Pelo menos alguém está rindo.

Perigo: spoilers!

“I’m done explaining myself.” – Walter White

É fascinante como “Crawl Space” constrói os seus melhores e mais chocantes momentos em cima de fatos previsíveis.

Nós sabemos que Jesse não vai ajudar Walter. Nós sabemos o tipo de tortura emocional que Gus vai fazer. Nós sabemos desde a metade da terceira temporada que as consequências viriam, e que Walt seria forçado a tomar medidas drásticas para proteger sua família. Ainda assim, quando esses momentos finalmente chegam, eles vêm carregados de tremendo peso. Dê o crédito para as atuações ou para a precisão técnica da série (na interação que Walt tem com o ex-parceiro, por exemplo, há essa maravilhosa imagem onde os dois se encontram cobertos pelas sombras enquanto Jesse o empurra), mas uma obviedade específica como essa permite a Breaking Bad ir atrás de tudo que faz uma boa história de tensão, assim como tudo que faz uma boa história de mistério – procurando nos seus dois dedinhos o terror, como se já não estivesse satisfeita. Ela atinge todos esses pontos com tremenda força, mudando de um para o outro sem esforço ou preocupação.

Tudo isso tomando origem ao redor de um grande senso de história, da percepção de que fatos ou relacionamentos do passado ainda se provarão confiáveis diante das novas circunstâncias. E como tudo na série, chega um momento em que persistir no erro se torna impossível, fazendo os personagens perceberem que talvez seja tarde demais para mudar de direção.

Como de costume, Walter White é o maior exemplo disso. Seja tentando uma reconciliação com Jesse ou afastando Hank do laboratório, o seu desespero em cada ação é palpável. A concentração escapa durante a pesagem da preciosa metanfetamina, as mentiras se tornam mais artificiais (percebam como ele mal se incomoda em criar uma história para os ferimentos ou o acidente de carro), até mesmo o sempre-presente orgulho parece ter escapulido no meio de tanta agitação. Cranston se diverte com isso: Walt é um personagem que possui um fluxo rígido de emoções durante o pânico, alternando das negações para as ações desesperadas dentro de dois segundos; sem oferecer margem de erro. Vê-lo se perder assim, improvisando por não ter outra saída, dá ao ator ainda mais flexibilidade. Ele está particularmente sensacional na cena do deserto, onde apenas os seus olhos quase fechados passam o descontentamento daquele homem melhor do que mil diálogos.

Já na outra grande trama da semana, nós ganhamos um aumento substancial nesse sentimento de crise através de Skyler. Nas últimas reviews, mencionei a minha confiança na série e na maneira como a sua trama se amarraria a do marido (fazendo jus aos episódios anteriores e tantas outras estruturas semelhantes em temporadas passadas). Isso, é claro, não decepcionou. Sua decadência atinge o inevitável ponto decisivo, Skyler cede e como vingança do universo, Beneke tropeça no tapete. É uma mudança de tom morbidamente cômica bem perto da cena mais perturbadora de toda a série, que funciona pela sua impecável lógica: É CLARO que Skyler privaria família de ser salva depois de tudo que fez nesses últimos meses, e É CLARO que Ted sofreria como consequência.

Essa é a grande moral que Gilligan vem repetindo. Toda ação tem uma reação, tudo que vai, volta. As ações de Skyler podem até ser justificadas – ainda que na mesma lógica falha do marido, de proteger a família através do crime. Mas não são impunes, muito menos quando parecem vir de uma obsessão semelhante por poder e orgulho. Pode parecer bobo que um mundo caótico como o dessa série tenha regras de justiça como essas, principalmente regras regidas por algo vago como o próprio universo, mas lembrem-se: essa é a mesma Breaking Bad que jogou um avião na cabeça do protagonista como julgamento pela morte de uma viciada. Talvez a grosseria mais bela da história da televisão, aliada a uma de suas mais implacáveis realidades – que não devem ser semelhante a nossa, mas ressonantes dentro da narrativa e dos personagens.

E como se esse exemplo não fosse suficiente, tivemos todo o arco do Jesse no começo da temporada – se afastando do mundo para não sentir a inevitável dor do seu estilo de vida. De um ponto de vista estrutural, serve como um contraste paralelo com a jornada de Walt. Enquanto ele perde controle, sendo lentamente excluído da operação de Gus, Jesse sai da sua sombra e ajuda a destruir parte do cartel, crescendo ao ponto de se permitir alguns momentos de diversão com Andrea e o filho. Não é ideal, mas para quem estava caminhando em direção a uma possível morte, sem pensar duas vezes? É uma vitória que a série nunca trata como heróica. Afinal, seria injusto. Vejam só a vida que ele está levando. As vidas que ele feriu no episódio passado, as famílias destruídas pela droga que ele produziu. Jane.

Sem falar que Breaking Bad já tem algo próximo de um herói: Hank, que está a uma parede de distância da prova que pode enjaular Gus Fring até o fim dos tempos. Sim, demorou, porém é um mero caso de unir o útil ao agradável: a série precisa que os grandes desenvolvimentos dessa história ocorram nos últimos episódios da temporada, necessidade que, por causa dos seus problemas de mobilidade, ganha a desculpa ideal para ser cumprida. Não é de explodir cabeças, mas funciona bem na prática.


Assim, chegamos aos dois últimos episódios da temporada com todas as tramas se cruzando, se sobrepondo e se alterando de maneiras inesperadas – alimentando as ameaças de Gus, que prometem formar uma única história final, um único impulso no caminho para a linha de chegada no episódio treze. “Quem vai morrer?”, “Qual vai ser o uso do cigarro?”, “Será que Hank vai descobrir o segredo de Walt?” são perguntas comuns aqui, também recorrentes por toda a temporada.

Mas se o final de “Crawl Space” serve como qualquer indicação, não é o resultado ou o quando, e sim como.

Voltando para a ideia da previsibilidade positiva, lá do começo da review, a última sequência era inevitável. Quer dizer, a série se chama Breaking Bad. Ainda assim, quando ela vem, oferece dois ou três dos melhores minutos de televisão – com Gilligan entregando toda a criação de tensão da sua temporada em uma só cajadada. Nada nesse momento retorna: a música não se balanceia, a câmera não oferece diversos pontos de vista, é pancada atrás de pancada, atingindo um ápice perturbadoramente insuportável. Walt não condenou só a si mesmo, ele condenou os seus filhos, sua esposa, Hank e Marie, Saul… Todos na direção das balas, tudo por causa desse homem que pensou já estar no fundo do poço.

E indo do barulho da queda direto para as risadas, ele percebe que não. Sua cova é mais profunda.

Outras observações:

– Adoro como Gus tinha tudo preparado para o massacre. Se Heisenberg estivesse no lugar dele, o trio terminaria em um hospital público ou pior.

– Linda aquela cena no deserto, com a nuvem em cima de Gus e Walt. Imagino se a produção se preparou para isso ou se a nuvem simplesmente passou durante as filmagens. Parece muito perfeito, mas nunca devemos esquecer que dissemos o mesmo sobre a pizza no telhado (pra falar a verdade, aquilo deve ter sido só o Cranston irradiando um pouco dos seus poderes sobrenaturais).

– Mike ficou no México, o que só me faz pensar cada vez mais que a série está preparando ele para algo importante nos últimos episódios. Matar o chefe, talvez? Entrando no meio de toda essa confusão, com Jesse sendo usado e tendo sido abandonado depois de uma missão mortal… Não ficarei surpreso se ele acabar prevenindo que a situação saia de controle, cortando Gus e usando Walt como uma espécie de aliado/pára-raios.

– Sempre tenho receio em usar superlativos e hipérboles para descrever qualquer série, mas é inevitável falar desse episódio sem usar alguns.  É tão diferente de tudo que está no ar, tão melhor em ser tenso… Breaking Bad fez a sua marca na história da televisão, e quando for lembrada, certamente será por cenas como a do final de “Crawl Space”. Mais: depois dessa temporada, desse episódio em particular? The Wire e The Sopranos que se cuidem.

Artigo anteriorGlee – 3×02: I Am Unicorn
Próximo artigoAlphas – 1×11: Original Sin [Season Finale]