Jinn, estreou no dia 13/06 e é a primeira série árabe original da Netflix, criada e produzida por Mir-Jean Bou Chaaya, Elan Dassani e Rajeev Dassani em parceria com Christian Bou Chaaya e Lucien Bou Chaaya. A série, que se passa na Jordânia, é um drama adolescente sobrenatural estrelada pelos jovens atores Salma Malhas/Mira; Hamzeh Okab/Keras; Sultan Alkhail/Yassin; Aysha Shahaltough/Vera; Zaid Zoubi/Hassan; Yasser Al Hadi/Fahed; Mohammad Nizar/Nasser; Mohammad Hindieh/Omar; Karam Tabbaa/Jameel; Hana Chamoun/Ola e Ban Halaweh/Layla.

A série acompanha um grupo de estudantes adolescentes vítimas de uma tragédia sobrenatural ao fazerem uma excursão escolar para as ruinas de Petra, cidade histórica e arqueológica localizada ao sul da Jordânia. A partir desse evento trágico (morte de um dos estudantes), o grupo passa a ser atacado por uma entidade espiritual (Jinn) e precisa impedir que os Jinns destruam o mundo.

Jinn – Yassin, Vera, Mira e Keras

Antes de adentrarmos propriamente no conteúdo da série, vamos conhecer um pouco da Jordânia, país de origem da série estreante da Netflix, que tem Amã como capital e a sua cidade mais populosa. Essa contextualização vai ajudar na compreensão dos motivos que levaram o povo desse país a não gostarem das decisões artísticas e dos encaminhamentos da narrativa apresentada nessa primeira temporada de Jinn.

A Jordânia na verdade se chama oficialmente Reino Haxemita da Jordânia, faz fronteira com a Arábia Saudita ao leste e sul, com o Iraque ao nordeste, com a Síria ao norte, com Israel e Palestina ao oeste e o Mar Vermelho ao extremo sul. A Jordânia está estrategicamente localizada no cruzamento da Ásia, África e Europa, portanto, um dos membros fundadores da Liga Árabe e, por isso, considerado um dos lugares mais seguros da Oriente Médio. O Sunismo (Islã Sunita) é a religião dominante na Jordânia que possui cerca de 92% da sua população muçulmana autodeclarada como Sunita e os demais seguem o Islamismo. Os sunitas basicamente acreditam nos ensinamentos de Maomé e dos quatro califas ortodoxos, são considerados moderados e acreditam na união da comunidade islâmica através da lei e da persuasão, consequentemente, não apoiam os extremismos de grupos como os Xiitas e os Carijitas. Dito isso, passamos a compreender que a série adolescente Jinn, muito aguardada pelo público árabe, apesar das liberdades criativas de seus roteiristas e produtores, sempre esteve atrelada a uma série de etiquetas filosóficas e sociais da região representada mesmo antes de ser concebida.

Jinn/Excursão escolar

Foi exatamente nesse ponto que a série teen encontrou o seu maior obstáculo, já que antes mesmo da sua estreia já havia criado uma grande expectativa sobre a forma como certas questões sensíveis para o povo daquela região seriam abordadas no conteúdo apresentado nos seus cinco episódios. Apesar de ser considerado o país mais cosmopolita do mundo árabe, a Jordânia ainda baseia a sua cultura na religião e na tradição, por isso,  a escolha da temática abordada na série adolescente não agradou essa fatia da sociedade, muito menos a forma como seus adolescentes foram retratados, fazendo uso de bebidas alcoólicas, com um vocabulário baixo, recheado de palavrões e com as garotas vistas como ‘mundanas’.

Jinn inicia a sua história nos mostrando a excursão de um grupo do colegial conduzido pela Professora Ola, onde Mira e a sua melhor amiga, Layla, debatem sobre as suas relações afetivas com seus respectivos companheiros. A primeira reclama do comportamento do seu desafeto, Tareq, o valentão da escola, e acaba brigando com o seu namorado Fahed (ambos os rapazes são retratados de forma machista, explosiva e irritante), já Layla entra em embate direto com seu ex-namorado, Nasser, deixando o clima da viagem bem tenso. No outro extremo do episódio, a turma de Tareq, composta por Omar e Nasser, agride Yassin, o humilha e o joga em um buraco nas ruínas de Petra. Mais tarde, após ser picado por um escorpião, Yassin é resgatado pela misteriosa Vera. Tanto Yassin quanto Vera se juntam aos demais estudantes, no entanto, o garoto agredido, humilhado e com bastante ódio deseja profundamente a morte do seu algoz, Tareq.

À noite, durante uma reunião banhada a bebidas e cigarros, Tareq despenca do alto da montanha e acaba morrendo de uma forma muito bizarra, gerando sentimentos antagônicos na comunidade escolar. Sem saber, Yassin, convoca Vera, um Jinn malvado e egoísta, responsável pelos acidentes misteriosos. Enquanto Mira, também de forma inexplicável, convoca um outro Jinn, Keras, entidade bondosa e protetora. O estranho é que as possessões acontecem de forma inexplicável e sem o menor aviso prévio. Por exemplo, na cerimônia de homenagem póstuma a Tareq, um Jinn se apossa de Nasser o fazendo tentar suicídio. Hassan, primo de Layla, parece ser o único a creditar na existência de Jinns e ele meio que funciona como a parte didática da série, já que o personagem é o único responsável por apresentar o mínimo de informação sobre a história dos Jinns.

Jinn/ Vera e Keras

Passamos a ver a partir daí uma relação quase instantânea entre Mira e Keras, não há o mínimo aprofundamento e não existe uma única razão para ela confiar nele, acreditar que é a escolhida e se tornar a sua parceira nessa jornada fantástica. Em certo ponto da trama passamos a nos interessar mais pelo desenvolvimento da relação entre Vera e Yassin que pela narrativa da protagonista, já que o rapaz vive em um lar desestruturado, com um padrasto abusivo e alcoólatra, envolto em agressões e dívidas nas mensalidades da escola. Eles até tentam aprofundar Mira citando um acidente que vitimou a sua mãe e o seu irmão, mas nada disso é mostrado nem mesmo em flashback para termos à dimensão do drama da personagem. O pai de Mira é um dos melhores personagens da trama, compassivo, amável e preocupado com a filha. Já Hamzeh Okab/Keras, apesar de muito bonito, é um ator bastante inexpressivo e não agrega muito na construção do seu personagem, o Jinn benevolente, tornando Aysha Shahaltough/Vera, uma personagem mais palatável e interessante de acompanhar.

A série dá infinitas voltas em torno do mesmo tema sem ao menos tentar sair do lugar, tornando a experiência pouco empolgante, sem reviravoltas e bastante superficial. Não há surpresas no seu último episódio, apesar do cliffhanger proposto e do final aberto, indicando que haverá uma possível segunda temporada, Jinn não é envolvente o suficiente ao ponto de queremos ver o que irá acontecer com esses personagens um pouco mais adiante.

A crítica no mundo árabe classificou a serie como ocidentalizada e hollywoodiana demais. Para os árabes a série apenas usou como pano de fundo um elenco árabe em locações árabes para contar uma história trivial de adolescentes que poderia ser contada por qualquer outra série, quer seja  americana, britânica ou alemã, já que não tinha a intenção de mostrar a cultura deles e muito menos honrar as suas tradições ou a sua filosofia. A ala menos conservadora achou louvável a iniciativa da Netflix em criar conteúdo original árabe, abrindo espaço mundial para esse tipo de produção, contudo, também não aprovou a forma como o show foi conduzido.

Jinn – Cidade de Petra

Embora eu ame série teen e adore série sobrenatural, admito que percebi uma fragilidade muito grande no roteiro, que é de uma pobreza narrativa absurda; verifiquei uma inexperiência muito grande por parte do elenco e isso compromete a maior parte das cenas onde o drama precisa ser evidenciado; apesar da belíssima fotografia e da boa trilha sonora, os cortes e a montagem confusa de cena não ajudaram muito na condução da trama; os efeitos relacionados aos Jinns são repetitivos e fracos se levarmos em conta que estamos falando de entidades sobrenaturais com poderes ilimitados, fora isso,  o teor místico e sobrenatural se perdeu em meio a pouca profundidade dos personagens centrais. Por exemplo, não conseguimos entender ao longo dos cinco episódios porque Mira é a escolhida e somente ele pode salvar o mundo do perigo em questão – coisa que ela nem consegue fazer no último episódio. Não conseguimos entender como o corpo do hospedeiro de Keras sobrevive ao desgaste após ter sido desintegrado ou o motivo que levou Mira, uma estudante sensata, a levar bebidas alcoólicas para o passeio da escola. Outro ponto que carece explicação é o fato de a Professora Ola ter acreditado na história de Hassan sobre Jinns a ponto de viajar até Petra com ele e Omar para investigar a morte de Tareq. Se ao menos a série tivesse nos mostrado um pouco da história pretérita dos Jinns ou tivesse nos mostrado a crença do povo árabe nessas criaturas sobrenaturais, talvez tudo fosse mais crível e realista.

A representação da entidade espiritual é outro ponto frágil desse roteiro, a população muçulmana acredita nesse tipo de entidade, eles creem que os Jinns habitam a terra mesmo antes da humanidade, seriam feitos de fogo, invisíveis aos nossos olhos, podem nos ouvir e serem ouvidos por nós e, igualmente a qualquer humano, podem ser bons ou maus. Daí, quando avaliamos a construção dos personagens Keras e Vera, dois Jinns antagônicos, percebemos que não sabemos nada sobre eles, nem mesmo de onde vieram, a forma como são convocados ou a forma como possuem os corpos humanos. Começamos e finalizamos a série sem sabermos absolutamente nada sobre essas entidades.

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Enfim, Jinn apresenta em sua temporada inaugural, atuações insonsas e limitadas, roteiro inorgânico e frágil e uma classificação TV-MA (acima de 17 anos) no TV Parental Guidelines, por causa da sua linguagem inapropriada intensa – minimizada em algumas dublagens e legendas – e por conter cenas de violência consideradas extremas, como a tentativa de suicídio de Nasser. A série talvez mereça uma chance por ser a primeira produção desse porte em língua árabe na Netflix, por ter sido produzida pelo Líbano e pela Jordânia, estreantes nesse ramo, por suas estonteantes fotografia e locações e por ter apenas cinco episódios com cerca de trinta minutos cada um deles.

Curiosidades:

A Princesa Rym al-Ali, esposa do príncipe Ali bin Hussein da Jordânia, compareceu ao evento do lançamento da série em Amã.

Kelly Luegenbiehl, vice-presidente de equipamentos internacionais da Netflix, participou do evento de lançamento da série e preveniu os presentes de que esses jovens atores serão estrelas mundiais muito em breve.

Sultan Alkhail, que interpreta Yassin, nunca havia feito nenhum trabalho como ator, assim como a maioria do elenco que foi garimpado em grupos de teatro, escolas e faculdades através de audições públicas.

Jinn, está disponível no serviço de streaming em 190 países, em sete idiomas, incluindo francês, hindi e português. E é legendado em mais 20 idiomas.

Mir-Jean Bou Chaaya, diretor de Jinn, tem apenas trinta anos, é um cineasta formado no Líbano, dirigiu o filme Very Big Shot/Um Grande Plano, que foi selecionado como representante de seu país ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2017.

REVISÃO GERAL
Nota:
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critica-jinn-eles-podem-ouvir-o-seu-chamadoA série talvez mereça uma chance por ser a primeira produção desse porte em língua árabe na Netflix, por ter sido produzida pelo Líbano e pela Jordânia, estreantes nesse ramo, por suas estonteantes fotografia e locações e por ter apenas cinco episódios com cerca de trinta minutos cada um deles.