A nova série da HBO em parceria com a BBC, Industry, foi comparada, desde o princípio, com Mad Men. Há razão de ser: a radiografia de um ambiente de trabalho caótico em que muito dinheiro é produzido e as pessoas parecem ser conduzidas exclusivamente pelo capital, possuem paralelos em ambas as séries. Entretanto, a comparação poderia existir com outra série da própria HBO: Girls. Embora de forma menos clara que com Mad Men, Industry também carrega muitas semelhanças com a criação de Lena Dunham. As duas séries lidam com jovens na faixa dos vinte e poucos anos que estão buscando se estabelecer no mercado de trabalho.

Os cinco jovens protagonistas de Industry: Harper, Yasmin, Robert, Gus e Hari estão passando por uma seleção no banco de investimento Pierpoint. Embora Harper seja a personagem com mais tempo de tela, os dramas de todos os personagens são explorados em maior ou menor grau. Da turma que entrou com eles, apenas metade será selecionada para continuar seus trabalhos no banco. Assim, os jovens estão presos em um contexto de enorme pressão pelos meses seguintes em que suas vidas profissionais podem ser definidas para sempre.

A relação com Girls se estabelece pelo interesse em apresentar um recorte da juventude contemporânea. Não por acaso, foi a própria Lena Dunham quem dirigiu o primeiro episódio de Industry – justamente, para apresentar os conflitos dos personagens que seriam desenvolvidos ao longo da série. Poucas pessoas trabalham tão bem com as inconsistências dos jovens adultos como Dunham. Contudo, há uma diferença basilar entre as duas séries. Não existe qualquer sonho ou utopia juvenil em Industry. Ao contrário das personagens de Girls que tinham, em maior ou menor grau, um desejo real de confrontar o status quo, buscar a satisfação pessoal e ter a felicidade como meta de vida, para os jovens de Industry, apenas o capital é foco de atenção.

A série mergulha nas relações pessoais que se solidificam no ambiente do banco de investimento e investiga como a supervalorização do dinheiro pode comprometer outras etapas da vida. Assim, fica explícito como as amizades, as mentorias, o sexo, as brigas, os segredos e etc. são construídas pelo grupo de pessoas que está adentrando um ambiente único, conhecido por ser uma ótima oportunidade de emprego, porém que nunca é amistoso e os transforma aos poucos. Nesse sentido, Industry é corajosa em não se furtar em apresentar conflitos de grande tensão que, muitas vezes, perduram em todos os oito episódios, como é o caso da relação de trabalho entre Harper e Eric, seu chefe.

A série se passa em Londres, porém a norte-americana Harper deixou seu país de origem para buscar uma vaga no Pierpoint. Com uma vida pessoal turbulenta e  problemas na faculdade, a ida para Londres foi uma fuga e o banco uma oportunidade que ela manterá a qualquer custo. Logo que conhece Eric, ela se destaca, pois ele a vê como uma jovem talentosa, promissora e determinada e ela o vê como um trampolim para a empresa porque passa a ter funções mais importantes do que a maioria de seus colegas novatos.

A relação entre eles é muito mais áspera do que pode parecer à primeira vista. Há um abuso de poder que Eric tenta não transparecer, mas que explode nos momentos de maior tensão. Faz parte do núcleo duro de Industry destacar como as relações de trabalho ainda são abusivas, mesmo que subterfúgios sejam criados para que essas ações não transpareçam.

Certamente, Harper não aceita a forma como é tratada, embora perceba a necessidade de esconder o que sente devido à oportunidade de alçar ao emprego desejado. Nesse sentido, a moça é o oposto de Hannah, em Girls, que saiu de diversos empregos por não aceitar a forma como era tratada. Ela sempre manteve a chama acesa de poder trabalhar com literatura: dizia que seria “a voz de uma geração”. Entretanto, os jovens que compõem a nova turma do Pierpoint, são o pólo oposto do que Hannah entendia como seus pares. A série criada por Mickey Down e Konrad Kay estabelece uma narrativa incomum. A juventude não costuma ser observada em seus ambientes de trabalho, especialmente em espaços em que há um enorme capital de giro e uma ascensão no mercado de trabalho parece provável.

Assim como em Girls, há diversos momentos em que o sexo se destaca. Contudo, se na série de Dunham, a descoberta do amor em um ambiente caótico como Nova York era uma temática presente, em Industry não é da mesma forma. O modo como os desejos são manifestados buscam claramente uma situação de poder. É o caso de Yasmin e Robert. A relação dos dois se constrói, basicamente, por quem teria o controle da situação. Ela tem namorado – ele sabe -, os dois pouco se tocam, porém utilizam o celular como forma de chamar a atenção um do outro.

Assim como o capital em um banco de investimentos é virtual, os relacionamentos também são. O uso do celular e dos laptops são essenciais até na hora dos prazeres (outrora) carnais. Como se os aparelhos eletrônicos fossem a primeira camada de pele dos jovens da segunda década do século XXI. A relação de Yasmin com o namorado, por outro lado, é consideravelmente mais distante. Mesmo nos momentos em que mantém relações sexuais, ela o fotografa para enviar para Robert, sem pedir autorização. Os limites das traições também são colocados à prova no ambiente virtual.

Ao contrário de Harper, Yasmin é uma menina rica que cresceu em um bairro de classe média alta de Londres. Durante o seu início no Pierpoint sofre diversos assédios morais por parte do chefe, que parece fazê-lo apenas pelo prazer de demonstrar que ela é inferior na cadeia de relacionamentos do banco. Como a sua estadia no emprego depende da aprovação direta de seus superiores, a moça aceita o papel de “menina do almoço”, enquanto vislumbra a promoção. A forma como é tratada por seus chefes é replicada com o namorado e com Robert, buscando sempre se sentir superior aos dois. Dessa maneira, o banco vai se entranhando na personalidade de Yasmin. Inclusive, no penúltimo episódio, ela fala para o namorado: “eu não sei porque quero tanto humilhar você”, depois de ser reiteradamente agressiva com o rapaz em uma festa que eles organizam. Cria-se uma estrutura de relacionamento doentia muito difícil de interromper. A forma como são tratados por seus chefes é a mesma como eles tratam as pessoas ao redor.

As festas são parte fundamental de Industry. Há uma porção ao longo dos episódios. Elas parecem uma continuação natural da vida no banco. Mesmo que pareçam o oposto porque a diversão não faz parte do dia-a-dia. Todavia, as festas têm, em geral, como maior motivação angariar novos clientes. Assim, tudo faz parte do trabalho e se o capital gira vinte e quatro horas por dia, as pessoas que trabalham na área giram junto.

Então, para sobreviver a rotina massacrante de uma jornada de trabalho que não cessa, algo que se torna comum são as drogas. Seja o consumo excessivo de álcool ou de substâncias ilegais. De forma geral, são drogas sintetizadas para deixar alerta e evitar o sono ou a fadiga. As pessoas só conseguem encontrar a diversão, o prazer, quando estão fora de si. Além das drogas noturnas, também existem as drogas diurnas: fármacos e energizantes para compensar uma noite mal dormida durante o trabalho. E essa bola de neve cresce vertiginosamente.

No final do quinto episódio, o desfecho apresenta todos os protagonistas absolutamente esgotados pela vida no banco. Contudo, abandonar o Pierpoint nunca parece uma opção. Como se o banco fosse a única possibilidade na vida, tão incrustado neles que não haveria outras possibilidades futuras.

Gus é o personagem mais misterioso. Altamente seguro de si, não parece um novato como os outros, age como se soubesse que vai ser contratado assim que a peneira encerrar. Seu relacionamento com outro homem que está a mais tempo na empresa, porém, estremece a segurança do rapaz. Sexualmente, busca a aceitação de alguém que tem um cargo superior a ele. Seu parceiro, porém, é casado com uma mulher e sente a necessidade de manter as aparências. Os preconceitos também são bastante explorados em Industry, que destaca como a sociedade pouco avançou em alguns aspectos cruciais.

Em consideração às mudanças na sociedade, o próprio título da série é bastante intrigante. A ideia de indústria – ao menos de forma mais estabelecida – está ligada ao final do século XIX e à formação de um operariado que passou a vender a mão de obra nas fábricas que se erguiam. Nessa época, se estabelece o que é conhecido como capitalismo industrial. A Inglaterra foi precursora no mundo e, desde então, se consolidou como uma das grandes potências econômicas do planeta. Industry carrega esse passado de formação econômica e social inglês porém adaptada ao século XXI.

É comum que os personagens se refiram ao banco de investimento como uma indústria consolidada. Entretanto, não é uma indústria como antigamente. Não há mais um objeto que se produz e se troca por uma quantia pré-determinada de dinheiro. Por outro lado, existe um capital virtual que fundamenta as atividades do Pierpoint. Assim, durante o trabalho, Harper pode angariar milhares de libras e perder o dobro da quantia em questão de segundos. Toda essa tensão fica escancarada quando ela continua na empresa e o alarme de incêndio é acionado. Ela arrisca a sua própria vida para que consiga encerrar uma transação financeira com sucesso.

A série é hábil em destacar esse universo característico do século XXI. Assim, ao invés de fábricas como antigamente, os personagens estão envolvidos em um ambiente repleto de chiques arranha-céus que formam a paisagem característica de uma Londres moderna e polo financeiro mundial. A cidade de Londres também é importante nesse contexto porque se solidifica como convergência de um centro capitalista. Ao contrário do século XIX em que as cidades fabris ficavam distantes da capital – como é o caso de Manchester e Liverpool -, agora os prédios grandiosos que exalam sofisticação se consolidam na própria Londres.

Assim, os jovens que desejam entrar no Pierpoint não são advindos das classes populares como ocorria antigamente. Agora são, em sua maioria, frutos de famílias abonadas e enxergam no Pierpoint uma forma de continuar o seus legados financeiros. É escancarado como não são críticos ao universo em que se dispõem a entrar, por mais que percebam as injustiças que existem lá dentro. No entanto, também não se dispõem a aceitar a agressão que vem de fora, quando um grupo do partido Davos realiza um ataque com bombas de tinta no dia em que a empresa vai abrir as portas para outros formandos. Ou não vão valorizar um texto no jornal de uma ex-funcionária do Pierpoint que expõe o ambiente nocivo do lugar

Novamente, a série é hábil em construir essa imagem, a partir dos espaços em que as pessoas convivem. Em Londres, aparentemente, não há praças, clubes, cafés ao ar livre, feiras ou algo parecido. Boa parte dos oito episódios são conduzidos em espaços fechados de luzes artificiais – casas, boates, carros, o próprio banco. Tudo fica iluminado de forma a confundir se é dia ou noite do lado de fora.

Harper parece ser quem mais sente essa condição. Logo no segundo episódio, a moça tem uma ação moral elevada ao defender Yasmin dos chefes estúpidos e parece que vai ser conduzida como a protagonista por suas características de integridade. Contudo, no último episódio, ela tem uma atitude de moral dúbia que reformula os caminhos da empresa. Fica claro que os criadores Down e Kay são bastante pessimistas em relação ao universo que estão retratando e, mesmo que Harper consiga se desvencilhar de alguma forma do Pierpoint, o banco ainda está arraigado nela. Assim, todos os momentos em que ela fica com falta de ar, são resultados da tensão a que é exposta em sua experiência na empresa.

A atriz Myha’la Herrold, que interpreta Harper, é um achado. Com seu rosto quase infantil e pequeninos dentes que ainda parecem dente-de-leite, cria uma imagem muito terna e pueril que contrasta com o universo em que se insere. Assim, quando ela age de forma a prejudicar algumas pessoas – inclusive, a amiga – para ser valorizada pelos chefes, há uma dimensão ainda mais impactante.

Em retrospectiva, é assustador que o banco tenha funcionado normalmente no dia seguinte à tragédia que acometeu um de seus calouros. Em Industry, porém, fica claro que tempo é dinheiro. A qualquer custo.

REVISÃO GERAL
Nota:
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