Para manter a paz, um homem pode mentir. Mas para si mesmo, a paz nunca deve ser uma mentira”
– Eyal
Foi uma noite longa para Annie Walker, resumida em um episódio de quarenta minutos, mas que poderia ter se restrito a apenas dez… Não vou me esquivar em dizer o quanto não gostei do episódio desta semana. Aliás, a única salvação de Silence Kit foi em ter a oportunidade de rever e admirar, os poucos momentos em cena do espião mais adorado de Covert Affairs, Eyal Lavine.
Engraçado o quanto esta situação me fez recordar da review de Scary, na terceira temporada, quando o Marco Pontes abriu seu texto dizendo: “Não adianta se o episódio foi bom ou não, quando Eyal aparece, tudo fica mais belo.” E como concordo com ele, em gênero, número e grau. Pois, até mesmo, o flashback de Annie decepcionou no plot desta semana.
Mas é preciso ter muita calma e explicar a insatisfação, e eu vou dizer o porquê.
Com a evolução da investigação de Walker e Ryan na Venezuela, tornava-se óbvio que o próximo passo a ser dado seria em direção à identidade do informante “O Carteiro”. E mais uma vez, provando a sua experiência e sagacidade, Auggie foi atrás da pessoa exata para ajudar nesta busca. Roger Bennett acabou por aparecer bem pouco neste episódio, mas o suficiente para provar o seu talento. Ele revela que o informante é Harris Wilson, analista sênior da NSA. E então, surge o primeiro desconforto.
Sempre admirei os roteiros de Covert Affairs, por inúmeras razões, considero as explorações atuais e de um ponto de vista perspicaz, ao qual podemos associá-los à nossa realidade. Um ponto mais do que positivo para uma série de espionagem, que tem a tendência em oferecer explicações parciais aos casos explorados. E até esta semana, não me recordava de nenhuma situação onde a série havia seguido pelo caminho mais fácil e, ao mesmo tempo, menos coerente.
…
Há pouco mais de um ano, eu assisti a um documentário chamado We Steal Secrets: The Story of WikiLeaks. Durante a sequência de entrevistas apresentadas, uma das mais interessantes foi o depoimento de Michael Hayden (ex-diretor da NSA e CIA). No documentário Hayden apresentava as razões pelas quais informações tão importantes e em tamanha quantidade, alcançaram o patamar de conhecimento público através do vazamento provocado por um soldado norte-americano Bradley Edward Manning. O mais interessante nos esclarecimentos de Hayden estava em expor o fato de que o compartilhamento de informações entre agências e a abertura destes documentos à patentes mais baixas dentro da inteligência militar, foram consequências dos atentados de 11 de setembro.
E por que isto é relevante? Porque informações sigilosas sempre irão existir, a questão é que até então, a liberação destas informações ficavam restritas a pessoas mais relevantes dentro das agências de inteligência. Indivíduos que, após anos servindo o país já apresentava sua posição moral formada e possuía experiência e maturidade para lidar com o conhecimento apresentado. Ou seja, ainda que seja óbvio, Hayden admitia que o problema de vazamentos sigilosos estava diretamente ligado ao fornecimento de informação à pessoas mais jovens e que, em muitos casos, nem ao menos tinha como objetivo de vida tornar-se um soldado, ou servir às forças armadas.
Percebam que é, exatamente, neste foco que a revelação de quem é “O Carteiro” desaponta. Porque Harris Wilson é um homem casado, estabelecido e bem estruturado profissionalmente. Por qual razão um cidadão deste nível se arriscaria a (no mínimo), ser condenado à prisão perpétua, por alta traição? O episódio não explica isto, de fato, o roteiro nem se dá ao trabalho de apresentar algum histórico passado que posicionasse Wilson como uma pessoa que pudesse trair o seu país. Ele é lançado como um nome aleatório de posição Sênior dentro da NSA e, simplesmente, por ter acesso à grandes informações ele foi capaz de vendê-las. Nem tudo pode ser justificado pela ganância ou pelo dinheiro, e este caso é um exemplo claro.
…
Com a descoberta da identidade do informante, Annie prossegue com sua investigação seguindo os passos de Harris. Até então, tudo bem. A questão é pegar uma personagem, que eu tanto elogiei por seu desenvolvimento como espiã, e coloca-la em uma posição onde Walker se depara face a face com Wilson e nem considera o fato de que o agente pode conhecer a sua verdadeira identidade. Oras! Se o homem forneceu informações que provocou o atentado terrorista ao qual Annie estava envolvida, como não supor o óbvio, de que como um analista sênior, Harris iria acompanhar o andamento da investigação da CIA.
Mas Walker se deixa levar pela obsessão e torna-se vítima da falta de perspectiva. Engraçado utilizar esta palavra, mas ela acaba se encaixando ao contexto da investigação, assim como, a situação literal do acidente de carro. Afinal, se ao passar por um cruzamento você não observa a outra direção da via, falta-lhe perspectiva do panorama geral.
A batida de carro leva Walker ao hospital e o acontecimento faz com que ela se depare com a iminente descoberta da agência sobre sua doença. E então, chegamos ao flashback que nos revela os acontecimentos por trás de tanto mistério, e devo dizer que foi mais empolgante as suposições do que a grande verdade.
Eu não sei se deveria pedir desculpas por criticar tanto este episódio, mas a verdade é que sinto que devo ser sincera, principalmente quando via um oceano de possibilidades, mas o roteiro decide por naufragar em terra. Afinal, Annie ficou desaparecida durante quatro meses, e este foi o mistério que abriu a temporada, fato que intrigava o telespectador e entregava ao enredo um certo enigma, necessário para estipular qualquer ousadia ou aventura vivida por Walker durante este período. Porém, ao invés disso, temos a confirmação de que ela estivera mesmo na praia e que descobriu sobre sua doença enquanto praticava uma corrida.
Tudo bem, então! Vamos aceitar que durante um curto período de tempo, Annie decidiu descansar e que o acaso lhe trouxe o diagnóstico, mas então, por que desperdiçar a possiblidade de usar esta doença, para manipular as consequências da ousadia e obstinação de Annie, para justificar o problema no coração como sequela de uma cicatriz deixada por Lena Smith e Simon Fischer? Na minha opinião, é muito simbolismo para pouca história.
O contexto da doença de Annie começa a perder o interesse muito cedo e, ao mesmo tempo, torna-se preocupante a exploração de vulnerabilidade da protagonista com uma enfermidade grave, e que não pode desaparecer em um “passe de mágica”. Então, como administrar esta situação de agora em diante? Talvez, a única alternativa válida seja a manipulação deste conhecimento por parte de Ryan. Além da dica ter sido lançada pelo diálogo final entre Annie e Eyal, Silence Kit aproveitou a oportunidade para entendermos que este empresário precisa ser observado com os olhos bem abertos. Enquanto Joan e Calder preocupam-se com a possibilidade de que todas as operações realizadas dentro da agência sejam terceirizadas, Ryan está objetivado em conquistar este contrato.
É importante ressaltar que esta terceirização significa o fornecimento da infraestrutura necessária para que a CIA opere, não exatamente, que a MacQuaid Security irá coordenar ou atuar nas ações de campo da agência.
Mas voltando ao panorama, este foi o único foco do episódio que me agradou muito. Primeiro, porque é coerente, uma vez que esta prática empresarial reduz custos e permite oferecer maior qualidade e eficiência no serviço terceirizado. Segundo, porque colocam Ryan e Arthur dentro da inteligência. E o que isso significa?
Finalmente, veremos o conforto de Joan e Calder ser reduzido. Se ao princípio tínhamos a percepção de que Joan não pretendia se esforçar para “derrubar” Michaels, a partir da agora a posição de diretor da DCS começa a ser ameaçada, pois não há dúvidas de que Arthur explorará qualquer vulnerabilidade que encontrar, e com toda a sua experiência, Joan já deu a dica ao colega de trabalho, a questão é saber se ele entendeu.
Mas ainda mantendo o foco no evento de premiação da senadora, primeiro é muito bom saber que podemos criticar muito o Brasil quando entramos no quesito de manipulação de licitações e contratos públicos, mas de que a boa e velha “jogada de marketing” existe em qualquer parte do mundo. E se por um lado já estamos vendo que Macquaid não dá um único ponto sem nó, até mesmo ao contratar Arthur. Por outro, sinto que estava faltando o momento aonde o ex-diretor da DCS iria “entrar em ação”.
Confesso que admiro muito a capacidade de Joan, principalmente em manter o seu posto e “controlar” o perfil arrojado de Annie a seu favor. Mas quando Arthur entra em cena é possível perceber o quanto este homem é genial, pois ele consegue associar suas habilidades, competências, experiência e charme para alcançar todos os objetivos mais absurdos que são colocados sob sua responsabilidade. Assusta um pouco perceber que foi apenas necessário uma dança com a senadora para convencê-la sobre direcionar o contrato à MacQuaid Security, mas o fato é que este homem não está onde está por acaso.
Com o fato consumado, Ryan torna-se suspeito pelo atentado. Afinal, 40 milhões não é pouca coisa. E além de tudo, ficou mantido o mistério sobre o interrogatório com Borz, fato este que Annie não se esqueceu e, talvez, pretenda manipular o relacionamento com o novo amigo para obter respostas. Aproveitando o ensejo, vamos comentar sobre o que pode significar a relação desta dupla. Se a princípio, eu havia descartado a possibilidade de um envolvimento amoroso entre os dois, a partir de agora já recoloco esta carta sobre a mesa.
De todo o diálogo que Annie relembrou com Eyal, o que podemos extrair é o fato de que nada mudará a opinião de Walker. A espiã traçou o seu caminho e colocou a profissão como o grande amor de sua vida, deixando claro que todo o resto torna-se consequência. Até mesmo, relações amorosas. Então, estando disposta a arriscar a própria vida em cada missão que ela venha a realizar, envolver-se com alguém que tem a mesma perspectiva, torna-se casualidade. E Ryan representa este perfil, além de provar que é capaz de colocar-se em “campo de batalha” em nome de sua empresa, Macquaid está “interessado” em Walker. Deixo o adjetivo entre aspas porque, sinceramente, não sei qual é o verdadeiro objetivo de Ryan, assim sendo, fica difícil supor que Annie seja apenas mais um flerte aventureiro.
Silence Kit foi um episódio focado a expor um dia de trabalho na vida de Annie, aonde este dia poderia ser o último. O único problema acabou ficando por conta da grande “enrolação” que se seguiu por quarenta minutos, para apresentar informações relevantes nos dois minutos restantes. Pois era mais do que óbvio que Auggie iria encobrir a doença da amiga e, mais ainda, a revelação da doença já era de conhecimento do público, o que nos leva a concluir que o momento flashback só existiu para afagar o coração do fã e trazer Eyal neste começo de temporada.
Por fim, voltamos à Paris, futuro destino de Walker para rastrear as transferências de quem financiou os atentados. Por mais que eu goste dos roteiros na cidade, fica meio incoerente acreditar que um terrorista escolheria um banco francês, quando a Suíça é tão prestativa neste quesito, não é verdade?
Mas no conjunto da obra, o cenário da temporada precisa esquentar, e muito. Minha torcida fica por conta do responsável pelos atentados. E que mentes criativas não se deixem levar pelo óbvio, mantendo a Rússia e a China longe desta história. (Torço muito por isso). Assim como gostaria que a trilha do dinheiro trouxesse Annie de volta aos Estados Unidos, onde tudo seria mais interessante, principalmente, por ser mais difícil. Assim espero.














![Covert Affairs 5×10: Sensitive Euro Man [Summer Finale]](https://seriemaniacos.tv/wp-content/uploads/2014/09/Covert-Affairs-5x10-218x150.jpg)
