“Tudo que acontece de ruim na vida da gente é pra ‘meiorá’”. É com esse bordão, tanto do caipira Candinho (Sérgio Guizé de Elis: Viver é Melhor que Sonhar) quanto do professor de Filosofia, Pancrácio (Marco Nanini de A Grande Família), que Êta Mundo Bom! se torna imprescindível para o atual século XXI e, principalmente, para o seu atípico ano de 2020. Ainda mais que, com a pandemia do novo Coronavírus e o seus impactos sociais, principalmente no Sistema Único de Saúde (SUS), do país, a população teve que mudar, drasticamente, a sua rotina diária, ficando, as famílias brasileiras, 24 horas, dentro de seus lares, em quarentena, com o intuito de diminuir a transmissibilidade da Covid-19.

Por esse motivo, o consumo de serviços de streaming, de TV por Assinatura e, claro, de TV Aberta, afinal, “são 100 milhões de uns, todos os dias”, só na Rede Globo de Televisão, cresceram, de forma exponencial, entre os indivíduos. E nada melhor do que assistir uma boa produção nacional, não é mesmo?! Sei que muitas pessoas, ao lerem essa frase, “torcem o nariz”, pelo fato de ser novela, mas, muito antes das séries, esse estilo de produção foi o destaque por muitos anos e muitos anos, não podemos esquecer de tal constatação. Malhação e as suas várias gerações que o diga, né?! O falecido programa Vídeo Show (1983-2019), também, não me deixa mentir, porque, se ele ainda estivesse no ar, com certeza, iria noticiar que o Globoplay, estaria retornando, a cada duas semanas, nas segundas-feiras, alguma telenovela clássica, em seu catálogo, uma vez que, não é por acaso que A Favorita (2008), Tieta (1989) e Estrela-Guia (2001) estão disponíveis para os assinantes da plataforma. O brasileiro ama uma boa novela, estilo televisivo, muitas das vezes, atemporal.

Pois bem, é nessa linha de raciocínio que eu faço tal Crítica desta novela, Êta Mundo Bom!, de autoria de Walcyr Carrasco (A Dona do Pedaço), lançada em 2016 e sendo reprisada, desde abril, de 2020, no Vale a Pena Ver de Novo, nos finais das tardes do “Plim Plim”. Se naquela época, as aventuras de Policarpo e de seu dono, Candinho, foram um sucesso, hoje, tal aspecto está se repetindo, sendo 27 pontos, no Ibope, a audiência, só na cidade do Rio de Janeiro (RJ), e 23, em São Paulo (SP), capital, segundo dados da jornalista Patrícia Kogut, do O Globo. E olha que era para Êta Mundo Bom! ter entrado ao ar, primeiro, no lugar de Avenida Brasil, escrita por João Emanuel Carneiro (Da Cor do Pecado), em 2012, que foi a última a ser reprisada, com um sucesso idem, mediante os gritos de Carminha, interpretada pela excelente atriz Adriana Esteves (Justiça). Sérgio Guizé, até mesmo, chegou a gravar as chamadas – engavetadas, logo em seguida – e usadas em um tempo oportuno. Ainda bem que a Globo repensou e a colocou, somente, agora, em reexibição, se tratando dos tempos atuais, com a campanha #FiquemEmCasa, fazendo parte da nossa vida cotidiana. “Espero que nesses tempos tão difíceis, a novela volte a trazer positividade e esperança”, disse Walcyr Carrasco, o autor, para o site Próximo Capítulo, do Correio Braziliense. Já Sérgio Guizé, no mesmo site, disse que as pessoas não esquecem o protagonista “porque ele representa o amor ao próximo, à natureza e aos animais, era extremamente justo e honesto. Tinha todos os bons princípios, mesmo sem ter recebido uma boa educação. Em tempos que vemos tanta falta de empatia, ele é um grande exemplo de ser humano”.

De fato, Êta Mundo Bom! está sendo um alento, de desejo, de tempos melhores, não só para o ano vigente, como, também, para o que nos resta do futuro. Se nesse aspecto, impera-nos a incerteza, com a expectativa de que tudo isso passe logo e a “Comunidade Científica” crie uma vacina para combater, de fato, na prática, essa doença, no que diz respeito ao divertimento, Walcyr Carrasco, conhecido como o “Rei das Seis” – em referência ao horário em que se passou seus grandes sucessos, as “Novelas da Seis” -, como Chocolate com Pimenta (2003) e Alma Gêmea (2005), nos proporciona boas risadas, em vários núcleos, com o pessoal: da Fazenda, com a matriarca Dona Cunegundes (Elizabeth Savalla de Caras & Bocas), “carinhosamente”, chamada de “Dona Boca De Fogo”, usando o seu casaco de pele, “pois é chique por demais”; da Cidade, na casa elegante da Dona Anastácia (Eliane Giardini de América), do Palácio Dançante, chamado “Taxi Dancing”, com as dançarinas, da Dona Paulina (Sueli Franco de O Cravo e a Rosa) e da Pensão da Dona Camélia (Ana Lúcia Torre de O Beijo do Vampiro), local onde sempre cabe mais um, igual “coração de mãe”, para apreciar um cafezinho fresquinho, feito na hora, com direito, inclusive, a um pedaço de bolo feito pela avó de Gerusa (Giovanna Grigio de Chiquititas).

A história principal é baseada em quatro pilares: no conto “Cândido, ou O Otimismo”, do filósofo francês Voltaire (Édipo), escrito em 1759, no filme Candinho, protagonizado pelo ator Amácio Mazzaropi (O Jeca e a Égua Milagrosa), em 1954, no conto “O Comprador de Fazendas”, de autoria do escritor Monteiro Lobato (Aritmética da Emília), escrito em 1917, e, por fim, no universo das radionovelas, de acordo com a página especial, da novela, no site Memória Globo.

Pancracio ( Marco Nanini ) *** Local Caption *** Cap 1 – Pancracio ( Marco Nanini )

O início se passa na vida de Candinho, caipira que foi maltratado pela “Dona Boca de Fogo”“Olha aqui, Zé dos Porcos: meu nome é Cunegundes!” -, após ter sido encontrado no rio, pela empregada, Dona Manuela (Dhu Moraes de Sítio do Pica Pau Amarelo) e pela tia Eponina (Rosi Campos de Castelo Rá-Ti-Bum), ambas que, sim, lhe deram amor e carinho, em sua criação, desde bebê. De lá pra cá, ele desejou, imensamente, conhecer a sua mãe biológica, Dona Anastácia, e ela, da mesma forma, afinal, eles ficaram separados por muitos anos, devido ao patriarcalismo e ao machismo, dos anos 1940, em que uma mãe solteira era vista como “a pior das mulheres” da época, ou seja, tal fato seria um “escândalo” para a sociedade. Desse modo, com o passar do tempo, Candinho, após ser expulso da Fazenda Dom Pedro II, local onde Dom Pedro II – último monarca do Império do Brasil “dormiu por uma noite”, resolve ir à capital – no caso, São Paulo (SP) – com o objetivo de encontrar a sua progenitora. Confusões e mais confusões fizeram parte de sua jornada, sempre com muito bom humor e com muita alegria, ao lado de seus fiéis amigos: o burro, Policarpo, e o mais recente, Pirulito (JP Rufino de Além do Horizonte), menino que morava nas ruas e o ajuda a se virar na cidade grande. Sem contar, é claro, com a presença do professor Pancrácio, homem muito sábio e muito perspicaz, nas soluções que a vida lhe pregava, ao longo do caminho. Isso foi perceptível por meio dos seus mais de 30 personagens que interpretou nos quarteirões e na igreja, como a Miss São Paulo, o Escoteiro, o Mágico e o Mendigo, ao pedir dinheiro, com o intuito de “despertar a bondade das pessoas”, momentos nos quais ele era quase flagrado, seja pela polícia, seja por Romualdo (Márcio Tadeu de Lima de Verão 90), dono de um bar, apaixonado pelas senhoras incorporadas pelo irmão gêmeo de Pandolfo, também, interpretado por Marco Nanini.

Já o ator Sérgio Guizé teve um atuação além da média, exemplar, vamos dizer assim, pois ele poderia ser um caipira qualquer, isto é, o famoso “mais do mesmo”. Porém, não! Ele, do começo ao fim, “mergulhou de cabeça”, sendo o seu jeito amoroso e atencioso, para com as outras pessoas, o forte do personagem Candinho. Aliado a isso, destaca-se a sua ingenuidade e a sua bondade, com os seus olhos brilhando, em vários momentos, seja ao ver Filomena (Débora Nascimento de Duas Caras), sua amada, seja no encontro, memorável, com a sua mãe, Anastácia, uma das cenas mais belas da trama. Não é para menos que Sérgio é lembrado, até hoje, por esse papel, sendo um marco e tanto, na sua carreira, como ator. Quem não estava torcendo para a felicidade do moço, né?! Candinho, nós te amamos!

Outro elenco bastante caricato e divertidíssimo, diga-se de passagem, era o pessoal da Fazenda. Mafalda (Camila Queiroz de Verdades Secretas) foi um sucesso, minha gente! A vontade de ver o “cegonho” – parte íntima frontal de um homem – era imensa, ainda mais com a chegado do “Comprador de Fazenda”, o Romeu (Klebber Toledo de Lado a Lado), lindo e, aparentemente, rico. Confesso que eu fiquei irritado com o descrédito que tiveram dele, ao longo de vários capítulos, por parte dos moradores do  local, que, após descobrirem a pilantragem do moço, não acreditavam mais em suas palavras. Não é pra menos: ele aprontou poucas e boas com os falsos bilhetes premiados da Loteria. Mas vamos pensar: eu sei que, historicamente, o povo da roça sempre foi caracterizado como jeca, sem saber direito dos “trem” – aqui em Minas Gerais (MG), tudo é “trem”, menos o transporte coletivo chamado “trem”. Por favor, não reparem! -, contudo, não é possível esse exagero, em abundância, Walcyr Carrasco! Haja santa paciência de nós, fãs da novela! Ninguém é tão inocente assim, não. Até mesmo porque, direto e reto eles saíam de lá, em direção às festividades de Piracema, cidade mais próxima das redondezas. Aliás, aproveitando a deixa, vou fazer um momento desabafo: nunca na minha vida, senhor Walcyr Carrasco, eu irei lhe perdoar por ter feito a Mafalda terminar a trama, casada com o Zé dos Porcos (Anderson Di Rizzi de Amor à Vida). Onde já se viu um “trem” desses, pessoal?! Até na vida real, o coração de Camila Queiroz e de Klebber Toledo bateu mais alto, e os dois se casaram, em uma cerimônia linda, com todos os familiares e os amigos, em Jericoacoara, no Ceará (CE), em 2018. Francamente, gostaria que “vosmecê” me mostrasse, por gentileza, em qual parte estava a “química” entre o cuidador dos porcos, do chiqueiro, e a moça alta e “pura”, filha de Quinzinho (Ary Fontoura de Orgulho e Paixão), afinal, eu não vi em lugar algum, tal característica. Idem, a situação entre o Romeu e a dançarina Sarita (Juliane Araújo de Acerto de Contas), neta do Dr. Josias (Flávio Migliaccio de Hebe: A Estrela do Brasil), no último capítulo! #xatiado 

Outra personagem de destaque na história é Maria (Bianca Bin de O Outro Lado do Paraíso), que, de coadjuvante, pegou todo o protagonismo que, à princípio, seria de Filomena. Todavia, Débora Nascimento, ao estar a todo momento, com aquela “cara de peixe morto”, vulgo, de sonsa, não alavancou o carinho do público. Já no caso de Bianca, ela deu vida à uma jovem destemida, abandonada pelo pai, Severo (Tarcísio Filho de Sangue Bom), após descobrir a sua gravidez, tendo que  trabalhar como “empregadinha”, para sustentar sua irmã Alice (Nathália Costa de A Vida da Gente) e, meses depois, Aninha, sua pequena bebê, que perdeu o pai, Leandro (Pedro Brandão), antes mesmo do nascimento, devido a um acidente automobilístico. Apesar de todos os percalços que a vida lhe pregava, Maria, sempre, se mostrou uma mulher guerreira, sem medo de enfrentar a tudo e a todos. E nós vimos essa característica da moça, ao não se deixar abater pelo desprezo de seu pai ou pelas tramóias inacabáveis de Sandra (Flávia Alessandra de Salve-se Quem Puder), sua cunhada e sobrinha da dona que lhe deu abrigo, emprego e comida, Dona Anastácia.

Por falar na empresária da fábrica de sabonetes Aroma, patrocinadora da famosa radionovela, Herança de Ódio, inclusive, transmitida, na época, pela Rádio Globo,  e hoje, podendo ser ouvida, nos Podcasts, no site do Gshow, além de Sandra, ela tem Celso (Rainer Cadete de Des(Encontros)), como sobrinho. Ele, antes de se apaixonar por Maria, vivia a se divertir, nas noites, dançando e bebendo, todo estilo “mauricinho”, com o dinheiro de “titia”, no “Taxi Dancing”. Foi uma alegria vê-lo mudar, ao longo dos capítulos, tornando-se um homem melhor, não só para com ele próprio, como, também, para com Maria, e para com os seus familiares, ajudando, até mesmo, o Dr. Araújo (Flávio Tolezani de Corações Feridos), nos negócios internos da fábrica, como as exportações de sabonetes para o mercado europeu. Sandra, não gostou nada dessa mudança e ficou “pé da vida”, afinal, tinha o irmão como um aliado para matar “titia” e ficarem, juntos, com toda a fortuna. É muita maldade para um só ser humano, né?! Ainda bem que ele se redimiu e ficou “bonzinho”. Rainer Cadete, o mundão é seu, meu filho! O Brasil te ama! 

Já no que diz respeito ao setor da vilania, Sandra e Ernesto (Eriberto Leão de Ilha de Ferro) formaram uma dupla pra lá de detestável, entretanto, interessantes, de acompanhar, a cada tramóia. E olha que foram muitas: roubaram o medalhão de Candinho; ele se passou como o falso filho de “titia”; afastaram Filomena do caminho; levaram o Detetive Jack (David Lucas de Fina Estampa) para a China; ela quase se casou com o verdadeiro Cândido Policarpo Sampaio dos Santos; ambos tentaram separar Maria de Celso… Ufa! E olha que a lista não acabou! Isso tudo era justificado pela ambição da moça em ter a fortuna de sua tia, sem querer dividir com ninguém, para viver na luxúria ao lado de seu companheiro. Alguém duvida que Sandra não o amava, de jeito nenhum, e só o estava usando para benefício próprio, com os seus planos atrás de planos? Pelo menos, o que está sendo bom em (re)assistir é que, quando eles chegam ápice de cada tentativa, de se darem “bem”, alguma coisa “sai fora dos trilhos” e somos, assim, agraciados com o “bem” vencendo o “mal”. E tudo isso, graças ao saudoso e inesquecível trabalho, do diretor, Jorge Fernando (Ti Ti Ti), que, infelizmente, faleceu em outubro do ano passado, devido à uma parada cardíaca. Apesar dessa recente perda, ele deixou um trabalho exemplar, de muito “jogo de cintura”, sem capítulos cansativos, e sim acolhedores, de formato leve e inspirador para com o público. E é, exatamente, isso que nós, telespectadores, estávamos precisando, em tempos de quarentena: alívio cômico dentro de casa, com tudo de mais exagerado possível, desde guerras de comida até quedas no chiqueiro. Muito bom, não é mesmo?!

Por fim, devo destacar as belas paisagens, nas redondezas da Fazenda, e as Trilhas Sonora e Instrumental, sempre comoventes e animadas. De “Êta Mundo Bão” até “aquele reboliço”, da música de abertura, fomos agraciados por belas canções, nas cenas dos personagens, pois “Tudo Que Acontece De Ruim É Para Melhorar”, fazendo com que a novela fosse e continue sendo, obviamente, um grande sucesso para a teledramaturgia brasileira, em qualidade e em audiência. Sem contar, é claro, com a perfeita caracterização, tanto do figurino quanto da “Cidade Cinematográfica” e os diálogos bem construídos e fluídos. Destaque para o fofíssimo Claudinho (Xande Valois de Se Eu Fechar Os Olhos Agora), garoto maltratado pela sua madrasta Ilde (Guilhermina Guinle de Paraíso Tropical) e a carismática Diana (Priscila Fantin de Sete Pecados), ao depenar o seu “pato”, no caso, Severo.

Êta Mundo Bom! vai encerrar a sua jornada, de reprise, no Vale a Pena Ver de Novo, em meados de setembro, porque, a cada dia, são exibidos dois capítulos, em sequência, dos 190 totais, sendo, mais de uma hora, o seu tempo diário, de exibição.

Ah, e um recado para os noveleiros e Série Maníacos de plantão: A próxima novela a ocupar o espaço, nas tardes da Rede Globo, como divulgado, na última sexta-feira, dia 17 de julho de 2020, será Laços de Família, sucesso de Manoel Carlos (Mulheres Apaixonadas), exibida em 2000, tendo, no elenco, grandes nomes, como Vera Fischer (O Clone), Reynaldo Gianecchini (Da Cor do Pecado), Marieta Severo (A Grande Família) e Juliana Paes (A Força do Querer).

Há de se lembrar que tal novela marcou a carreira da atriz Carolina Dieckmann (Treze Dias Longe do Sol), afinal, ela teve a sua cabeça raspada, devido ao tratamento de um câncer – leucemia – de sua personagem Camila. Uma cena clássica e emocionante, você, caro leitor, não vai querer perder, certo?!

Então, anota aí: o Vale a Pena Ver de Novo vai ao ar, de segunda a sexta-feira, a partir das 16h30, com término às 18h, em média. Não perca!

REVISÃO GERAL
Nota:
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critica-reprise-de-eta-mundo-bom-nos-tempos-atuais-e-um-alento-para-a-vida-dos-telespectadores-meioraÊta Mundo Bom!, com certeza, entra para a lista de maiores sucessos do “Horário das Seis”, afinal, leveza e diversão são as marcas de Walcyr Carrasco, sempre preocupado e respeitoso com a opinião do público, que o acompanha, em seus trabalhos.