Quando terminei de assistir ao filme O Poço na Netflix, a primeira certeza que tive foi a de que seriam várias as conclusões interpretadas dessa história, como resultado de diferentes perspectivas. Por exemplo: um psicólogo, provavelmente, avaliaria a comportamento animalesco e primitivo da sociedade em suas diversas camadas hierárquicas de um bando, (bonito isso!). Um filósofo, procuraria entender o contexto imaginária e o realístico de forma a associá-los dentro de fatos e analogias com a evolução da sociedade. Um geopolítico, sem dúvidas, estudaria a divisão de classes e o impacto de sociedades capitalistas e comunistas para este conceito. E, finalmente, o blogueiro (Eis uma aqui!), vai tentar misturar todas essas visões em um texto de 2 páginas e “pagar de sabichão do fim do dia”.
Brincadeiras à parte, vou tentar não seguir por esse caminho. Acho que existe muita complexidade e pouco conhecimento, (da minha parte), para ir muito longe. Porém, é sempre bom abrir um espaço para discussões.
Então aqui vamos nós…
Logo no começo do filme, temos a narração de fundo que afirma que “existem apenas três tipos de pessoas: as de cima, as de baixo e as que caem”. Tenho a sensação que essa frase nos leva a um caminho inicial de associar o contexto do poço sobre uma premissa mais direcionada à representação das classes sociais do capitalismo. No começo eu também imaginei que poderia ser exatamente isso, mas com a evolução do filme, percebe-se que essa seria apenas uma de suas camadas.
De forma geral não vejo essa como a premissa do filme. Nesse caso, concordo um pouco mais com o que o Michel Arouca disse no Derivado Cast sobre o fato de vivermos “mais ou menos” em uma sociedade baseada na meritocracia e não exclusivamente na “sorte”, como é o caso dos níveis ali apresentados, onde existe aleatoriedade de se estar “em cima” ou “embaixo” a cada mês.
Interpreto que o Poço seja imaginário, uma passagem após a morte, mas não necessariamente o purgatório. Imagine o seguinte…. Cada religião descreve a vida após a morte de uma maneira diferente, o purgatório seria exclusivamente do Catolicismo e aprendemos durante o Catecismo e o preparatório da Crisma de que o Purgatório é uma condição de existência.
Desta forma, interpreto o Poço como algo um pouco mais próximo do Inferno de Dante, porém com mais círculos do que 9. Assim, entendo que as pessoas de cima são aquelas que ascendem, embaixo são as almas do poço e as que caem são as almas condenadas. Até a maneira de se chegar nos níveis são associados com a maneira como Dante chega no Limbo, (simplesmente acorda lá).
No nível 48 Goreng se depara com seu primeiro contato, Trimagasi. Vejo o velho como a melhor representação contemporânea do comportamento da humanidade. Não o vi como alguém que está ali para explicar, na verdade vejo no personagem a perfeita expressão egoísta e egocêntrica. Alguém que entende o mundo como o contexto de que os mais fortes sobrevivem, escolheu a faca porque a vida dela tem mais valor do que a do próximo e as condições dos outros não lhe importa.

O velho aceita o mundo como ele é e alimenta o “sistema” para continuar a ser desta maneira, porque a conformidade é garantia da própria estabilidade. Ele se revolta quando descobre que Goreng será “bonificado” após concluir sua pena, enquanto ele não ganha nada. A sua pena é por ter matado alguém sem qualquer motivo, simplesmente porque não aguentava mais ser a vítima do sistema. Perceba que ele não estava inconformado com o sistema, ele estava revoltado por ter sido prejudicado pelo sistema.
De fato, ao acompanhar o comportamento de todos os personagens, os percebo como a representação da classificação da condição humana, ou popularmente conhecido como a representação dos pecados capitais. Os setes pecados capitais são interpretados pela Igreja Católica como os vícios da humanidade que deve ser extinguido como um “bom Cristão”, de forma que se deve aprender e controlar os próprios instintos.
Dentro do confinamento, a ideia é de que o protagonista será influenciado pelas pessoas que ele convive, ainda que não cometa todos os crimes capitais, ele vai presenciar todos e ceder aos instintos mais fortes. Então, enquanto está com o velho ele “aceita” o nível 48 e segue sua vida sem se preocupar com o resto, o que o torna tomado pela soberba. Traído pelo parceiro no “nível 171” e salvo pela moça que se chama Miharu ele é vestido pela ira, mantando o Trimagasi.
Já no nível 33, Goreng torna-se mais racional e perceptivo aos problemas e dificuldades, como sua companheira Imoguiri, mas ela desiste e tira a própria vida no nível 132. Ainda que não seja nada óbvio, essa seria a preguiça. Os outros pecados são constantes e sutis, mas se apresentam em algum momento do filme, como a gula exposta em todos os esfomeados que sobem de nível. A inveja de querer o nível acima, a luxúria tanto do casal quanto do próprio Goreng e, finalmente a avareza enquanto ele desce os níveis com Baharat.
Os pecados capitais não representam apenas o comportamento instintivo e inadequado do Cristão, ele também foi “criado” com o propósito de representar a melhor forma de viver em respeito aos dez mandamentos, aqueles escritos no Livro do Êxodo. Entendendo assim que se não há o respeito em não se cometer estes 7 pecados a tendência é que os mandamentos de Deus sejam desrespeitados.

Eu não sei se você lembra daquele filme com o Christian Bale representando Moisés e conversando com Deus após a fuga e travessia pelo Mar Vermelho, ele comenta que seria necessário tomar providencias para não se repetir o que houvera no passado, resultando no estabelecimento de Leis que moldariam essa nova sociedade. Moisés e seu povo fugira do Faraó Ramses II, o nome do cachorrinho salsicha de Imoguiri.
Nesse caminho das histórias bíblicas, vejo Baharat como “Aquele que Acredita”, diante das aventuras de Goreng o personagem de um credor surge para lhe trazer novas perspectivas de esperanças. Goreng cedeu a todos os crimes dos outros prisioneiros, então acredita que pode mudar aquela sociedade sobre o viés da ciência, enquanto Baharat aceita a aventura movido por sua fé.
É interessante pensar que se há algum viés sobre a premissa de capitalismo e socialismo, partilhar a comida seria investir no segundo conceito, mas ele também não funciona. Na verdade, Baharat deveria representar a oposição da ira acaba sendo tomado pela violência quando não consegue a aceitação da partilha por parte dos outros.
Então chegamos na sobremesa intocada e na criança. Entendo que a Panna Cotta é a “especialidade” daquela mesa, por isso toda a dedicação da preparação. Ela pode simbolizar a perfeição, mas de forma geral, vejo a sobremesa apenas como uma ferramenta de se alcançar a esperança, a garota.
Vejo nesse cenário que a criança é a representação da fé, sempre jovem e inocente, e ela está no último nível porque ali naquele lugar ela foi esquecida. Ela está esfomeada e por isso ela se alimenta da Panna Cotta. Vejo que quando Goreng alimenta a esperança, ele ascende ao que é necessário para aqueles que “estão lá em cima”. Nunca houve propósito de que ele saísse dali, porque ele cedeu aos pecados do lugar. Além disso, a primeira mensagem do filme nos ensina que ninguém subiria.
A complexidade e possibilidade de diversas análises de O Poço é o que faz dele um excelente filme, daqueles que gerará discussões por um bom tempo e que há muito não vimos. É um filme nitidamente barato e simples em sua produção, mas que garante um absurdo de material alimentado pelos diálogos e estruturação contextual. Desta forma, a única coisa que me incomodou um pouco foi o excessivo de violência, mas ela não é gratuita e tem proposito de existir. Não vejo como não dar cinco estrelas e esse excelente trabalho.














