Em abril deste ano a Netflix lançou a série Dear White People, produção baseada no filme homônimo de 2014. Desde sua primeira divulgação, tanto filme quanto série causaram discussões acaloradas, e conflitos no que diz respeito ao conteúdo. Houve quem aplaudisse, outros viram exageros, e ainda tiveram àqueles que escolheram ignorar toda narrativa.
Dias depois do lançamento, uma das questões mais levantadas pelas redes sociais no Brasil era o silêncio de quem que por semanas comentou 13 Reasons Why. A questão criada em volta ao assunto era basicamente a seguinte: por que um problema é maior ou mais importante que o outro; no caso assédio sexual e saúde mental versus racismo.
Não vou ficar adentrando ainda mais nessa questão, já que esse não é o ponto do texto, mas dizer que não foi somente Dear White People que deixou de ser comentada como deveria, houve outra série que fala sobre questões raciais que não só passou batida por muita gente, como não causou muito buzz: Black-Ish. Já adianto que a série não faz mais parte do catálogo do Netflix, sendo que sua primeira temporada não ficou nem um ano.
Do que se trata?

Black-Ish conta a história de uma família negra vivendo em um bairro nobre. Já vimos essa história?! Sim, já vimos. Fresh Prince of Bel Air (Um Maluco no Pedaço) e Me, Wife and Kids (Eu, a Patroa e as Crianças) são os dois títulos mais fáceis que me vem à cabeça, entretanto, apesar de a série beber um pouquinho dessas fontes, o grande diferencial da trama são as questões raciais levadas de uma forma muito séria e pondo na mesa assuntos contemporâneos. Alguns episódios poderiam ser facilmente classificados como dramédia.
Aqui, o pai, Andre (Anthony Anderson), está desconfortável como seus filhos estarem se tornando “brancos” demais, graças ao dinheiro que eles conquistaram. O estopim para o sentimento é quando Junior (Marcus Scribner) pede para ter um bar mitzvah. A partir daí, vemos o nosso protagonista e sua família lidarem com questões raciais, familiares, religiosas, sexuais e tudo isso misturado.
Como estamos em falta com Black-ish aqui no SM há mais de duas temporadas, resolvi fazer um apanhando dos meus episódios favoritos de toda a série:
S01E10 – Black Santa / White Christmas
Andre está determinado ser o primeiro Papai-Noel da sua agência, mas quando ele é substituído por uma mulher latina, sua reação não poderia ser mais preconceituosa. Tudo na série é trabalhado com humor extremamente inteligente, até por isso Black-ish é tão incrível, e na conversa que ele tem como sua mãe, Ruby (Jenifer Lewis), fica claro como muitos negros tratam latinos nos Estados Unidos. Ele realmente acredita que ela roubou alguma coisa que lhe pertencia, e que precisa existir uma hierarquia de conquistas, onde primeiro vem o homem negro, depois a mulher branca, depois o gay branco, e assim por diante.
S01E22 – Please Don’t Ask, Please Don’t Tell
Rhonda (Raven-Symoné) é a irmã lésbica de Andre e esse é um assunto que metade da família ignora. A questão é posta como tabu para algumas famílias negras, a homossexualidade. Além do núcleo principal, na parte da agência publicitária o assunto também é colocado em debate, e é tratado de forma desconfortável pelo outro colega negro de Andre, Charlie (Deon Cole).
S02E01 – The Word
A segunda temporada começa com tiro, porrada, bomba, e o uso da palavra que começa coma letra N, no caso, nigga (termo pejorativos para se referir aos negros nos Estados Unidos). O caçula Jack (Miles Brown) canta na escola uma música que usa a palavra, e por política de tolerância zero ao seu uso, ele é quase expulso do colégio. Acontece todo um debate sobre quem pode e quem não pode dizer a palavra que começa com N e, diga-se de passagem, essa é uma das melhores cenas da série, superengraçada -, além dos significados por trás dela, e porque essa palavra que começa com N é horrível, ou não, dependendo de quem usa.
Faço uma alusão com a palavra bitch, que sempre foi utilizada para denegrir mulheres, mas de uns tempos para cá, passou ser usada como forma de resistência. A questão é: só mulheres podem se chamar de bitch, e perante um contexto compreensível. Hoje isso significa ser forte, empoderada, entretanto não cabe aqui um homem utilizá-la, de forma alguma. Com nigga, eu entendo que a ideia é a mesma.
p.s.: No Brasil o termo fica mais confuso, sendo muitas vezes é traduzido como macaco..
S02E16 – Hope
Provavelmente um dos episódios mais difíceis da série. Fica nítido que por mais que eles tenham tentado fazer comédia, e em alguns momentos eu consegui dar uma risada, a sensação de angustia era maior. Tratar de violência policial nunca é fácil, e fazer isso com leveza é missão impossível. Eu não digo que falharam, mas com certeza esse é o máximo que dá para ser feito.
A família discutindo sobre o assassinato de mais um jovem negro de maneira confusa, afinal, são tantos que cada um está falando sobre um e demora um tempo para eles perceberem isso. Bow (Tracee Ellis Ross) tentando esconder a realidade dos caçulas. A sensação que eles deveriam fazer alguma coisa, já que um dia pode ser um deles no lugar e na hora errada. A tristeza misturada com a conformidade dos mais velhos.
E no fim, a esperança que isso pode mudar um dia.
S03E04 – Who’s Afraid of the Big Black Man?
A quantidade de coisas que um homem negro nunca irá poder fazer, eu nunca vou saber. Mas aqui eles tentam dar uma dimensão. Andre encontra uma menina branca muito nova, quase bebê, perdida no elevador, mas por medo de represália deixa ela sozinha e vai embora. O que no começo parece um absurdo, ao decorrer do episódio nos é explicado. Todos os homens negros da série pensam como ele, e depois de alguns minutos você – se tiver empatia – entende.
Existem coisas que simplesmente pessoas negras não podem fazer, porque não podem arriscar parecerem culpados.
S03E08 – Being Bow-Racial
O meu episódio favorito da série inteira. Um trecho dele está literalmente no meu feed do Instagram. Em conflito interno porque seu filho apareceu com uma namorada branca, e sem entender por que está sentindo isso, Raibow começa sua jornada de descoberta e aceitação.
Ao longo de toda série, milhões de piadas são feitas com a personagem em relação a isso. Na verdade, toda vez que há uma oportunidade o roteirista foi lá e cutucou. Sua sogra fala que ela se quer é negra em mais de um momento, afinal, seu pai é branco, e sua mãe já era mestiça. A quote I’m a doctor, que é repetida o tempo todo por ela, é engraçado, mas também necessária; ela precisa se afirmar o tempo todo, e precisa lembrar não só a sua família, como também os seus amigos e colegas de trabalho, porque ninguém a leva sério como médica.
Seu marido sempre pega no seu pé (de novo, pequenas piadas maravilhosas) em questões raciais: ela é liberal demais, brava de menos, não vê racismo em nada. Ele odeia que ela votou na Hillary Clinton nas prévias de 2008, e que ela não acredita na inocência do O.J Simpson. Tudo isso faz Rainbow ser quase branca, e ela por sua vez, confusa. Nesse episódio pela primeira vez vemos a personagem questionando tudo isso ao invés de ficar quieta, como o de costume. Conversando com seu irmão, seu pai, revisitando seu passado.
Paralelo, temos as pessoas da agência publicitária discutindo sobre relacionamentos inter-raciais, e é aqui que eu dei risada alta. Enquanto Andre nunca se quer beijou uma mulher branca, porque ele sempre teve medo de assustá-las, Charlie tem várias táticas que faz ele ser, palavres dele, como o Jon Snow. Para Charlie conquistar uma mulher branca ele diz ir em uma confeitaria, depois conversa sobre Aspen na fila, pergunta sobre seu relacionamento com seu pai, e no fim oferece ingressos para um show do John Mayer.
Andre: Então está dizendo que tem dois ingressos do John Mayer o tempo todo com você?
Charlie: O tempo todo.
Andre: Isso é incrível, ele nem está em turnê agora.
Charlie: Eu oferecia do Dave Matthews, mas eu não quero uma garota tão branca.
Eu dei risada tão alto, porque eu sou essa garota branca que eles estão falando, tirando a parte de Aspen. É inacreditável como estereótipos muitas vezes são certos, o grande ponto que muita gente não consegue entender é que ninguém é só um estereótipo, todo mundo é muita coisa ao mesmo tempo.
Considerações finais sobre Black-ish
Eu poderia ficar escrevendo mais sobre essa série, e lembrar de outras piadas maravilhosas que me fez refletir sobre tanta coisa… Como quando a família está na Disney e são confundidos com astros de basquete, e essa foi uma forma “bonita” (se é que isso existe) de racismo. Quando Andre e Pops (Laurence Fishburne) rezam para o Obama não fazer nenhuma merda como o Bill Clinton nos últimos seis meses na presidência, e isso me fez pensar o que aconteceria se um presidente negro tivesse um caso (amoroso) exposto. Ele teria chance de defesa? Na piada eles falam que ouviram dizer que não existem mais portas na casa branca por conta disso. É engraçado, estranho, obviamente mentira, triste, e faz sentido.
Por fim, Black-Ish é com certeza uma das séries mais completas, engraçadas e profundas que está no ar hoje em dia. A história é muito bem construída, atual, e por ser sitcom, existem estereótipos, mas mesmo eles são descontruídos em muitos momentos. As atuações são incríveis, as quotes verdadeiros memes prontos, e ver as crianças e os adolescentes crescerem foi sensacional, principalmente Zoey (Yara Shahidi), que começou a série sendo muito estereotipada, e termina madura, cuidando dos irmãos, preocupada com questões sociais (dentro e fora da tela, já que a atriz hoje é um dos maiores nomes do ativismo negro nos Estados Unidos, e do partido democrata).
E falando nisso…
Grown-Ish

Além disso, Zoey ganhou um spin-off, Grown-Ish, que vai contar sua trajetória dentro da faculdade. Não acho que vai nada como Dear White People, até porque lá os personagens estão nos últimos anos de faculdade, e aqui ela está entrando com 17 anos. Mas sim, pelo episódio totalmente dedicado ao spin-off colocado na temporada, é obvio que o assunto será decorrente. A personagem sempre foi a princesa da casa, que conseguiu quase tudo o que quis, e era boa em tudo, e agora irá lidar com um mundo real, onde está começando a ser descontruída em todos os sentidos.
A previsão de estreia é janeiro de 2018 e será exibido pelo canal FreeForm. No total foram encomendados 13 episódios para primeira temporada.
Yara continua fazendo parte do elenco fixo de Black-Ish. E os nomes confirmados – mais conhecidos – para a série até agora são: Dean Cole (o Charlie, Black-Ish), Trevor Jackson (American Crime) e Francia Raísa (The Secret Life of the American Teenager).
A 4ª temporada
A quarta temporada estreia nos Estados Unidos dia 8 de outubro. Ela irá começar com os Johnson cuidando do novo membro da família, o baby DeVonté, Zoey parcialmente fora de casa, e sabemos que um episódio será inspirado no musical Hamilton. Vide que um dos atores da montagem original faz parte do elenco regular da série, Daveed Diggs (irmão da Bow, Johan Johnson), faz ainda mais sentido.
Curiosidade
Black-Ish é uma série semiautobiográfica. O criador, Kenya Barris, realmente viveu muito do que escreve, e em diversas entrevistas comenta sobre o assunto. Mas além disso, existem fatos que ele colocou iguais, como ele ser casado com uma médica chamada Rainbow, ter gêmeos, e na história Andre tem uma amiga de infância que se tornou muito famosa, modelo, atriz e etc., interpretada pela Tyra Banks. Na vida real essa história é realmente verdade, Kenya e Tyra são amigos de infância, e juntos criaram o America Next Top Model em 2002.
Prêmios
Emmy:
Melhor série (nunca levou): 2016 e esse ano, acho difícil acontecer.
Anthony Anderson (nunca levou): 2015, 2016 e esse ano, perante seus concorrentes, acho difícil levar.
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Tracee Ellis Ross (nunca levou): 2016 e esse ano, arrisco que tem uma chance pequena, já que ela levou o Globo de Ouro.
Melhor atriz convidada (não levou): Wanda Sykes.
Globo de Ouro:
Melhor série (não levou): indicada pela primeira vez esse ano.
Anthony Anderson (não levou): indicado pela primeira vez esse ano.
Tracee Ellis Ross: ganhou em sua primeira indicação nesse ano.
P.S.: Eu falei que não ia falar mais nada, mas nossa, o episódio das bonecas negras e a Bow quebrando tudo na loja. Te amo Bow.
P.S.2.: Não sei se todo mundo sabe, mas a Tracee é filha da Diana Ross.
E falando e Emmy, a cerimônia mais importante da TV mundial acontece nesse domingo, dia 17 outubro. Aqui no Brasil a transmissão será exclusiva da TNT, a partir das 20h, com comentários de Michel Arouca 😉 Você pode conferir a lista com os indicados aqui.















