O início do primeiro episódio da série Betty é um importante fragmento do que será a narrativa como um todo. Uma adolescente fotografa seus hematomas os valorizando como troféus. De camiseta, bermuda e boné ela pega o seu skate e sai em disparada. Na sequência seguinte, ultrapassa uma noiva que está prestes a entrar na igreja. Há uma reconhecível narrativa convencional da figura feminina com o interesse único e exclusivo no casamento como ponto-chave de sua vida: o sonho que carregaria desde garotinha até a vida adulta. A câmera, por outro lado, não se interessa pelo matrimônio e se mantém fiel à velocidade do skate pelo espaço urbano de Nova Iorque. Fica claro qual universo será retratado ao longo dos seis episódios da série.
Além de destacar o interesse pelas manobras que o esporte proporciona, a série deixa claro que é um universo tão feminino quanto o casamento, porém está interessada em outras narrativas. Essa, aliás, será uma característica comum da roteirista e co-criadora Lesley Arfin. Seu trabalho anterior, Love, construía os interesses de um casal para além do tradicional encontro-paixão-briga-pazes-felicidade eterna. Pelo contrário, Arfin encontrou uma maneira bastante original de dar complexidade para as relações contemporâneas envolvendo os protagonistas em conflitos diários, muitas vezes pequenos, porém que faziam parte da vida íntima deles e dava profundidade para o relacionamento. Além do mais, havia outros interesses como amigos, hobbies, trabalho, que os envolviam para além do relacionamento amoroso.
A grande oposição entre Love e Betty está na diferença geracional. A primeira destacava um casal na faixa dos trinta anos que ainda não se sentia pronto para assumir responsabilidades do que seria considerado uma vida adulta (casamento, filhos, emprego estável), e ainda mantinha aspirações que poderiam ser consideradas juvenis. Já a segunda é realmente sobre jovens, além disso, a ideia de amor romântico fica um pouco de lado e ascende às relações pessoais entre as cinco garotas protagonistas: Kirt, Janay, Camille, Indigo e Honeybear.
A vivência rotineira das meninas que tem de provar diariamente que podem frequentar as pistas de skate assim como os rapazes dá o tom dos episódios. Reduzindo a série ao seu estado bruto, a grande questão para as garotas é produzir uma segunda edição do encontro de garotas skatistas maior do que o primeiro. Todavia, é no entremeio dos dois eventos em que a narrativa se solidifica. As paixões, as brigas, os acertos e erros das jovens fazem com que Betty seja uma narrativa completamente calcada na realidade. Especialmente as sequências das meninas andando de skate parecem ser criadas por Honeybear – que está sempre com uma câmera na mão -, pois é tão natural e próximo das personagens que o espectador é inserido naquele universo como mais uma das amigas.
Chama a atenção que em um mundo contemporâneo tão ligado ao universo digital, em que algoritmos, banda larga e inteligência artificial se tornem comuns no cotidiano, a série se interesse por algo completamente oposto e foque no ser humano em toda a sua complexidade. Às vezes somos consumidos pela raiva, outras vezes agimos com a razão. Muitas vezes acertamos, outras vezes erramos e é isso que nos faz humanos. E, nesse sentido, Betty é demasiadamente humana.

Não que a série não apresente os diversos dispositivos tecnológicos que fazem parte do mundo das protagonistas. Eles estão lá. O Instagram permeia o universo delas e o celular parece uma extensão do próprio corpo. Inclusive, no quinto episódio, quando Janay quer cortar laços com Donald, seu melhor amigo e ex-namorado, que agrediu sexualmente uma moça, encerra o canal no YouTube que mantinham juntos. A ação equivale a terminar de vez a relação, valorizando o ambiente digital como um importante espaço de sociabilidade. Entretanto, isso faz parte do universo das jovens, mas não é um traço estético da série.
Mergulhar no universo da juventude parece ser uma característica bastante potente de Lesley Arfin. Ela que iniciou seus trabalhos como colunista para o site Vice em que narrava de um ponto de vista absolutamente pessoal a adolescência e se tornou roteirista de televisão na série Girls, mais uma vez, adentra os dilemas da juventude. Entretanto, Arfin é inteligente o suficiente para saber que as adolescentes de agora não são as mesmas de quinze anos atrás e consegue retratar a contemporaneidade de forma astuta.
Além de radiografar jovens garotas, outra proximidade de Betty com Girls está na forma como a cidade de Nova Iorque é retratada. Não há um olhar para os pontos turísticos tradicionais como a Estátua da Liberdade, a Times Square ou o Empire State. Pelo contrário, a cidade é valorizada como um ambiente altamente urbano, heterogêneo e cosmopolita. Há diversas posturas, culturas e ideias pulsando o tempo todo. Festas no meio da rua com o mais variado núcleo de pessoas possível fazem parte da cidade. Esse ambiente cultural é fundamental para inserir as protagonistas em um ambiente multifacetado.
Contudo, no fim das contas, a sequência no sexto episódio em que as cinco estão de bem com a vida e conversando aleatoriedades é o que a série tem de mais marcante. O riso constrói uma relação duradoura em um universo tão grande e caótico. É isso que interessa à produção de Betty e valoriza, inclusive, a narrativa seriada. A possibilidade de divisão em episódios faz com que aumente o tempo da produção de enxergar as personagens em todos os seus pequenos conflitos. Isso possibilita a realização de outras temporadas para reencontrá-las em novos dilemas. Betty é tão exageradamente calcada na realidade que é possível imaginar vários anos de produção ativa, pois o nosso lugar no mundo sempre está em mutação.












