Diante de um abismo.
Na review do ducentésimo episódio, quando a citação de Nietzsche foi repetida após ser dita no piloto e no centésimo, ficou bem claro que a intenção dos roteiristas era mostrar que os profilers estão inevitavelmente cercados pelo mal devido aos ofícios da profissão, mas como os embates com o que de pior existe na humanidade são constantes, há a possibilidade de esse abismo – tão comum no contexto dos serial killers – voltar de uma forma trágica, como o assassinato de Haley na primeira metade da quinta temporada. Os profilers tentam simplesmente tudo para que eles não atinjam este patamar muitas vezes sem volta, mas existem situações que o abismo fica tão evidente que é extremamente difícil impedir sua concretização. Numa investigação aparentemente rotineira, sem muitos movimentações significativas até os últimos instantes, Criminal Minds mostra que sabe muito bem transformar algo simples em momentos nunca antes esperados, sendo capaz de chocar seus telespectadores com o desencadear dos acontecimentos. Dessa forma, Angels, sendo teoricamente a primeira parte de um episódio duplo, tem a função de preparar o terreno para uma grande season finale, esta cumprida com êxito ao ser deixado um cliffhanger desesperador.
Embora as promessas para esta season finale já tivessem sido expostas há muito tempo – como as entrevistas da showrunner Erica Messer e o fato de o episódio ter sido escrito por três roteiristas diferentes – o único diferencial da primeira metade, numa primeira instância, foi o retorno de Cruz, afastado desde o seu sequestro, para sugerir um caso pacato e recorrente para a série: o assassinato de prostitutas em uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos. Como isso já foi abordado inúmeras vezes no passado, não havia motivos para uma grande empolgação, até mesmo porque a trama de tráfico sexual lembrava muito a da finale da sexta temporada, definitivamente a pior de Criminal Minds. Parecia somente mais um caso da semana e tudo estava fácil demais no que se referia ao reverendo. Sua culpa em alguma coisa, mesmo que não fosse nos assassinatos, já era evidente desde sua primeira aparição pela forma que ele se inseriu na investigação apenas por ser um homem influente na área. Mas como sempre há de se desconfiar de algo sem grandes complexidades, a investigação aos poucos ganhou outros contornos, inserindo o policial interpretado por Michael Trucco.
Nesse ponto, observa-se que a escolha do ator para este papel foi extremamente feliz. Nas suas curtas cenas, os confrontos com o reverendo por telefone e o capanga, bem como os assassinatos, demonstraram sua imensa frieza e enfatizaram a brutalidade das suas ações, com disparos certeiros e sem a menor chance de remorso. Como sua presença foi pequena e o perfil da BAU não especulou a hipótese de o serial killer estar ligado à força-tarefa por trás das mortes, ainda não se sabem suas motivações mais significativas. O simples fato de ele ser um coletor de injustiças já garante uma personalidade mais sádica, esta corroborada pelos cortes post mortem em suas vítimas. Entretanto, por que tamanha crueldade nos seus atos? Estas injustiças na sociedade poderiam estar manifestadas na forma do reverendo, motivo pelo qual seu “suicídio” foi forçado? Existe uma razão prática para tudo isso, talvez uma experiência traumática no passado? Enquanto se aguardam as respostas destas perguntas, constata-se que foi uma excelente ideia dos roteiristas ao não incluírem Michael Trucco na delegacia, porque o simples fato de ele acumular participações em diversas séries já seria um indício de eventual Unsub.
Apesar de todas as evidências apontarem para o reverendo, foi extremamente interessante ver a forma que os profilers o eliminaram como suspeito dos assassinatos. Ele, de fato, era um homem terrível por utilizar o tráfico sexual como fonte de riqueza ao se esconder em uma figura respeitada na cidade, mas não maligno o suficiente para matar com tamanha frieza. Além disso, ele foi descartado quando se analisou a submissão do Unsub no mundo real e a dominância com as prostitutas, perspectiva que entraria em contradição com o reverendo, mas se encaixa interessantemente no policial. Owen McGregor provavelmente é apenas mais um oficial daquela pequena delegacia, mas aparentemente ele está buscando um destaque que ultrapassa suas justificativas definidas pelo perfil, visto que o fato de ele matar desta maneira e o suposto acordo com o reverendo indicam uma mudança no seu caráter, tornando mais ousado, inferindo claramente uma possível e perfeitamente compreensível imprecisão no profile.
Mesmo com estas ligeiras inconsistências interpretativas, acredito que nem todos naquela cidade, assim como o reverendo, são exatamente o que parecem ser. Além de grande parte dos policiais, sem experiência nenhuma em cenas de crime, como constatado quando tentaram modificar a posição do corpo, foi bastante conveniente a sempre empolgada oficial com a chegada da BAU estar fazendo patrulha coincidentemente no mesmo local do ponto de encontro do reverendo. Sei que estes acontecimentos aleatórios de fato existem na vida real e, tratando-se de uma cidade pequena, eles são ainda mais plausíveis, mas somente passou a impressão de que ela não estava ali apenas por um acaso. Será que realmente há uma associação dela com Owen ou é somente um excesso de desconfiança da minha parte? Receio que devemos esperar mais um pouco para obter esta resposta.
Mas todas essas informações convergiram para chegar a um ponto específico, talvez um dos piores cliffhangers da história da série. Encurralado pela polícia local e pelo FBI, o reverendo viu que haviam armado uma conspiração contra ele, induzindo todos a acreditarem que ele realmente era o culpado dos crimes. Embora a BAU saiba que ele não é o serial killer que cometeu os assassinatos, sua personalidade tornou-se muito violenta, motivo pelo qual ele pegou a metralhadora deixada por Owen, a única chance de lutar, seja no céu, seja no inferno, e abriu fogo. A partir deste momento, ocorreu um imenso tiroteio, culminando em algo extremamente perigoso: o já exacerbado abismo.
Reid e Morgan agora encontram-se diante deste abismo tão comum, mas tão perverso. O grande problema é que esta preponderância pode ser literalmente fatal na circunstância de Angels, visto que os tiros mostram um intenso grau de preocupação com a vida dos agentes. Enquanto o gênio ficou desacordado do lado de fora, não se sabe o estágio de Morgan, caído na casa ao lado do Unsub. Dessa forma, constata-se um fato inédito em Criminal Minds: dois agentes baleados com chance real de morte, já que ninguém sabe os efeitos dos tiros disparados pelo reverendo.
Embora se saiba que grande parte do elenco tenha o contrato garantido para a próxima temporada, não há dúvidas que este é o menor dos empecilhos para realmente concretizar a despedida de um personagem em Criminal Minds. Julie Benz, por exemplo, em Dexter, deixou a série com mais um ano de contrato assinado, mesmo que ela tenha voltado para fazer ligeiros flashbacks na sequência. Diante disso, infelizmente se observa que os roteiristas podem sim optar por uma saída de algum dos atores do elenco e, pela primeira vez em Criminal Minds, isso não seria divulgado na mídia antes da despedida.
Como Cruz disse no início do episódio, por que mexer em um time que já é um sucesso? Entrevistas divulgaram que Demons terá uma forte carga emocional envolvida e muitos segredos serão revelados por diversos integrantes do elenco, motivo pelo qual não somente Reid e Morgan correm perigo, mas todos. Informações da promo – como são spoilers gigantescos e muitos não gostam, preferi não abordá-la – já sugerem outras teorias a respeito dos acontecimentos. Sabe-se que, depois de Demons, a BAU não será a mesma e almeja-se descobrir os nomes que efetivamente se salvarão deste tão temido abismo. Se você, leitor, quiser assistir à promo, ela se encontra logo abaixo.
http://www.youtube.com/watch?v=8D1ATKKSsBg
As expectativas não poderiam ser maiores para, possivelmente, a melhor season finale de Criminal Minds. Torçamos para que ela seja fantástica o suficiente para coroar esta ótima temporada, que apresentou episódios memoráveis e alguns simplesmente medianos. Angels fez apenas o que se comprometeu a fazer: não empolgar com uma primeira parte alucinante, mas entreter o suficiente para o telespectador se envolver com a história e se preocupar com a vida dos agentes em perigo. Que Nietzsche, pelo menos, não esteja certo desta vez, e o abismo se mantenha distante dos membros da BAU.
Profiling…
– Erica Messer garantiu que não haverá cliffhanger para a décima temporada, ou seja, tudo será resolvido ainda no próximo episódio. Agora a questão é se os efeitos colaterais de esta finale bombástica serão resolvidos a tempo.
– Rossi e Blake formam uma ótima dupla! Eles sabiam mais do que o “legista” da cidade e ainda se questionaram sobre uma tal de democracia após a eleição daquele homem para a posição…
– Rossi e Blake mais uma vez! Aquele “assuma que sabemos de tudo” com o diretor da escola foi excelente.
– Coitados do JJ e do Will… Muito tempo sem um tempo para eles. Quando não é o Henry atrapalhando, é a BAU.
– Morgan todo charmoso com a prostituta no bar… Sinceramente, não sei como a dona do lugar não desconfiou de tudo aquilo.
– Não sei vocês, mas eu não estou preparado para me despedir de algum dos integrantes do elenco principal. Se você, leitor, realmente acha que alguém sairá da série, deixe sua teoria nos comentários. Ela será muito bem-vinda!














