A expectativa para a 4ª temporada de This is Us estava em alta. No fim do seu terceiro ano, a série havia sido renovada por mais três temporadas, garantindo nossos encontros com a família Pearson até a 6ª temporada, que muito provavelmente será a última. Assim, muitas pessoas se questionaram se This is Us teria gás para continuar e promover o mesmo sucesso das temporadas anteriores. Devo dizer que eu fui uma delas, não de questionar sobre o sucesso, mas de me perguntar até onde essa série iria. E o primeiro episódio da 4.ª temporada foi a resposta.

O episódio de retorno de This is Us foi uma pequena amostra do quão gigante essa série é. Com a adição de novos personagens tivemos uma sensação nostálgica de piloto, já que passamos a conhecer a vida de três pessoas sem qualquer aparente conexão. Peço que tentem recordar do piloto da série, lembrem do belíssimo impacto que ela causou ao relacionar três histórias de forma tão simples, e nos contar com diferentes nuances e formatos, como a vida de uma pessoa pode influenciar na de outra e como somos afetados direta ou indiretamente em razão disso. Ao longo do tempo fomos conhecendo a vida do Big Three e com isso as histórias e problemas de cada um, incluindo anseios, medos, trajetórias e as relações interpessoais e familiares. O mistério por trás da morte do Jack foi se tornando importante, diante das expectativas que os episódios carregavam, mas aos poucos a série foi se desprendendo desse evento e foi mostrando potencial para narrativas diferentes da tão batida “como o Jack morreu”.

“É estranho, não é? Como um estranho pode se tornar grande parte de sua história. É até meio estranho como cruzar com um estranho pode mudar tudo.”

PEARSON, Rebecca.

S04E01

O ponta pé inicial nos deu uma prévia de como a vida de uma veterana de guerra, um pai adolescente e um músico cego iam se entrelaçar com Kevin, Randall e Kate, respectivamente. E para minha surpresa, não poderia ter sido melhor. E aqui vimos que a fala da Rebecca nunca fez tanto sentido, cruzar com um estranho pode mudar sua vida, assim como uma direção trocada de última hora ou decisões planejadas com consequências inesperadas. E é assim que a vida é. This is Us sempre nos contou isso, com seu jeito amoroso, sutil e emocionante de existir.

A adição de personagens novos trouxe um fervor à série, ver como a história da Cassidy (Jennifer Morrison), Malik (Asante Blackk) e Jack (Blake Stadnik) iam se relacionando e se construindo, foi um deleite. E durante toda a temporada fomos encaixando as pequenas pistas deixadas através dos flashforwards, recurso utilizado de forma muito inteligente por parte dos roteiristas. A magia por trás das conexões sempre foi um ponto positivo para a série, mas aqui ela não se ateve somente aos personagens novos, com o passar dos episódios fomos conhecemos um futuro mais próximo e outro um pouco mais distante.

Um dos pontos altos da temporada foi a troca de protagonismo e a exploração das diversas facetas do ser humano. Até aqui, tivemos um endeusamento do Jack enquanto personagem alicerce da família, e do Randall, como um pupilo do pai que refletia nas suas qualidades enquanto filho, pai e esposo. Aos poucos, ambas as visões foram se descontruindo ao longo do tempo e fomos percebendo que tanto um quanto o outro possuem defeitos, e encara-los não seria uma tarefa fácil. Essa mudança de protagonismo, no que diz respeito ao Jack, deu espaço para conhecermos mais da Rebecca e toda sua trajetória enquanto pessoa com Alzheimer. O plot trouxe o ponto que faltava para a série se desprender das amarras que tinha criado até aqui. Assim, o objetivo não era reviver o luto do Jack e nem de que forma isso impactava na vida dos filhos. Na verdade, a temporada se preocupou em abordar, do ponto de vista da matriarca, a sua trajetória ao lado do Jack, a importância da música na sua vida e nos impactos da importância de estar viva.

Kevin

Confesso que nunca fui uma entusiasta dos plots do Kevin, na verdade, sempre questionei muita das suas ações por justamente, dentro de uma análise macro, os seus problemas serem “menores” perto do que os seus irmãos estavam passando. Mas essa temporada as coisas mudaram, e se antes ele era ofuscado pela Kate e Randall, aqui o Kevin toma para si a responsabilidade dos seus atos, e parece começar a entender que o mundo é mais do que seus próprios problemas.

O Kevin foi o ponto entre a Cassidy e o Nick. Curioso que o personagem mais uma vez se viu envolto em manter, ou pelo menos tentar, um relacionamento amoroso com a mais próxima dele naquele momento. Apesar do fim não ter sido como imaginava, precisou de maturidade para lidar com as consequências do seu envolvimento com a veterana, assim como seu amor de infância e a futura mãe dos seus filhos, a Madison. Ao longo dos episódios o Kevin foi estabelecendo sua preocupação moral e quais são seus ideais, seja em flashbacks ou em flashforwards. Na verdade, ele tem sido mais responsável, inclusive afetivamente, e isso é bonito de ver. O desenvolvimento do personagem é evidente e ele progride em consonância com suas fases da vida. E o paralelo é feito em quase todos os episódios, sobretudo com o Randall na infância, Nick e Rebecca no presente e futuro.

A constante busca pela família perfeita e a necessidade em replicar as histórias de amor que estão ao seu redor como a Beth e Randall, Jack e Rebecca, trouxe o personagem até a mais bela ironia. A tão sonhada família não virá da maneira como ele imaginou, a sequência padrão de: namoro, noivado, casamento e filhos. Ao descobrir que será pai de gêmeos com uma pessoa que ele mal conhece, a vida tenta mostrar uma lição para o Kevin e da a ele mais formas de evoluir e tentar se enxergar para além dos seus irmãos.

A relação com o Randall nunca foi muito tranquila e isso foi mais explorado na 4ª temporada. Os irmãos não chegavam a se odiar, longe disso, mas era nítido a linha tênue dos diálogos entre eles, e a sensação que ficava era como se estivéssemos com pólvora, percorrendo todo o caminho dos dois. E o estopim foi o momento que Kevin descobriu a verdade sobre o tratamento da Rebecca. Ao valorizar e respeitar a escolha da Rebecca, Kevin se despiu de qualquer julgamento e exerceu a empatia que tanto lhe foi pedida em outros momentos. Resta compreender quais os efeitos colaterais da discussão que ambos tiveram, já que tanto ele quanto o Randall proferiram palavras difíceis demais de digerir. O que aparentava serem muitas verdades guardadas até aquele exato momento.

Kate

A insatisfação com o corpo sempre foi um fator determinante nas relações com a sua mãe e posteriormente com o Toby. Chegamos a acompanhar a trajetória da personagem em mudar seu estilo de pensar e existir, mas outros problemas vieram e a dificuldade em lidar com uma criança deficiente e seu casamento se tornaram muito maior. Kate sempre foi preterida e a gordofobia se fez presente a todo momento, sendo camuflada pelo argumento de ser somente bullying ou preocupação. Mesmo quando criança, as pessoas ao seu redor a lembravam constantemente que peso importa e define quem você é, define suas relações e o que você vai conseguir por conta disso.

Em uma realidade das preterições, estar com alguém que pouco se importa com a sua aparência e entende como e quem você é, faz com que as coisas sejam mais fáceis de lidar e a mente tende a esquecer os possíveis problemas em torno disso. Afinal, só a felicidade importa. Mas essa realidade não acontece sempre e qualquer ameaça a isso é supervalorizada ainda que não proposital. E é exatamente isso que acontece quando a Kate descobre sobre as aulas de crossfit do Toby.  É mais do que simplesmente praticar exercício escondido, é sobre a possibilidade de fugir da sua realidade, com sua mulher e com seu filho cego, e de escapar daquilo que já não o serve mais. E isso tudo se intensifica quando existe um histórico de relacionamento abusivo.

É curioso ver a construção de um relacionamento abusivo e como os sinais são quase sempre os mesmos. O abusador se aproveita da fragilidade e insegurança da vítima para exercer o controle nos pensamentos, atitudes, até atingir todos os setores sociais da vida da pessoa. Felizmente tivemos a interrupção desse ciclo que muitas vezes é mortal. A máxima do “aceitar o amor que acha que merece” se torna comum a cada dia e o que a Kate viveu foi basicamente aceitar aquele mísero sentimento autodestrutivo que o Marc deu.

A forma como This is Us abordou esse tema foi de uma delicadeza muito bem construída. Aos poucos a gente ia sentindo e percebendo que tinha algo de errado com aquele relacionamento. Sentimos a repulsa ao ver o Marc entrando na relação familiar e a maneira como ele influenciava na vivência e existência da Kate.

Randall

Se pudesse ser contada em livro, sua história poderia ser descrita como: “a realidade do menino negro crescido na família de brancos”. Durante as três temporadas, tivemos o prazer de acompanhar o Randall e entender um pouco mais do personagem. Seu jeito doce e amoroso se assemelha ao do Jack e isso o torna invejável em muitos momentos. Apesar das boas qualidades, Randall, assim como todas as pessoas, tem defeitos e isso vem sendo evidenciado nesta temporada.

É incrível perceber a relação dele com seus complexos e sua ansiedade. A necessidade de querer se encaixar, um encaixe que o pertence, mas ao mesmo tempo o faz tão distante. Randall é um homem negro criado como branco. O quão problemático é isso se pararmos para refletir que a sua infância e adolescência foi sendo privada de uma vivência mais próxima das suas origens e do seu mundo, sua própria galera.

Aos poucos ele vai se encaixando e entendendo a percepção do mundo da política, mas ainda que este tenha sido um plot interessante de acompanhar e se relacione de forma mais acentuada com o “se encaixar”, acredito que o mais importante dessa temporada foi a sua relação com o diagnóstico da Rebecca, e a sua constante necessidade de mudar tudo ao seu redor, assim como controlar as ações dos outros, – inclusive é o que vimos quando a Deja se relaciona com o Malik. A necessidade de impedir o desfecho trágico, porém natural.

A relação do Randall com a morte não é das melhores, ele sofre pela perda dos pais, e aqui os diferencio em pai biológico e pai adotivo, e por conta disso ele sofre pelo que a inércia pode fazer em momento posterior. E é a partir daí que construímos um paralelo de como a mente do Randall funciona e como ele quer lidar com o tratamento da mãe. Para ele é mais importante tê-la viva, ou melhor, fazer algo para mudar isso, do que apenas deixa-la ir sem ao menos tentar. E ele estava disposto a pagar o preço, ainda que alto demais. Como dito anteriormente, é triste ver dois irmãos se machucando de forma tão brutal, mas esse era o estopim que a série vinha apontando na relação do Randall com o Kevin. Agora nos resta esperar para ver como e no quanto isso vai impactar na relação familiar de todos.

This is Us terminou a temporada da mesma forma que se iniciou, a season finale, não por acaso deu o mesmo nome que a premiere. Intitulada Strangers part two, o episódio final introduziu novos personagens, e como sempre, os minutos finais foram os responsáveis por nos mostrar a tão esperada conexão. Kate e Toby decidem adotar um bebê e através dos flashfowards conhecemos a irmã do Jack, Hailey. Outro rostinho novo foi o do obstetra, Dr. Mason, e definitivamente não foi coincidência a sua aparição ter sido no mesmo episódio que o retorno do Dr. K para a Rebecca e Jack. O que podemos esperar desses dois?

As expectativas para a 5ª temporada são altas e existem respostas para serem respondidas. A certeza é que o foco será na matriarca e nas relações entre os filhos. De que forma Randall e Kevin passaram a lidar com a briga que tiveram? Como será a maternidade da Kate em relação a Hailey? E quem é a esposa de Kevin? Dentre todas as dúvidas uma coisa é certa, This is Us sabe onde quer chegar e todo o caminho parecer ser muito bem traçado.

REVISÃO GERAL
Nota:
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