Não é segredo pra ninguém que a Netflix se especializou em fazer filmes leves, que não necessitam de grande esforço do espectador para a compreensão da história. O nicho tem dado certo, uma vez que o serviço de streaming está se responsabilizando por revitalizar o gênero de comédia, seja mais voltada para o romance (O Plano Imperfeito), núcleo adolescente (todos os filmes do Noah Centineo) ou até familiar (Dumplin’). A nova aposta da gigante do streaming é puxada para o lado de comédia investigativa. Mistério no Mediterrâneo traz uma dupla que também é nostálgica para os fãs de comédia: Jennifer Aniston e Adam Sandler, que já contracenaram em Esposa de Mentirinha, uma das comédias de maior sucesso da década.
Mistério no Mediterrâneo começa às vésperas das bodas de 15 anos do casal Spitz: Nick (Sandler) é um policial rabugento, que foi reprovado no teste de detetive mais de uma vez. Audrey (Aniston) é uma cabeleira desgostosa com o marido, que em seu primeiro ano de casamento prometeu-a uma viagem para a Europa, até hoje não realizada. Finalmente, Nick cumpre sua promessa, e a leva para viajar. No avião, Audrey faz amizade com o bilionário Charles Cavendish (Luke Evans), que os convida para uma temporada no iate do tio, Malcom Quince (Terence Stamp).
No barco, há uma dúzia de parentes e conhecidos de Charles: a atriz de cinema Grace Ballard (Gemma Arterton), o filho indigesto de Malcom, Tobey (David Williams), a ex-noiva de Charles, Suzi (Shiori Kutsuna) que o largou pelo tio, entre outros. À noite, Malcom faz uma reunião para anunciar que retiraria todos os presentes do testamento, e deixaria tudo para Suzi. As luzes são apagadas e Malcom é assassinado. Temos então um crime configurado, com vários possíveis suspeitos.

O filme faz o uso de todos os clichês narrativos das histórias de mistério. A estrutura, por exemplo, conta com três atos bem divididos: introdução e realização do crime, em seguida, a investigação, e por fim, o desfecho. Essa é a mesma segmentação feita em livros da Agatha Christie, por exemplo. Falando neles, o fanatismo de Audrey com obras de mistério faz com que ela tenha percepções óbvias sobre o crime, chegando a servir como uma rememoração do gênero e todos os estereótipos que ele envolve.
O filme não é excelente, mas cumpre o que propõe. É uma história descompromissada que alude aos arquétipos tradicionais do mistério, inclusive na natureza excêntrica, mas reservada, dos suspeitos. Dentre eles, destaco as atuações propositalmente caricatas, pois são as que melhor encaixam com o tom de tributo do longa. À exemplo de Gemma Arterton, que nos entrega uma Grace extremamente exagerada; suas caras e bocas são hilárias, dignas de atrizes iniciantes com pouca noção de excesso. Foi a personagem que mais me agradou.

Sobre o casal principal, nenhum dos atores se arrisca muito. Entretanto, para os que não são fãs do estilo humorístico de Sandler, Mistério no Mediterrâneo deve ser mais suportável do que filmes como Gente Grande ou Cada um Tem a Gêmea que Merece, uma vez que o ator está mais contido em seu papel, até pela natureza carrancuda do personagem. Já Aniston interpreta a mesma figura cômica de todos os seus filmes, de maneira irônica e levemente azeda. A química entre eles é inofensiva; não é ruim de modo algum, mas está longe de entrar para a lista de melhores dinâmicas do cinema.
Ao mesmo tempo em que não tem nenhum aspecto estupidamente ruim, a película não consegue ser verdadeiramente boa. É um filme enlatado: você assiste, ri de algumas cenas, e no dia seguinte se esquece dele. Não acho que havia alguma intenção de fugir muito da fórmula das comédias de Adam Sandler, mas devido à pegada satírica que a premissa oferece, seria vantajoso para o roteirista, James Vanderbilt, buscar subverter as possibilidades da comédia investigativa. Afinal, trata-se do roteirista do excelente Zodíaco. Ele opta, infelizmente, em ficar no lugar comum.
> A MITOLOGIA SECRETA DE DARK!
Em conclusão, Mistério no Mediterrâneo é um filme com fatores que atraem o público, isso se comprova através das 30 milhões de visualizações que o longa obteve nos três primeiros dias na plataforma. Pena que a equipe não parece ter se interessado em sair um pouco da zona de conforto na hora de elaborá-lo.













