Quando descobri Broad City, fiquei completamente deslumbrada e esperançosa por viver em um mundo em que uma série como essa existe: um retrato da amizade entre duas mulheres jovens, vivendo em Nova York, sem o mínimo de glamour. (Num espectro realista sobre o que é a vida na Big Apple, se Sex and the City está no extremo do ideal, não é Girls que representa o seu oposto e sim Broad City.)

O que sempre me cativou no retrato de Ilana Wexler e Abbi Abrams, além de serem personagens femininas que não se encontram em cada série de esquina, é a mistura orgânica entre o muito familiar e o completamente surreal. A primeira temporada é recheada de momentos que estabelecem uma zona de conforto para o espectador, só para desestabilizar a narrativa com um acontecimento aleatório, que nos faz pensar: “Não é possível que isso esteja mesmo acontecendo”. Pois é, meu querido, está acontecendo sim, e isso é genial.

A cena de abertura do primeiro episódio parece ser um bom sumário de tudo que faz parte da essência da série: o muito familiar – elas correndo para pegar o metrô – se transformando em uma sequência simplesmente sensacional delas atravessando os vagões e encontrando as coisas mais surreais: de um casal se pegando loucamente a um vagão completamente tomado pelo cheiro de um cocô de origem desconhecida, até o toque final com Ilana dando um tapa na bunda de um dos judeus ortodoxos da aglomeração que elas acabam de cruzar desconfortavelmente. Tudo isso para acabarem percebendo que elas foram para o lado errado do trem, mas ainda assim se divertindo por serem Ilana e Abbi juntas. Porque Broad City é isso: as duas amigas se ferrando no processo para acabar se ferrando mais ainda.

A boa novidade para o retorno de Broad City na segunda temporada é que a série continua com essa mesma dinâmica, só que com uma voz mais confiante. Se na primeira temporada tínhamos linhas narrativas mais soltas e argumentos mais aleatórios, “In the heat” vem nos mostrar que é possível fazer episódios divertidos que carregam uma mensagem mais concisa e clara. E para abrir essa temporada, o episódio é todo permeado por um assunto super leve e nada polêmico – o estupro.

Se de um lado temos Ilana dando um discurso no aniversário de Lincoln – que ela deliciosamente ignorava -, sobre a “cultura do estupro” em que vivemos, do outro lado temos Abbi fazendo sexo com um Male Stacy (Seth Rogen) desmaiado por causa do calor. As piadas sobre a possibilidade de Abbi ter abusado do seu parceiro são uma aula sobre como é possível sim tocar em assuntos delicados como estupro sem diminuir a gravidade de questão e ainda assim ser engraçado pelos motivos certos. E a voz mais madura de Broad City se revela justamente aí.

Além disso, com a saga em busca de um ar condicionado, também é possível perceber e esperar linhas narrativas mais “redondinhas” para essa segunda temporada: histórias que sabem de onde vêm e para onde querem ir. E elas chegam lá com o mesmo senso de humor surtado das criadoras, roteiristas e protagonistas da série, Abbi Jacobson e Ilana Glazer, o que me dá uma esperança genuína para o futuro da comédia.

Para concluir, é preciso falar sobre o trabalho incrível que a série faz com os personagens secundários e com as participações especiais. Eu nunca senti tanto “ódiamor” e nojo por Bevers (John Gemberling) quanto na cena em que ele está deitado, suando na cama de Abbi. E eu já me apaixonei por Male Stacy e seu cofrinho gigantesco, mesmo ele sendo interpretado pelo Seth Rogen, que consegue me irritar com alguma frequência. Essa atenção aos mínimos detalhes prova como a série leva seus personagens a sério e confere a eles uma profundidade e uma tridimensionalidade que muita série dramática não consegue realizar em 40 minutos de episódio.

Depois dessa ótima estreia, acho que podemos esperar sim uma segunda temporada hilária. E que coisa boa de se esperar, minha gente.

Outras observações:

1. É muito legal ver personagens de séries que a gente ama passando calor no exterior assim como a gente tem passado nesse Brasilzão de nosso Senhor.

2. A cena final de dois adultos gritando com o gatinho mais fofo do mundo me fez mijar um pouquinho nas calças.

3. Tenho muitas obsessões com o armário da Ilana e esse episódio me rendeu mais duas – o batom preto e o brinco de argolas com o nome da personagem.

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