhar e consegue também, junto com Rose, fazer o Doctor entender que sempre há outra maneira que não envolva a destruição de uma nação.
E a união realmente faz a força e não somente a união de três Doctors. Em uma demonstração espetacular do “wibbly wobbly timey wimey”, vimos que todos os Doctors se uniram no objetivo de salvar Gallifrey. Foi emocionante ver todas as encarnações ali lutando pelo mesmo ideal, inclusive a encarnação futura que será interpretada por Peter Capaldi. Podemos entender que Capaldi realmente será a décima terceira encarnação? Sim, podemos! Afinal o comandante de Gallifrey foi corrigido quando disse que todas as doze encarnações estavam ali salvando o planeta. Não meu senhor, não foram doze, foram treze! Independente do que diz a regra. Naquele momento foram treze, treze espetaculares Doctors.
E aqui mais uma vez entrou o brilhantismo de Moffat, porque entendemos que durante todos os anos o Doctor estava indo para casa ou quem sabe entendemos que o que o Doctor realmente quer é ir para casa, para o seu lar, chega de viagens infinitas através do tempo e espaço, afinal já dizia Dorothy: “There’s no place like home!”. Mas o melhor de tudo isso é que, como já mencionei, o leque de oportunidades no futuro da série se abre e muito. Veremos sim o Doctor em sua jornada à procura de Gallifrey, que está congelada em algum canto do tempo e espaço.
“It’s taken me so many years, so many lifetimes, but at last I know where I’m going, where I’ve always been going… Home…”
E agora vamos ao que interessa, porque além de ser nomeado o curador da “Under Gallery” um local dentro da National Gallery onde encontram-se os objetos perigosos para a integridade da Inglaterra, temos a certeza que o Doctor realmente se casou com a rainha Elizabeth I, como já mencionado no episódio “The End of Time” (episódio que marcou a despedida de David Tennant). E ver um detalhe desses voltar agora foi realmente de encher os olhos de orgulho.
Mas se isso não fosse suficiente entendemos que o Doctor poderá realmente ser o curador no futuro, e quem veio nos dizer isso foi ninguém menos que Tom Baker, que interpretou a quarta encarnação do Doctor. Em um dos melhores diálogos do episódio, entendemos que o Doctor revisitará seus antigos “rostos”, desde que prometa ficar somente com os favoritos. O que chega a ser poético, já que Baker é o favorito de muitos fãs de Doctor Who. E foi o “curador” que nos garantiu que Gallifrey ainda está por aí e também nos disse o real nome da obra de arte, uma confusão que durou anos. Não são dois nomes, é um nome completo “Gallifrey Falls No More”!

Que forma emocionante de fechar 50 anos com todos os Doctors ali, juntos. Melhor ainda é perceber que o primeiro Doctor está destacado, como se estivesse olhando o resultado de sua fuga de Gallifrey tantos anos atrás e ao mesmo tempo encarando seu futuro, o que ele se tornou ou se tornará. Perfeito! E que venham mais 50 anos!
E foi assim que nos despedimos do Doctor, pelo menos até o dia 25/12, quando ele volta para o especial de Natal que marcará também a despedida do Matt Smith. Ser fã de Doctor Who significa manter em dia seus exames cardíacos, é muita emoção!
Outras referências:
1 – além de usar um fenomenal cachecol, a ajudante de Kate Stewart se chama Osgood. Osgood também era o sobrenome do Sargento Tom Osgood, um membro da UNIT que trabalhou com o Brigadeiro, pai de Kate;
2 – O décimo Doctor mencionou a “Queda da Arcadia” no episódio “Doomsday” (o season finale da segunda temporada);
3 – O “Momento” também foi mencionado em “The End of Time”.
Considerações finais:
– O décimo Doctor nunca quer ir, e toda vez que ele vai um pedaço de mim é arrancado. Momento que morri chorando, de novo: “I don’t want to go”.
– Eu como asmática, entendo completamente o que Osgood passou diante de um charmoso Doctor!
– Quem tem a melhor Sonic Screwdriver? A maior já sabemos, será mesmo que o décimo primeiro está tentando compensar algo?
– War Doctor fazendo a pergunta que está na boca de todos. Porque eles vivem apontando a Sonic Screwdriver por aí? Afinal é uma chave de fendas, um objeto científico se preferirem. Desde já fico no aguardo do cabinete montado por eles!
– Qual nome seria melhor para o trio de Doctors: Allons-y, Geronimo e Gallifrey Stands ou Sand Shoes, Grandad e Chinny? Vocês decidem!!!
– Não sei vocês, mas eu tenho uma necessidade pela real existência do “Black Archive”. Imaginem, além de milhares de informações dos Doctors e seus associados através dos anos, tem ainda o manipulador de vórtex, aquele que era do capitão Jack Harkness e que ajudou a Clara a libertar três Doctors brilhantes, porém incapazes de abrir uma porta!
– Sim também senti falta de um interação do décimo Doctor com a Rose. Mas basta lembrarmos que não era realmente a Rose Tyler e sim a interface do “Momento” que estava ali para iluminar as ideias do War Doctor para entendermos que foi correto não haver essa interação. Foi para nos mostrar um efeito dominó onde um afetava o outro, como Rose era parte daquele futuro que queria mostrar ela ainda não afetava o War Doctor, apesar de conseguir beijos de todos eles.
– Será o War Doctor o Valeyard?
– Quem tem medo do lobo mau?
– Quem sentiu falta do Eccleston?














