Marc Cherry, o rei das grandes viradas repentinas.

Sempre digo que Devious Maids é uma espécie de extensão de Desperate Housewives, a grande criação de Marc Cherry que, em sua primeira temporada, chegou a ser a série mais assistida da TV aberta americana. As aventuras de Susan, Lynette, Gabby e Bree foram finalizadas com chave de ouro e, agora, é quase como se víssemos a mesma realidade sob outra perspectiva – e com a latinidade presente em todos os núcleos, não apenas um. Não que Wisteria Lane possa ser comparada com Beverly Hills, mas a essência das personagens de DH podem ser encontradas nas patroas. Se tirássemos a latinidade e o nariz empinado de Gabrielle Solis e avançássemos alguns anos, por exemplo, teríamos Genevieve sem tirar nem pôr, e, principalmente neste início de segunda temporada, podemos enxergar muito de Bree Van De Kamp e Orson Hodge em Evelyn e Adrian Powell.

Assim, precisamos compreender que, como sua “série-mãe”, Devious Maids virá repleta de “quase twists” impedidos por mortes repentinas – que, claro, geram outro twist bem diferente do que estava prestes a acontecer. Se você é um personagem de Marc Cherry, jamais prometa mudar a vida de alguém (seja para o bem ou para o mal), porque essa provavelmente será a última promessa da sua vida – e dificilmente haverá tempo para cumpri-la.

A baixa da vez foi nosso caríssimo Alejandro, que levou um tiro do lado esquerdo do peito imediatamente depois de garantir que Carmen teria sua carreira consolidada independentemente de casar-se com ele. O desenrolar dessa trama tem a cara de Cherry em absolutamente todos os seus detalhes, do desespero da empreguete feat. cantora ao perceber que o falso noivo havia encanado num bofe  ao nonsense (mas ainda assim divertidíssimo) plano de casamento repentino armado por ela em seguida. Mas nada estampa mais claramente a assinatura do criador da série do que a provável morte de Alejandro no final de tudo.

O que me preocupa com essa decisão é: para onde irá Carmen agora? O núcleo da casa de Alejandro foi um dos grandes trunfos da primeira temporada, e a relação “amigas e rivais” de Carmen e Odessa sempre era garantia de diversão, episódio após episódio. E, apesar de Alejandro ser uma triste baixa LGBT para Devious Maids, é com a governanta que estou preocupado. Apesar de isso ter acontecido com Taylor na temporada passada (saudades, Taylor!), Marc Cherry não é de atirar em uma pessoa e mantê-la viva, então espero que ao menos ele consiga carregar Odessa para onde Carmen for. Caso isso aconteça, aceitarei de bom grado o fim de Alejandro, já que a moça havia se distanciado demais da função de empreguete e já tenho sentido falta de vê-la passando aleatoriamente um pano na parede apenas para se deslocar de um cômodo para outro e escutar conversas.

Outra virada repentina que vivemos foi a do já citado casal Powell. Mantê-los foi realmente uma decisão muito acertada, já que ambos (especialmente Evelyn) mostraram brilho próprio para dar e vender na temporada passada. Sinto até que era completamente desnecessário colocar Valentina para trabalhar ali. Talvez por ser a empreguete mais chatinha e desinteressante do grupo, como absolutamente tudo em sua vida centrado nos desentendimentos com a mãe, sinto como se ela fosse a secundária no núcleo dos Powells e não o contrário, como costuma acontecer com as empregadas e patrões na série. Não minto, acho Valentina uma chata e vê-la sendo o estopim dos próprios pais não faz nenhum favor à garota. Não que a história de Zoila esteja interessante, mas ao menos por esta eu tenho simpatia legítima (e, assumo, boa parte da culpa é de Genevieve, essa maravilhosa que tem medo da própria empregada!).

Naquela casa, a história que importa é a dos patrões, é a fragilidade repentina que um único ato de violência sofrido gerou, desestabilizando completamente aquelas que pareciam ser as pessoas mais seguras e poderosas do universo de Devious Maids. O mais interessante é que a suposta descaracterização do casal está longe de ser inaceitável. O trauma gerado por um assalto à mão armada dentro da nossa própria casa pode ser gigantesco. Para alguém como Adrian, que jamais sonharia com essa possibilidade, o tombo é muito maior. E essa fraqueza, a série já deixou bem claro, é justamente o que permite que Evelyn abra uma brecha de vulnerabilidade diante de Tony, que, neste episódio, mostrou ser mais do que um segurança feat. eye candy da série e tem grandes planos para a patroa. Só eu não consigo evitar um grande temor pelo casal mais adoravelmente insuportável da TV americana?

Uma personagem, porém, passou por uma virada nada repentina e muito bem construída ao longo da série para chegar ao ponto em que chegou em The Dark At The Top of The Stairs: Peri Westmore. De mãe relapsa e esposa infiel, a personagem evoluiu para a grande vilã da série, do tipo que é simplesmente podre, assume isso sem vergonha nenhuma, imita a empregada chorona como uma verdadeira mestra e ainda parece tão boazinha nos filmes! Gostei demais da maneira como a trama de Rosie evoluiu até chegar a esse ponto, que pode muito bem ser o fim da vida do casal Westmore em Devious Maids – o que seria ótimo para encerrar esse rolo chato entre Spence e Rosie, mas muito triste pela perda de Peri, e, unicamente por esse motivo, acho que ainda veremos essa história andar.

Por ora, porém, Rosie virou a página e chegou a uma nova família que promete muito. Se, em Desperate Housewives, ter vizinhos novos a cada temporada foi se tornando uma fórmula um pouco forçada, em Devious Maids é extremamente natural uma troca de padrões, tornando toda a ambientação do núcleo recém-chegado muito mais fluida. Foi exatamente o que aconteceu aqui, e a nova (e deliciosamente clichê) família disfuncional de Hollywood me conquistou logo de cara. Altas expectativas para a dinâmica entre a boazinha Rosie (nossa empreguete mais indicada para passar por esse tipo de situação, sem dúvida) e as duas mulheres em guerra.

O mistério da temporada, porém, ainda não me deixou muito animado. Primeiro porque sinto falta de Marisol pós-graduada fingindo ser empreguete por ser latina, ideia que achei genial na temporada passada. Segundo porque não consigo imaginar um desfecho que me surpreenda ou me deixe estarrecido. Só temos dois suspeitos para o possível assassinato de Dahlia, e ainda não há nada intrigante na trama que me deixe curioso para saber o que, afinal, desencadeou toda aquela crise que tirou a vida da ex-mulher de Nicholas. Talvez se descobrirmos que algum personagem que conhecemos tenha alguma relação com Dahlia, a coisa pode melhorar. Por enquanto, ficamos só na promessa e na melhora substancial da trama a partir do momento em que Opal é humanizada e se torna uma personagem mais tridimensional, apenas para ser posta sob os olhos suspeitos de Marisol logo em seguida.

Mas, assim como na temporada passada, não estou preocupado. Em Devious Maids, pouco importa o desfecho. Até porque The Dark At The Top of The Stairs não deixou espaço para dúvida de que estamos embarcando novamente numa jornada novelesca divertidíssima e cheia de latinidade. Ah, empreguetes, que saudade que eu estava!

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Guto Cristino
Guto Cristino é engenheiro químico, jornalista e administrador. Nessa salada toda, o tempero constante é a paixão por séries e por Christina Aguilera, sempre presentes em seu cada vez mais curto tempo livre. No Série Maníacos desde 2011, é especializado em cretinice televisiva, com foco em novelões e realities, mas garante que vê série boa de vez em quando.