Slow down, you’re doing fine

You can’t be everything you want to be

Before your time”

Poucos autores de séries tem um estilo tão singular quanto Ryan Murphy. Apaixonado por cultura pop desde pequeno, o homem é uma enciclopédia, que cria histórias banhadas em referências, permeando suas obras com um tom satírico e ágil. Murphy domina com maestria diversos gêneros, o que o conferiu um potencial exagerado, seja para o drama ou para a comédia. Em toda sua filmografia, ele ultrapassa a linha entre o absurdo e o real, seja graficamente, como em American Horror Story, ou narrativamente, como no roteiro quase dadaísta de Glee, que mudava traços de personalidade dos personagens de maneira aleatória, a cada poucos episódios. E tudo bem, faz parte do charme dele, os limites da realidade não são respeitados em suas séries.

Todos os elementos comuns a uma obra do Murphy estão presentes em sua primeira produção para a Netflix, The Politician, que ainda conta com seus parceiros de longa data, Ian Brennan e Brad Falchuk. E o tom nonsense carismático do trio é justamente o fator que define o nível de receptividade do espectador frente a The Politician. Logo nos primeiros segundos da série, somos alertados de que o conteúdo a seguir pode ser perturbador para a audiência, e para alguém pouco acostumado com o universo exótico criado pelo autor, realmente é. Para mim, que tive Glee como trilha sonora da adolescência, e passei noites com medo do Entalhador, de Nip/Tuck, The Politician é uma bem vinda adição a esse microcosmo extravagante.

A série traz uma premissa satírica por si só: um jovem ambicioso que, visando virar presidente dos Estados Unidos um dia, não mede esforços para se tornar presidente da classe na escola. Payton Hobart (Ben Platt) é um típico protagonista de Murphy: cínico, autocentrado e irritantemente fascinante de se acompanhar. Em sua equipe eleitoral, estão a namorada Alice (Julia Schlaepfer) e os amigos James (Theo Germaine) e McAfee (Laura Dreyfuss), que criam dezenas de estratégias para garantir o sucesso do candidato, incluindo recrutar a jovem com câncer Infinity (Zoey Deutch) como vice, para garantir os votos de comoção . Do outro lado, temos a ambiciosa Astrid (Lucy Boynton) e seu namorado River (David Corenswet), que também se arriscam na disputa pela liderança da escola.

É neste cenário que se desenrola The Politician. Como esperado tanto de séries políticas quanto de produções adolescentes, há muitas traições, reviravoltas, triângulos amorosos e escândalos, mas sempre com uma carga de humor transgressor característico de Murphy. Contudo, por trás dessa camada de desconforto proposital, a narrativa aborda questões mais profundas, sobretudo no que diz respeito a insatisfação com a própria vida e a necessidade insaciável de sempre alcançar algo a mais. Como na letra da música de Billy Joel que abre essa resenha, e também ilustra uma das cenas mais bonitas da série, a frequente voracidade por novas conquistas esconde um medo do fracasso muito desesperador, que todo mundo já sentiu alguma vez.

A missão de Payton com o passar da série não é só ganhar a eleição, mas também descobrir o que na sua vida faz sentido para além do plano milimétrico que traçou durante anos. Nesse aspecto, o personagem de River é uma peça chave para as reflexões do protagonista, que graças ao papel de consciência exercido pelo colega, consegue questionar as amarras às quais se atou tão violentamente. A jornada do personagem é semelhante a de outra figura marcante de Murphy: Rachel Berry, de Glee. Ambos são pessoas dotadas de uma ambição avassaladora, que com o passar de seus arcos narrativos, tentam aprender a ressignificar suas ações.

E nesse momento, The Politician toca em uma temática muito intensa para quem a confronta: numa vida em que tudo é planejado, das ações à maneira de se abordar as pessoas, onde fica a verdade? Essa crise de identidade atinge não só Payton, mas vários personagens, que diante da automatização de suas vidas, se sentem esgotados. Um exemplo disso é Astrid, que se agarrou ao estereótipo de patricinha fria, buscando uma forma brusca de liberdade assim que lhe é dada a oportunidade. Em outro âmbito, está Georgina (Gwyneth Paltrow, muito simpática no papel), mãe adotiva de Payton, que presa em um casamento sem amor, escolhe a apatia como forma de lidar com a infelicidade.

É interessante que esse mesmo tema é analisado de diferentes pontos de vista. A maior prova disso é quando Murphy, sempre inventivo com a estrutura de seus shows, nos propõe todo um episódio focado em um aluno comum da escola, um possível votante que, durante todo o capítulo, é incessantemente sufocado pelas promessas vazias e os discursos sem genéricos dos competidores, ignorando-os prontamente. O votante sabe o quão sem propósito aquela eleição será para sua rotina, o que não deixa de ser um recado interessante sobre pessoas descrentes com políticos, que prometem muito, mas no fim, costumam deixar os necessitados na mesma condição de antes.

Essa preocupação em apresentar diferentes ângulos é uma qualidade da série, que se beneficia de uma divisão muito semelhante às produções de canal aberto, em que algumas histórias começam e terminam no mesmo episódio (só que, por ter menos episódios, não tem fillers para atrapalhar). E com isso, também é interessante ver um criador clássico de TV se adaptando ao mundo do streaming. A Netflix desenvolveu um modelo muito próprio para suas séries, que inclui idealizá-las como um filme de 10 horas, dividido em várias partes. É um método válido, que funciona em produções ótimas, como Dark e Stranger Things, mas com The Politician, foi bom não sentir a obrigatoriedade de assistir o próximo episódio imediatamente, podendo digerir os ensinamentos individuais de cada capítulo.

Desse modo, a narrativa é benéfica para os personagens, que mudam, se adaptam, e passeiam pela trama com suas reações impulsivas e exageradas. Reações essas que, agora sim comum tanto à Netflix (como em Insatiable ou Elíte) quanto às obras de Murphy, podem beirar ao trash. Afinal, ainda estamos falando de uma sátira. Mortes inesperadas, relações surgidas do nada e pouca importância com a coerência das ações são elementos que fazem parte de The Politician, e que já são inerentes ao universo de Murphy. E é por isso que o nível de intimidade com as produções do autor, podem e irão influenciar a perspectiva de quem assiste. Para quem entende que o showrunner utiliza de situações irreais como alegoria para questões mais profundas, The Politician é um prato cheio. Para quem não se convence com os absurdos propostos por Murphy, a identificação com a trama provavelmente será baixa.

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Independente de qual seja a percepção tida, o fato é que The Politician reúne uma galeria de personagens marcantes, desde o protagonista até a pilantra Dusty Jackson (a sempre excelente Jessica Lange), além de promover sérias críticas ao estilo de vida americano. Com mudanças radicais na trama no último episódio da temporada, a expectativa é que a série aborde diferentes ciclos, aprimorando a construção dos personagens e do discurso do show. Adentrando o rol de produções exóticas de Ryan Murphy e cia, The Politician pode ser amada ou odiada, mas com certeza despertará algum sentimento no espectador.

REVISÃO GERAL
Nota:
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critica-the-politician-e-uma-tipica-serie-de-ryan-murphy-seja-isso-bom-ou-ruimIndependente de qual seja a percepção tida, o fato é que The Politician reúne uma galeria de personagens marcantes, além de promover sérias críticas ao estilo de vida americano.