A arte provoca. A palavra também. Diferentes tipos de arte proporcionam (e requerem) diferentes formas de provocação, assim como discursos diferentes se sensibilizam ao contexto do falante e de seu meio. Nesse sentido, a literatura tem algo de especial em si e no jogo de manipulação e distância entre o escritor e seu leitor. Na fotografia e na pintura, a ousadia está em desafiar o que é exato. No cinema, temos o controle, a edição e todos os detalhes técnicos que expandem o leque nas áreas anteriormente mencionadas. No teatro, então, o olho no olho é o que distingue a arte teatral das demais. Sendo ator ou sendo espectador, sabemos a força deste momento, quando três seres se encontram e se reconhecem: a personagem, o ator e a plateia. Fugindo do óbvio e usando os truques do audiovisual a seu dispor, Vaga Carne crava mais do que um olhar em seu telespectador: crava palavras.
Estas surgem na performance magnetizante de Grace Passô. A atriz, que domina um monólogo vibrante por pouco mais de quarenta minutos, é responsável pela adaptação da peça para o média-metragem que foi selecionado para o Festival de Berlim. Vaga Carne já é um texto circulando pelo meio teatral há certo tempo: premiado aqui e ali, fez parte de alguns festivais como a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo e ganhou o Shell, principal premiação em seu meio, em 2016. Quem conseguiu apreciar o espetáculo pessoalmente, uma vez que o teatro é algo que requer uma atenção constante para não perdermos bons eventos, deve ter espalhado pelo menos para os amigos sobre a criatividade e desenvoltura da atriz e dramaturga. Nesse movimento horizontal, o mistério e fascínio em torno da artista vem se construindo. Aqui, ao lado de Ricardo Alves Jr., ambos artistas mineiros, ela ocupa a cadeira da direção e leva para o cinema — e posteriormente para nossa casa — uma fábula que poderia ser facilmente resumida como “uma carta de amor à linguagem”.
“Vozes existem. Vorazes. Pelas matérias.”
A história é simples, mas vai se complicando conforme nos integramos à sua lógica. No enredo, temos uma voz que adentra o corpo de uma mulher e começa a descobri-lo e conversar com ele. Preenchendo este espaço de maneira desajeitada e curiosa, essa personagem vai nos apresentando ao corpo desta mulher, enquanto ela própria o descobre. Passamos por momentos de desconforto, raiva e desapego total para chegarmos, depois de um tempo, ao apego, à reflexão e a um grito de dor que soluciona um mistério que vai se construindo nesses quarenta minutos. Isso porque precisamos descobrir por que a voz está ali e o que ela pode nos revelar sobre esta por quem agora fala.

Diferente da peça, temos momentos de interação mais atrelados à plateia, quando Grace e Ricardo a colocam para andar pelo espaço e interagir com sua personagem a partir de sussurros ou olhares incisivos. No teatro, temos a oportunidade de celebrar sua boa performance no silêncio de nosso assento, talvez nos mexendo ora ou outra por conta das descobertas que fazemos na trajetória do espetáculo. Aqui, as pessoas para quem performa estão atentas e, mesmo sem muitas falas, contribuem de maneira mais essencial ao resultado final, ao conceito proposto por essa adaptação.
“Vamos invadir o corpo dessa mulher com palavras.”
Vaga Carne chega ao streaming durante nossa quarentena, um momento em que não podemos ir ao teatro. Presos e sentados em nossa casa, temos nessa obra a chance de matar a saudade do palco — ou certa provocação para frequentarmos com mais assiduidade esses locais tão abandonados por nossas rotinas que sempre desviam nossos caminhos para outros passeios. (O timing também não deixa de ser quase irônico: a história de uma voz presa num corpo quando nós estamos presos em casa.) Ainda que valorizando seu berço, há uma consciência desta nova linguagem, este novo campo para a história: temos a atriz saindo do palco, temos efeitos bem colocados e temos um áudio refinado para não lhe perder em nenhum momento.
Em poucos minutos, percebemos maturidade e domínio na atuação de Grace Passô, que já protagonizou os filmes Praça Paris (Lúcia Murat, 2018) e Temporada (André Novais Oliveira, 2018). No média, o desafio dela está em não interpretar o próprio corpo. Diferente do que se estuda com frequência no teatro, sua personagem não pode ser uma criação a partir de si, da própria Grace. Caso o fizesse, perderia toda a coerência do próprio roteiro. Ela precisa atuar como algo estrangeiro que se apossa deste corpo que ela tão bem conhece, mas precisa se convencer (e convencer o telespectador) de que lhe é estranho — quase uma terceira personagem.

Não é surpresa alguma encararmos uma boa atriz encabeçando uma produção em nosso cinema, nossos aplausos, então, são fortalecidos pelo texto catalizador. Questionamos em reflexão, entre outras coisas, quais palavras esta mesma voz usaria para nos definir se nos ocupasse. Será que somos definidos pelas mesmas palavras? Qual verbo nos move? Qual frase moveria seus pés? É uma ótima base para conversarmos sobre a posse de nossos corpos, e como discursos que não são nossos nos ocupam e nos modificam — e mesmo palavras de outro idioma integradas a nosso vocabulário.
No próprio título, que já perde a força na tradução para o inglês (lançado lá fora como Dazed Flesh), temos um humor quase cínico. Este atravessa o filme e nos arranca risos desconfortáveis. É, portanto, um texto não só criativo, mas inteligente. Fala sobre um corpo desocupado, mas também sobre todos os corpos que caminham ocupados por aí. Fala sobre um corpo encontrado ao acaso, mas nos lembra que, quando focamos em um corpo, ele nunca poderá ser tirado de seu meio, das palavras que seu meio utiliza para lhe definir. Nesse sentido, Grace não abusa apenas das artimanhas decoradas por uma artista do teatro, mas da mesma perspicácia que Hilda Hilst exibia em seus bons parágrafos.
“Eu entrei um dia num revólver apontado para uma mulher”.
De nos lembrar como o teatro é apaixonante e de não nos fazer esquecer como a língua portuguesa é envolvente, Vaga Carne é uma obra hipnotizadora, com uma história curiosa e um desfecho de tirar o fôlego. É a gota d’água num teatro contemporâneo tão desafiado a se comunicar com as pessoas que não se sentem mais conectadas ao formato, desaguando, como resultado, em outra mídia. Sorte de todos nós, uma vez que o registro cinematográfico ajuda a espalhar ainda mais rápido e de forma mais urgente uma obra que precisa ser apreciada mais vezes do que a (sagrada) fórmula do instante no teatro permite.

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Vaga Carne pulou o cinema aqui no Brasil e foi lançado diretamente no catálogo da Spcine Play. Assim, está temporariamente gratuito na plataforma Looke — confira aqui. Ou seja, não perca tempo, prestigie a obra e volte aqui para me contar sobre sua experiência. Ah, assista de fone!












