O encontro entre a sogra que todas pediram a Deus e a nora mais imbecil da história da ficção.
Um dos milhões de clichês dos novelões com o qual trabalha Devious Maids é a menina pobre apaixonada pelo rapazinho rico. Todo dramalhão tem um casal assim, e a única variação definitiva dessa história é em relação ao gênero de cada uma das partes (às vezes, temos um Cirilo apaixonado por uma Maria Joaquina, por exemplo).
Mas o que costuma tornar uma trama desse tipo deliciosa de acompanhar é um recurso que só pode ser proporcionado caso a mocinha seja a parte pobre do casal. Porque nada é mais divertido do que uma sogra diabólica obstruindo secretamente a felicidade do casal e fazendo a menina comer o pão que o diabo amassou. A cultura popular brasileira trata erroneamente a sogra como a maior inimiga do homem, mas os sábios responsáveis pela ficção entendem que é por seus filhos homens que essas mães superprotetoras são capazes de entrar em pé de guerra com uma moça ao ponto de renderem tanto para uma novela. Por isso, podemos estabelecer o seguinte: em novelões, toda moça pobre pela qual geralmente torcemos sonha em se casar com um homem rico e bondoso. O que muitas só descobrem depois é que deveriam ter incluído a sogra nesse pacote.
Eu não gostaria de ter aberto mais uma review com essa anta chamada Cavalentina. Mas a verdade é que a questão mais interessante sobre novelões que o ótimo Private Lives nos deixou foi justamente o fato de que a imbecil conseguiu conquistar absolutamente tudo que uma personagem como ela pode querer. Muito mais do que um namorado rico, magia e de bom caráter (sábias palavras de Thiago Lourenço: sozinho, o poolboy é bonito, mas é só colocá-lo na mesma cena que Remi, e ele desaparece), Cavalentina conseguiu uma sogra igualmente bondosa e, mais importante: que a ama e a quer vê-la casando-se com o filho.
Infelizmente, o QI da nossa jovem empreguete é baixo demais para que ela perceba o tamanho do presente que está jogando fora. Sim, Genevieve se intromete, mas até quando faz isso mostra amor e boa intenção absolutos. É por isso que é difícil engolir ou gostar de ver a moça mandando a patroa de Zoila parar de se meter. Além de ser esperadíssimo, é muito difícil de acreditar.
No espectro oposto, temos a já prevista ideia de fazer Remi perceber que Ethan não presta e tentar salvar Valentina das garras do moleque malvado. Apesar de tudo, até que comprei a ideia. Nada como um pouco de maniqueísmo para despertar o interesse do público.
Mas o rol dos arcos difíceis de acreditar não para. Ver Carmen sendo apenas SEMI-bisbilhoteira foi um dos momentos que me deixaram mais inconformado ao longo de toda a série. Quero dizer, ou você lê a porcaria do caderno ou você não lê! Mas pegar pra ler e ficar só na primeira página? Qual é o sentido disso? Impossível entender, e, por mais que seja bom perceber que a série não se esqueceu de que o foco de Carmen ainda é sua carreira, também vai ser duro engolir esse arco de Ty apaixonado feat. obsessivo pela empreguete cantora. Vou arriscar dizer que essa paixão fará Carmen descobrir a verdade sobre a morte de Alejandro, apenas para colocá-la em perigo nas mãos do poolboy e do restante da gangue. Aguardem e verão!
Ao menos Carmen brilhou, e brilhou com vontade, ao sentir o cheiro de couro vindo dos armários e gavetas de Opal. Não dá pra não amar Rosie e Zoila vindo correndo atrás da fofoca depois de receberem a ligação, e se há um momento que sempre é divertido em todos os episódios é ver as quatro confraternizando e fofocando sobre a vida alheia. A grande questão é: Nicholas sabe da traição de Dahlia, mas será que ele sabe que foi um caso lésbico (como Rosie faz questão de enfatizar) com Opal? Eu arriscaria que sim, mas a série não chegou a explicitar nessa história o nível real de conhecimento do noivo de Mariboring – que finalmente está conseguindo deixar de ser boring. Essa descoberta póstuma é um possível twist, mas não provável.
Eu ainda não consigo ver Opal como alguém realmente malvada, apenas como uma oportunista. Duas reviews atrás surgiu uma teoria interessantíssima apresentada pelo leitor “A.C.” nos comentários: Nicholas matou o filho dos Powells, Opal sabe disso e está tirando dinheiro do rapaz. Dahlia descobriu tudo e não aguentou viver com o segredo (ou talvez o próprio Nick “não tenha aguentado” por ela, o que só o colocaria ainda mais nas mãos de Opal). A questão é que o caso lésbico passa longe do mistério da temporada, apesar de já ser mais do que suficiente para explicar a carta que pedia a Dahlia para livrar-se de Opal.
Quem tem recebido cada vez mais espaço é Rosie e seus novos patrões, que também ganhou uma “check mark” por ter ido exatamente pelo caminho que todos prevíamos: Rosie exercendo sua insuportabilidade e querendo ir atrás da filha perdida de Lucinda. E, devo dizer, para uma ricaça que passou 25 anos lamentando a ausência da filha, Lucinda merece o troféu inércia do milênio depois de vermos uma simples empreguete achando a menina em questão de dias. Que o encontro não seria nada pacífico também era algo fácil de imaginar, mas a cena da menina socando a mãe de repente foi realmente hilária. No fim, essa história intensificou ainda mais a ideia de que Kenneth estava muito longe de ser um santo antes da doença.
Ainda assim, o episódio foi marcado por um twist que eu não esperava, que foi a transformação do sobrinho, o mesmo que conseguiu o emprego para Rosie, no vilão da história. Didi é vadia e interesseira, Lucinda é perigosa e explosiva (com motivações justas), mas agora nenhuma das duas parece ser uma ameaça real e verdadeira ao pobre patrão de Rosie nessa história – a não ser que Didi e o advogado estejam mancomunados, o que é bem possível, visto que a esposa do velho certamente não gostava nem um pouco da ideia de Lucinda ser a portadora da procuração. No fim, tudo indica que caberá a Rosie o papel de descobrir a verdade e tornar-se a salvadora dessa família disfuncional.
Resta-nos, então, Zoila, que, também como previsto, acabou arranjando um namorado (bastante respeitável, diga-se de passagem). E, apesar da rivalidade culinária e das metáforas divertidamente inapropriadas, eu diria que essa foi a única trama entediante de todo o episódio. Pra mim, foi uma tentativa extremamente mal sucedida de pintar Zoila com novas cores, mas a imagem de mulher experiente fala mais alto no meu coração, e essa insegurança de adolescente em relação ao sexo me incomodou demais. Mas, como sensatamente ponderou Thiago Lourenço, esse é o tipo de trama que jamais funciona para pessoas que, no lugar da Zoila, teriam dado logo de uma vez e acabado com a história. Resta saber qual é o perfil majoritário dos telespectadores de Devious Maids.
Apesar de tudo, Private Lives foi um episódio bastante acima da média, que prova a competência absoluta da série em explorar os próprios clichês e transformá-los em diferenciais. Até mesmo os erros do episódio caminharam de maneira a nos dar entretenimento e muita satisfação. E continuo dizendo: se a segunda metade da temporada continuar nesse nível, ela terá valido muito a pena!
P.S. – Os Powells nem apareceram, e o que mais temíamos aconteceu: não fizeram falta.
Estamos há três episódios sem Odessa.















